KONSALIK
AMOR COSSACO
Ttulo original: KOSAKENLIEBE

Captulo 1

Ouviam-se tocar os sinos quando as carruagens entraram em 
Moscovo.
 J estavam habituados: os sinos repicavam em Moscovo porque 
o czar implorava o perdo de Deus ou, ento, porque mandara 
executar diante do Kremlin espiSes, inimigos, nobres 
insubmissos, traidores ou simples suspeitos. Em Moscovo 
ouviam-se constantemente os sinos, como se a vida quotidiana 
fosse uma sucesso de festas.
 E, enquanto deslizavam pelas ruas da cidade, surgia diante 
dos seus olhares a mesma viso familiar: dos dois lados,  
sua passagem, os citadinos olhavam-nos, boquiabertos, como 
perante um espectculo inacreditvel.
 Desbarretavam-se, curvavam-se e, depois, as cabeas 
aproximavam-se: "Viste, meu caro? Trens forrados de 
zibelina! Cavalos com arreios de prata! Os sinos das tricas 
so de ouro puro e os seus gorros cintilam, cravejados de 
pedras preciosas. Que opulncia! Que altivez! 
 Quanto tempo ainda durar tudo isto? Ser permitido ser mais 
rico do que o czar? E mostr-lo, ainda por cima?"
 - Deus os defenda, aos ricos senhores do pas de Perm...
 Os guardas do Kremlin no se opuseram  entrada dos trens. 
Quem se apresentasse envolvido em peles de raposa azul tinha 
a passagem livre.

 Transposta a muralha do Kremlin, foram recebidos pelo coro 
dos monges, vindo da igreja da Ressurreio. Mas o caminho 
entre a igreja e o palcio encontrava-se ladeado por 
soldados. O prncipe Chouisky acabava justamente de transpor 
a entrada, quando os trens se detiveram. Vieram serviais 
pegar nas rdeas dos cavalos fumegantes e retirar as pesadas 
mantas de pele de raposa do interior dos trens. Trs homens, 
envergando longos cafetSes de zibelina, apearam-se e 
desentorpeceram as pernas, confrontados com o ar glacial.
 - Os irmos Stroganov acabam de chegar.
 - Prncipe Chouisky! - exclamou Jacob, o primognito. -  de 
bom augrio vermos-te a ti em primeiro lugar! Como vai o 
czar!
 - Sempre a rezar.
 O prncipe Chouisky apontou para a igreja:
 - Assistimos ontem a noventa e quatro execuSes. O czar reza 
por ter sido obrigado a tomar tal deciso.
 O coro dos monges elevou-se, encheu a atmosfera. Os irmos 
Stroganov calaram-se, de olhos fixos nos campanrios dourados 
em forma de bolbos. Mas o seu silncio no traduzia 
respeito... Enquanto os cnticos religiosos louvavam o 
Senhor, os trs irmos, em silncio, faziam contas s dvidas 
que o czar contrara junto deles. Quanto ouro, prata, cobre, 
quantas peles, sedas, brocados e at rublos lhe deram a fim 
de que ningum pudesse dizer: "Vejam s estes Stroganov! A 
sua riqueza cresce dia a dia como massa de fermento no forno! 
Acabaro por estoirar com tanto poder e abundncia! Chegmos 
ao ponto de no ser possvel distinguir o que pertence ao 
czar do que  propriedade dos Stroganov!"

 - Quer entrar na igreja? - perguntou o prncipe Chouisky, 
descendo a escada e desdobrando a gola de pele.
 Os irmos Stroganov hesitaram. Em seguida aquiesceram, abanando 
a cabea. O coro dos monges e dos padres desceu de tom; os sinos 
repicaram. O czar Ivan IV, de alcunha o Terrvel, recebia a 
bno do metropolita de Moscovo, que se encarregava pessoalmente 
deste dever, pois como primeiro prncipe da Igreja que era, tinha 
os ps bem assentes na terra. O seu antecessor fora torturado, 
castrado e privado da vista, exemplo que nenhum versculo da 
Bblia obriga a seguir.
 - Os vossos emissrios chegaram anteontem - transmitiu o 
prncipe Chouisky a Jacob, Gregor e Simeo Stroganov. - Trocaram 
beijos fraternos e o czar parecia feliz - acrescentou.
 - Precisa de dinheiro! - replicou Gregor Stroganov, dando uma 
gargalhada. - Trazemo-lhe cem mil rublos em ouro!
 - Agradecer-vos- do fundo do corao!
 O prncipe encaminhou os trs irmos para a porta que, por um 
curto atalho, conduzia do palcio  igreja, e cujo batente o czar 
entreabria pelo menos trs vezes por dia, a fim de ouvir os 
cnticos religiosos. At a, todos os czares, ao envelhecerem, 
procuravam proteco no seio da igreja... O que parecia estranho, 
porm,  que, com a idade, tambm se tornavam mais cruis.
 Os czares isolavam-se, assim, do mundo, e aniquilavam-no...
 - Entrem depressa! - sugeriu Chouisky. - As oraSes j 
terminaram e, se o czar os vir no trio e no no interior da 
igreja, pode irritar-se!
 Atravessaram rapidamente algumas vastas antecmaras, longos 
corredores abobadados, salas ornadas de colunas torcidas e 
cobertas de tapearias e, depois, aguardaram  porta da sala de 
audincias, tendo deparado com um grupo de boiardos que j se 
encontravam l. Estes cumprimentaram os Stroganov com uma 
cortesia distante, j que, desde o primeiro grande Stroganov, 
Anika, o Salineiro, se tornara to poderosamente rico que 
conseguira mandar construir um palcio e ter junto de si um 
mdico alemo, desde que esse mesmo Anika Stroganov fora nomeado 
fornecedor particular do czar e abastecia o imperador da Alemanha 
em peles preciosas, a rainha Isabel de Inglaterra em capas de 
zibelina, e os leitos das czarinas em mantas de uma leveza 
impalpvel, ningum sabia ao certo qual o poder concedido por 
Ivan IV aos filhos de Anika.
 De resto, os Stroganov obtinham tudo o que se lhes pedia: 
salmo, trutas, solhas, caviar, peles de rena da tundra, 
castores, zibelinas, peles de esquilo, arminhos e raposas. 
Chegaram mesmo a encontrar prolas no rio Iksa, o que pareceu 
misterioso, embora as tivessem exibido! Importavam vinhos de 
Itlia e, na feira de Kola, trocavam peles por pipas de vinho. Na 
rude Rssia, no reino moscovita, o vinho era uma raridade e a 
venda de vinho ao czar e aos boiardos revelava-se bastante 
rendosa.

 No se mostrarem invejosos! Era um dos princpios dos Stroganov. 
Prudncia, e ateno ao futuro. Esta a principal preocupao de 
todos, prncipes e boiardos. E assim corriam os negcios, melhor 
ou pior, com a ajuda de pequenos presentes e de servios 
prestados. Construir amizades, e boas defesas!
 O czar envelhecera, tornara-se uma sombra do que fora, 
decrpito, curvado, nunca tendo recuperado depois de ter morto o 
filho mais velho num furioso ataque de raiva. O actual herdeiro 
era um dbil meio-idiota. Quem sucederia a Ivan se este morresse 
subitamente? Quem se encarregaria do destino da imensa santa 
Rssia? Esse bruto do Boris Godounov? O sensato Chouisky? 
Dimitri, o Lactente?
 Que recomendava aos filhos Anika Stroganov? "Calcular os lucros, 
esquecer as despesas." O que significava conquistar o poder fosse 
qual fosse o potentado reinante no Kremlin. Eles precisam de 
dinheiro, os czares! E, sem os Stroganov, o cofre do czar 
encontrar-se-ia meio-vazio. O brilho de Moscovita tinha origem no 
longnquo pas de Perm, bero de uma dinastia de comerciantes 
como o mundo nunca conhecera, e em relao aos quais os 
comerciantes alemes de Augsburgo no passavam de pequenos 
lojistas!
 Um sentimento de inquietao propagava-se entre todos os que se 
encontravam  espera. A guarda do palcio, composta por 
gigantescos russos brancos, usando enormes gorros de peles que os 
faziam parecer ainda mais altos, defendia as entradas. O czar 
regressara da igreja.
 Uma teoria de mulheres de rosto velado, como freiras penitentes, 
percorria os corredores: aves nocturnas de reflexos azuis, a 
czarina e as damas de companhia.
 Os boiardos aproximaram-se uns dos outros, os irmos Stroganov 
olharam-se, a porta da sala de audincias abriu-se bruscamente e 
Boris Godounov apareceu, envergando um longo manto bordado a 
ouro, cujas pregas ainda exalavam o perfume do incenso. 
Dirigiu-se aos Stroganov e estendeu-lhes a mo, pois beij-los 
seria despropositado. No eram nobres e, aos olhos de todos, 
apresentavam-se como comerciantes vindos da massa annima do 
povo, bem cotados, mas no tratados como iguais.
 S mais tarde, nos seus aposentos privados, Godounov os honraria 
com um abrao, como fizera o prncipe Chouisky. Os Stroganov 
importavam-se pouco com estes pormenores, tinham mais conscincia 
do seu valor do que Boris Godounov do dele.
 - O czar dignar-se- receb-los - disse Godounov num tom de voz 
to forte que todos os presentes ouviram.
 - Deus abenoe o czar!
 - Deus o abenoe! - murmuraram em coro os irmos Stroganov. 
"Basta de salamaleques", pensaram eles, passando diante de 
Godounov, para penetrarem na sala de audincias. Baixaram a 
cabea e, atrs deles, fecharam-se os pesados batentes da porta. 
Encontravam-se sozinhos em frente de Ivan, o Terrvel, tal como 
este ordenara. Godounov e Chouisky aguardavam na antecmara. Mais 
uma prova da importncia que estes comerciantes assumiam aos 
olhos do czar! Encontrarem-se a ss com o czar equivalia a uma 
bno...

 O que ouviam contar na longnqua regio de Perm, em Oriol, nas 
margens do rio Kama, residncia dos Stroganov, podiam v-lo 
agora,  sua frente: um czar sentado no trono, curvado, de rosto 
macilento, do qual sobressaa um nariz aquilino. Sobre o cabelo 
grisalho, um gorro de zibelina. Quanto  pelica, de brocado 
francs e guarnecida de peles, vinha da casa Stroganov... A barba 
do czar era rala. Ivan, mesmo sentado, apoiava-se no seu basto 
de ponta ferrada, no seu possoch todo ornamentado a ouro e prata 
trabalhada, o maldito basto com o qual zurzira, matara, 
traspassara, empalara o prximo, smbolo do seu poder ilimitado, 
s suplantado por Deus. A pior caracterstica de Ivan: 
assassinava enquanto orava...
 Os irmos Stroganov, sempre de cabea baixa, espreitavam o czar. 
Assustados com o seu aspecto de moribundo, pensaram todos o 
mesmo: teremos de conseguir hoje mesmo aquilo de que 
necessitamos, ns, os Stroganov, mas tambm a Rssia: o domnio 
do mundo inteiro! Nascer hoje o povo mais rico, mais feliz do 
Universo, a grande Rssia!
 - Ento, vis traficantes? - lanou-lhes Ivan, em voz alta.
 Os Stroganov ergueram a cabea. Este acolhimento traduzia boas 
intenSes: se Ivan lhes chamava traficantes, estava bem-disposto. 
De contrrio, qualific-los-ia de lobos uivando  sua porta, 
lobos que ele alimentava e pretendiam pagar-lhe em excrementos... 
Era difcil falar com o czar, o que o velho pai Anika sabia 
perfeitamente. S o sucesso contava. "Calcular os lucros, 
esquecer as ddivas..."
 - Sois a essncia de Moscovo, senhor - disse Jacob, o mais 
velho. - Oxal Deus no se lembre de que uma essncia pode 
volatilizar-se...
 - Que querem de mim?
 O czar apontou para um banco estofado, no qual se sentaram os 
trs irmos, constrangidos como colegiais, at que Gregor, o mais 
diplomata, tomou a palavra:
 - Grande Czar, trazemos cem mil rublos em moedas de ouro, duas 
mil peles de esquilo, novecentas raposas azuis...
 Ivan observava atentamente os trs irmos, com o seu olhar 
penetrante que se tornara ainda mais insuportvel nos ltimos 
anos. A vtima desse olhar emudecia ao imaginar a crueldade em 
todo o seu horror.
 - Trazem tudo isso da vossa regio de Perm?
 - No.
 Simeo Stroganov, o estratega da famlia, tentou suportar o 
olhar do czar. Conseguiu-o, mas o seu corao batia tanto que o 
sentia na garganta.
 - Como sabeis, senhor, caadores estrangeiros fornecem-nos peles 
que vm do outro lado dos rochedos, dos vales, das montanhas dos 
Urales,  um pas a que chamam Mangaseja...
 - Mangaseja! - Ivan debruou-se para a frente e apoiou-se ainda 
mais no basto dourado. - Sempre Mangaseja! J o vosso pai me 
falava de Mangaseja!
 - No o ignoramos, grande czar - Jacob, o frio calculista, 
lanou esta observao e acrescentou: - E sabemos que projectavas 
penetrar nesse pas pela fora das armas, a fim de o conquistar 
para a Rssia. Mas  impossvel. Um exrcito deve dispor de uma 
via de penetrao, precisa de receber vveres e muniSes. No  
possvel enviar homens e guarniSes para regiSes selvagens que 
ningum conhece, exceptuando alguns caadores de peles. A cadeia 
montanhosa inacessvel dos Urales impede o acesso. No existe 
nenhum caminho para alm de alguns carreiros que orlam 
precipcios e se elevam a altitudes vertiginosas...
 - Mangaseja - prosseguiu Simeo -  um pas indescritvel, de 
inimaginvel riqueza.

 O czar bateu com o possoch nas lajes do cho.
 - Palavras! S palavras! - exclamou. - Onde esto os actos?
 Gregor Stroganov, o diplomata, debruou-se para a frente:
 - Recolhemos as ltimas informaSes respeitantes a Mangaseja, 
czar! Vivem l muitas tribos, diz-se que as populaSes, possuem 
olhos amendoados, como os dos Chineses ou dos Trtaros. No Vero, 
est tanto calor que os habitantes dessas regiSes vivem nos rios, 
para que o sol no lhes queime a pele. Mas no Inverno o frio  
tanto que mal encontram mantimentos e, quando no conseguem 
abater uma rena ou pescar um peixe atravs das espessas camadas 
de gelo, devoram-se uns aos outros... Samoiedos,  assim que se 
chamam, o que significa que se alimentam da sua prpria carne... 
Outros povos desse pas tm a boca colocada no cimo da cabea e 
no conseguem falar...
 - So histrias das nossas avs - replicou Ivan, num tom que 
traduzia alguma reserva. - Vejamos, essas coisas no existem, vis 
traficantes!
 Mas os irmos Stroganov sentiram que a flecha disparada atingira 
o corao do czar.
 - Ainda h outra coisa em Mangaseja, czar! H povos que criam 
gigantescos rebanhos de zibelinas negras a fim de se alimentarem 
da sua carne! Zibelinas preciosas! As raposas azuis so 
utilizadas como vacas, mungem-nas! Ensinaram ursos polares a 
pescar nos rios peixes que eles depois comem. Todo o pas 
transborda de animais com peles apreciadssimas, de peixes dos 
mais nobres, de ouro, de prata, de sal, de cobre, de chumbo e de 
pedras preciosas!
 - E por que razo ningum conquista esse pas situado mesmo  
minha porta? - rugiu o czar. Levantou-se de um pulo e arremessou 
o possoch em direco a Jacob Stroganov. Mas este encontrava-se 
demasiado longe para poder ser atingido:
 - Vil traficante! No me digas que vieste a Moscovo com os teus 
irmos para me falares do pas onde ordenham as raposas azuis!
 - Para l dos Urales reina um czar... - retomou Simeo, o 
estratego impassvel.
 Era uma frase de tal modo temerria que os irmos estremeceram, 
j na defensiva. Mesmo admitindo que exprimia a verdade, 
tencionavam apresentar o facto a Ivan com mais rodeios. Mas 
Simeo devia estar a encarar a situao de um ponto de vista 
diferente.
 Ivan, o Terrvel, considerou fixamente os trs interlocutores. O 
rosto de ave de rapina estremeceu imperceptivelmente debaixo do 
gorro de peles.
 - Um czar! - exclamou por fim, numa voz rouca.
 - Existe mais algum czar para alm de mim? E chamam-lhe mesmo 
czar?
 - Intitula-se "Senhor do Mundo" - respondeu Gregor, o diplomata. 
-  um sucessor de Gengiso e o seu verdadeiro nome  Koutchoum. 
Mandou proclamar por toda a parte: "Sou o primeiro czar de toda a 
Sibria!"

 Nos ltimos meses, os seus soldados, chefiados por Mametkoul, 
seu sobrinho, tm efectuado incursSes ao pas de Perm, assaltando 
as nossas aldeias, destruindo as nossas salinas, afundando os 
nossos barcos ancorados no Kama e, quando as nossas tropas de 
vigilncia avanam, desaparecem nas regiSes selvagens, para ns 
ainda impenetrveis, dos Urales. Raptam mulheres, crianas, 
queimam cidades at aos alicerces e sublevam as tribos que 
negoceiam connosco, organizam justas equestres em que os 
prisioneiros so amarrados a postes: o jogo consiste em lhes 
cortar o pescoo a galope!
 J comemos a construir muralhas e recintos em que os aldeSes 
possam encontrar segurana.
 Ivan, o Terrvel, observava os Stroganov em silncio. Segundos 
que pareciam uma eternidade... Mas nesses segundos decidiu-se o 
futuro da Rssia, isto , a conquista da Sibria, ou Mangaseja, 
imenso pas inexplorado. "So poderosos, estes mercadores", 
pensava Ivan IV, "e o seu poder aumenta todos os anos... um dia, 
estes senhores desconhecidos da Rssia sero maiores do que o 
czar. Poderemos admitir tal situao? Deveremos, como j 
aconteceu, conceder aos Stroganov autorizaSes excepcionais, 
abrir-lhes, por especial favor do prncipe de Moscovo, o caminho 
do Oriente, permitir que descubram a Sibria, para a Rssia,  
certo, mas cujos tesouros iro para os seus bolsos? Essas 
lendrias terras de Mangaseja merecero verdadeiramente que um 
comerciante - mesmo com o desconhecimento do resto da corte - 
possa desprezar e desafiar o czar? Estas informaSes vindas do 
outro lado dos Urales no sero exageradas?"
 - Querem ter o direito de pilhar esse pas conquistado em meu 
nome! - exclamou Ivan com dureza.
 - S pedimos autorizao para unir a Sibria  Rssia! - 
respondeu Jacob Stroganov. - Nada mais. Sublime czar.
 -  quanto basta para quem conhea os Stroganov!
 Ivan esboou um gesto que obrigou os Stroganov a levantarem-se 
do banco todos ao mesmo tempo.
- Chamar-vos-ei se a minha deciso coincidir com a vontade de 
Deus!
 -  urgente, czar! - arriscou Simeo Stroganov, inclinando-se 
muito. - Todos os dias arde uma aldeia nas nossas terras de Perm.
 - Na Rssia, todos os dias arde qualquer coisa... - replicou o 
czar impassvel. - Prometo pensar em Mangaseja.
 Terminara a audincia. Os Stroganov abandonaram a sala pouco 
satisfeitos, mas no totalmente decepcionados.
Sabiam, pelo pai Anika, que Ivan hesitava sempre antes de 
conceder uma autorizao.
 Acontecera o mesmo quanto  obteno dos direitos de explorao 
das salinas, por ocasio do encerramento das fronteiras do pas 
de Perm, e quanto  interdio de navegar nas guas do Kama, por 
ocasio da fundao das cidades que fizeram da casa Stroganov um 
estado dentro do Estado... Ivan acabara sempre por ceder. A 
Rssia era eterna, os Stroganov no: era este o ponto mais 
importante. E, alm disso, a Rssia s poderia crescer sob a 
proteco dos Stroganov.
 - Aguardaremos em Moscovo - disseram os irmos ao prncipe 
Chouisky quando, na ala do Kremlin reservada aos visitantes, se 
encontravam sentados  volta de uma travessa de frangos assados, 
acompanhados de vinho italiano. - O czar que suceder a Ivan 
poder gabar-se de reinar sobre metade do mundo!
 O prncipe Chouisky guardou esta frase na memria.
 Como Boris Godounov, acreditava que chegaria a hora em que seria 
coroado czar. Os herdeiros da raa de Ivan no viveriam muito 
tempo no trono. Era certo que depois da morte de Ivan...

 Os irmos Stroganov mantiveram-se em Moscovo at  Primavera. 
Enquanto estabeleciam novas relaSes comerciais, cumularam de 
presentes os boiardos e os prncipes que lhes eram favorveis, e 
compraram aqueles que ainda no eram seus parceiros. Souberam, 
assim, por intermdio de Boris Godounov, que Ivan enviara um 
embaixador ao czar siberiano Koutchoum, a fim de exigir que este 
lhe pagasse um tributo, considerando-se Ivan o nico verdadeiro 
czar do mundo. Tomaram tambm conhecimento da resposta de 
Koutchoum, que replicou, insolente: "Eu, czar siberiano, 
potentado livre de Koutchoum, fao saber ao grande duque branco 
de Moscovo: quem quiser a paz poder conclu-la comigo, mas quem 
quiser a guerra t-la-!" O embaixador que regressou com a 
mensagem confessou ter atravessado a fronteira russa sob uma 
chuva de bastonadas, ordenada pelo sobrinho de Koutchoum, 
Mametkoul.
 - Conseguiremos! - concluiu Jacob Stroganov, satisfeito. - Ivan 
no ceder perante um brbaro...

 A 30 de Maio do ano de 1574, Ivan IV recebeu mais uma vez os 
irmos Stroganov. Em traje de cerimnia, Jacob e Gregor 
atravessaram o Kremlin. Simeo regressara de tren a Oriol, a fim 
de zelar pelos negcios, h tanto tempo abandonados. Agora, no 
incio da Prima vera, chegariam os caadores de peles com todo o 
esplio do Inverno...
 - Reflecti muito - disse-lhes Ivan, num tom de voz muito cortado 
(s o brilho do olhar traa a violncia dos sentimentos que 
tentava refrear). - Concedo-vos autorizao para conquistarem 
esse pas, at ao rio Tobol, e para construrem fortalezas e 
praas fortes a fim de libertarem os povos submetidos a esse 
pretenso czar!
 Como recompensa pelos vossos grandes servios, outorgo-vos, por 
escrito, o direito de explorarem indefinidamente as minas de 
ferro, de chumbo, de cobre e o de negociarem livremente com os 
Quirguizes e os Buchares, se fortificarem as colnias que vierem 
a fundar.
 Os Stroganov fizeram uma profunda vnia, quase at ao cho. 
"Esqueceu-se do mais importante", pensavam eles, "pois no disse 
uma palavra quanto ao apoio do seu exrcito aos nossos 
empreendimentos. Teremos de ser ns, os Stroganov, a conquistar 
sozinhos a Sibria?"
 A um gesto do czar, Boris Godounov acompanhou os dois irmos at 
 porta, e esperou que esta se fechasse sobre os trs, para 
murmurar:
 - No se esqueam do papel que desempenhei nesta hora 
decisiva...
 O mesmo era dizer aos Stroganov quem seria, um dia, o novo czar.

Captulo 2

 Passaram-se cinco anos. Os Stroganov, no obstante o direito 
extraordinrio que lhes fora concedido, no empreenderam nenhuma 
aco. No recebendo apoio das tropas do czar, teria sido uma 
loucura atacar isoladamente os exrcitos de Koutchoum. De resto, 
Mametkoul, o sobrinho pouco conformista, cessara de investir para 
alm das suas fronteiras e o negcio corria melhor. Por que razo 
conquistar aquele pas se tudo se passava sem sobressaltos?

 Nestes cinco anos, morreram Jacob e Gregor Stroganov. O irmo 
Simeo, auxiliado pelos filhos de seus irmos, Nikita e Mximo, 
retomou o projecto de conquistar o fabuloso pas de Mangaseja. 
Ivan, o Terrvel, ainda era vivo, mais sanguinrio do que nunca. 
Os Stroganov pagavam escrupulosamente os seus tributos a Moscovo, 
mas nenhuma das partes voltou a referir-se  Sibria. O czar 
encontrava-se mais preocupado com os problemas da Litunia e da 
Polnia, decerto mais tangveis! Mangaseja parecia... pura 
fantasia!
 O mesmo no acontecia com a jovem gerao dos Stroganov, os 
sobrinhos Nikita e Mximo, que prestavam ateno a todos os 
rumores e souberam, assim - e quem o no soube, na Rssia? - o 
que se passava com um estranho e pequeno povo que vivia nas 
margens do Don, e a quem chamavam Cossacos. Ningum conseguia 
compreender o seu comportamento. Por vezes, combatiam ao lado do 
czar, como os mais valorosos guerreiros; em outras ocasiSes, 
atravessavam os campos como assaltantes, incendiando, pilhando, 
violando, batendo-se contra os seus antigos camaradas, os 
czaristas. O povo admirava-os por serem homens livres. Nos 
arquivos do Kremlin, estavam qualificados como ladrSes, 
salteadores, assassinos, bandidos e desertores. Batiam-se contra 
os Turcos nas margens do mar Azov. Este aspecto agradava ao czar, 
embora eles tambm pilhassem os navios do Volga, fugindo em 
seguida nos seus cavalos, velozes como um relmpago, para os 
confins da estepe...
 "Os Cossacos so os nicos capazes de medir foras com os 
cavaleiros de Koutchoum", pensava Nicolas Stroganov, depois de 
recolher informaSes suficientes a respeito destes habitantes do 
Don e das estepes prximas do mar Cspio. "Abater o adversrio, 
ser enforcado ou perseguido,  essa a vida deles! Se queremos 
conquistar Mangaseja, ter de ser como esses povos! Seria 
conveniente discutir com eles..."
 Simeo, o nico sobrevivente dos trs irmos, admirava a 
intuio dos sobrinhos e sentia-se orgulhoso. A autorizao 
assinada por Ivan, e que confirmava os Stroganov como mercadores 
mais ricos do Universo, permanecia intil dentro do cofre. Esta 
triste situao trazia Simeo verdadeiramente doente. Mas, at 
agora, no descobrira nenhuma maneira de penetrar na Sibria sem 
o auxlio das tropas do czar.
 - Vou escrever aos Cossacos! - anunciou a Nikita e Mximo. - 
Quem  o seu chefe?
 - O mais conhecido  Jermak Timofeivitch, condenado  morte 
pelo governador da provncia, mas nunca aprisionado... - Mximo 
Stroganov consultava os documentos: - os povos das margens do 
Volga temem-no como  peste, mas os habitantes das regiSes do Don 
chamam-lhe destemido irmo. Que lhe vais dizer tio?
 - Que Deus necessita deles! - respondeu Simeo Stroganov 
suavemente.
 - O que no pode deixar de lhes agradar. - Nikita recostou-se na 
cadeira estofada de pele e deu uma gargalhada. Era naturalmente 
alegre. - Nunca pilharam nem roubaram em nome de Deus!
 - Mas tero de ser pagos! - Simeo tocou uma sineta. O escriba 
apresentou-se, trazendo um tinteiro de prata cinzelada e algumas 
penas. - Se o vosso av Anika fosse vivo... - retomou Simeo a 
meia-voz, emocionado. - A Sibria foi o grande sonho da sua vida. 
Ns realiz-lo-emos.


 A aldeia de Blagodorni situa-se algures no Don, rodeada de 
estepes e de matas de btulas, de cerejais e de roseiras bravas. 
Possui algumas casas toscas de madeira, um caminho de terra 
batida, jardinzinhos rodeados de sebes e at mesmo uma minscula 
capela.
  frente das casas, as guas preguiosas do Don, por detrs, a 
estepe infinda e, por cima de tudo, o vasto cu azul... Deviam 
viver aqui os homens capazes de compreender o significado da 
palavra eternidade.
 Mas acontecera o contrrio. Blagodorni vivera a experincia das 
coisas perecveis; por trs vezes incendiada pelas tropas do czar 
e reconstruda pela quarta vez, a aldeia conseguira sobreviver s 
expediSes punitivas do czar, vira executar os seus homens, os 
que haviam sido apanhados, e ouvira os juramentos de vingana 
daqueles que regressavam, uma vez afastado o perigo.
 Por agora, reinava a paz; os homens que orgulhosamente se 
intitulavam "Cossacos", deslocaram as suas campanhas para sul e 
pilhavam os nmadas vindos do mar de Azov em busca de pastagens. 
Esta situao no desagradava ao czar de Moscovo, mas pouco 
rendia. Recomear as querelas com Moscovo afigurava-se demasiado 
perigoso a Jermak. A nova gerao ainda no crescera o suficiente 
para preencher as vagas criadas nas hordas de cavaleiros. Os 
sobreviventes das guerras travadas aspiravam  paz e a um pouco 
de repouso. Uma pequena ajuda de vez em quando.., era uma espcie 
de exerccio necessrio a fim de no degenerarem em camponeses 
imobilizados. Era, de facto, o que de pior poderia acontecer a um 
cossaco.

 Foi num dia de Abril do ano de 1579 que trs cavaleiros cobertos 
de p irromperam em Blagodorni e perguntaram onde se situava a 
casa de Timofeivitch. Como perguntas semelhantes feitas por 
outros forasteiros sempre tinham suscitado alguma desgraa, os 
trs cavaleiros foram, em primeiro lugar, apeados das 
cavalgaduras e desprovidos dos seus haveres, tarefa que um bom 
cossaco nunca se esquece de realizar, e interrogados na praa 
grande, entre o Don e a igreja. As explicaSes, segundo as quais 
eram enviados dos comerciantes Stroganov e portadores de uma 
mensagem dirigida a Jermak, no produziram nenhum efeito imediato 
nos cossacos. No Don, o poder da casa Stroganov era ignorado. 
 Mas, nesse mesmo dia de Abril, a situao alterou-se. Os trs 
forasteiros foram conduzidos a casa de Jermak, onde os atiraram 
para um canto. Em seguida, partiram emissrios em busca de 
Jermak. Este encontrava-se tranquilamente sentado  beira do Don, 
ocupado a pescar e a conversar com o amigo Ivan Matveivitch 
Mouchkov, o qual, deitado de costas, esculpia, com a ajuda de uma 
faca, um pedao de madeira, sonhando com os hericos tempos 
passados.
 - Uma carta? - surpreendeu-se Jermak quando os cavaleiros o 
encontraram. - Uma carta de um Stroganov para mim? Existe, ento, 
algum que me escreva uma carta? Na verdade, os tempos esto a 
mudar, Ivan Matveivitch! Antigamente, ia o carrasco buscar-me a 
casa!
 - O mundo est a tornar-se deserto, Jermak Timofeivitch - 
respondeu melancolicamente Mouchkov, lanando a obra inacabada s 
guas do Don. - Agora querem relacionar-se connosco como se 
fssemos citadinos imbecis!

 Entretanto, na cabana de Jermak, o pope debruava-se sobre a 
carta. Era o nico habitante da aldeia que sabia ler. Antes de se 
alistar no exrcito de Jermak, dispusera de tempo para aprender 
esta cincia, cerca de dezassete anos antes, no mosteiro ao qual 
fora entregue ainda adolescente. E, apesar das pilhagens e das 
incursSes, continuava a ser, para grande surpresa de Jermak, um 
bom pope. A ele se devia a pequena capela de Blagodorni. 
 Como  evidente, participava, de vez em quando, em expediSes de 
pilhagem, mas unicamente com o objectivo de obter cones para 
ornamentar a capela da aldeia, cruzes para as bnos, e clices 
para a missa. 
 Assim, Blagodorni possua uma das mais belas iconostases que 
imaginar se pode, e um verdadeiro tesouro constitudo por clices 
incrustados de pedras preciosas e por vestes sacerdotais.
 - Trata-se verdadeiramente de uma carta! - exclamou Jermak 
quando o pope lhe mostrou a mensagem, fazendo-lhe sinais por cima 
das cabeas dos paroquianos presentes.
 Todos os homens da aldeia se reuniram em casa de Jermak a fim de 
viverem o acontecimento: algum de longe, do norte, escrevera 
para Blagodorni! foi o "dia do sculo" e assim ficou conhecido 
na histria da Rssia e do mundo.
 - A paz! - gritou o pope Oleg com todo o poder da sua voz 
tonitruante. - Eu vou ler! Jermak Timofeivitch, esta carta foi 
escrita por um certo Simeo Stroganov, da cidade de Oriol, nas 
margens do Kama...
 - Se viesse da Lua, ser-me-ia igualmente desconhecida! - 
exclamou Jermak, sentando-se. Examinava os trs emissrios, ainda 
estendidos no canto do compartimento, inquietos, com o medo 
estampado no rosto, brancos como a cal.
- E que pretende esse Simeo, das margens do Kama?
 - Diz o seguinte: "Ao comandante dos Cossacos, Jermak 
Timofeivitch, escrito a 6 de Abril de 1579, em Oriol. Caro irmo 
em Cristo Jermak..."
 - Idiota! - exclamou Jermak em voz alta.
 - No entanto, o incio  animador! - replicou o pope com um 
olhar de desaprovao. - Eu continuo: "A tua reputao chegou at 
ns acompanhada pelo brilho do teu herosmo e pelo relato das 
perseguiSes de que foste alvo. A confiana que temos em Deus 
incita-nos a convencer-te de que seria prefervel renunciares a 
essas actividades indignas de um combatente cristo, tornares-te 
guerreiro do czar branco, desprezando os perigos inglrios e 
reconciliando-te com Deus e com a Rssia.
 - Continua a ser idiota! - concluiu Jermak, ainda mais 
brutalmente. Em seguida olhou para os trs emissrios e 
debruou-se sobre eles.
 - Quem  esse Simeo Stroganov, hem?
 -  o homem mais rico da Rssia - replicou um dos interpelados 
numa voz hesitante.
 -  encorajador! - observou Jermak. - Continua, pope!
 "Possumos fortalezas e domnios, mas muito poucos soldados. 
Venham ajudar-nos a proteger a regio do grande Perm, assim como 
os limites orientais da cristandade..." 

 - Praas fortes e domnios... - repetiu Jermak, pensativo. - E, 
para alm das fronteiras, estendem-se terras desconhecidas... 
Conviria examinar esta proposta... Faamos o que fizermos l de 
longe, no Norte, ser pelo czar e pela cristandade!
 Estendeu as pernas um pouco arqueadas, de cavaleiro, e lanou um 
olhar ao seu amigo Mouchkov, cujos olhos brilhavam de felicidade. 
Quer a actividade se desenvolvesse no Kama ou nas margens do mar 
Negro, nos Urales ou perto do Volga, a "calma" chegara ao fim, 
desta inaco constante, esta edificante sabedoria, este tdio 
que corri como um verme. Calcorrear de novo as imensas terras, 
penetrar nas aldeias e fazendas com gritos de fazer gelar o 
sangue... Um pas rico e desconhecido... na verdade, teria de ser 
rico, j que nenhum cossaco l entrara.
 - Submeteremos a deciso a votao! - exclamou Jermak, que 
compreendera o olhar radioso do amigo Mouchkov.- Ningum ser 
forado a abandonar Blagodorni, mas quem quiser partir comigo 
dever procurar-me hoje  noite na praa grande! - Ergueu -se de 
um pulo, passou entre alas de mos que o aplaudiam com entusiasmo 
e voltou-se uma ltima vez. 
 - Enviem recrutadores para as margens do Don. Reunam por meio de 
tambores os habitantes do Volga. Levarei comigo todos os que 
tiverem coragem!
 Era uma frase prfida. Algum cossaco carecia de coragem? Ao 
ouvir tais palavras, quem ousaria ficar na aldeia a plantar 
couves?
 - Irmos, todos para Kama! - gritou Mouchkov, na retaguarda.
 - E quais so as garantias? - perguntou o pope,, meneando a 
cabea.
 - Garantias?
 - Sim, precisamos de ter a certeza de que exigem os nossos 
prstimos para a defesa da cristandade!
 "Desde que tenhamos oportunidade de encher os bolsos!", pensavam 
eles todos. "Mas quem nos garante que assim ser?" Era um sbio, 
o pope! Poderia esta carta imbecil servir de garantia?
 - Partiremos, a cavalo, ao encontro de Simeo Stroganov e os 
trs emissrios servir-nos-o de guias! - Jermak sorriu ao 
apontar para as trs silhuetas amedrontadas coladas  parede. - 
Se nos tiver enganado, arrancar-lhe-emos a pele e faremos o mesmo 
aos trs emissrios! No  impunemente que se incomoda Jermak 
Timofeivitch!
 - Viva a liberdade! - gritou Mouchkov, erguendo os braos, 
entusiasmado. - Irmos, a caminho! Aqui vo os cossacos!

 Em meados de Maio, as foras combatentes de Jermak estavam 
prontas para o combate. Os cossacos acorreram de todos os 
lugares, deixando atrs de si casas, mulheres, filhos e parentes 
idosos, respondendo ao apelo de Jermak que os convidava a 
lanarem-se em novas aventuras, ao assalto de um pas 
desconhecido, de reputao carregada de fantasia.

 Na praa grande de Blagodorni reuniram-se quinhentos e quarenta 
cavaleiros. Formavam filas cerradas at s margens do Don, l 
muito ao fundo, pois a praa da igreja no bastava para os conter 
a todos. O pope, Oleg Vassilivitch Koulakov, que vestira a 
sotaina negra de sacerdote sobre as calas e as botas de cossaco, 
passava a cavalo por um caminho deixado livre, entre as filas de 
cavaleiros, e benzia homens e animais, salpicando-os com gua 
benta e cantando o Kyrie Eleison. O momento era solene. Muitos 
cavaleiros tinham lgrimas nos olhos e rezavam com um fervor 
sincero. S depois desta cerimnia Jermak montou a cavalo e 
ergueu os braos.
 - Cossacos! - gritou. - Rumo ao Norte!
 Em seguida, partiu a galope, passando  frente dos trs 
mensageiros dos Stroganov e de Mouchkov, que comandava o primeiro 
grupo de cavaleiros.
 - Para norte! - rugiram em coro quinhentos e quarenta vozes. E, 
assim, Blagodorni desapareceu sob uma gigantesca nuvem de p.
 O pope, montado no seu cavalo, foi o ltimo a abandonar a 
aldeia. Fechara a igreja, mas no se esquecera de pendurar na 
porta uma tabuleta de madeira: "Encerrado por vontade de Deus". 
Porm, ningum na aldeia a poderia ler.
 Uma coluna de cossacos em deslocao durante vrias semanas no 
se assemelha em nada a uma coluna normal de homens e cavalos de 
outras regiSes. A distncia do Don ao Kama era grande, e nenhum 
verdadeiro cossaco consentiria em percorrer tamanha extenso de 
terras sem roubar ou pilhar pelo caminho... aquilo a que Jermak 
chamava "viver da terra".
 As aldeias que atravessavam lamentavam-se, pois, ao v-los 
chegar, desesperadas, espoliadas at  ltima migalha de vveres 
e a braos com mulheres e raparigas grvidas. Era intil 
defenderem-se, mortalmente perigoso esconder o que quer que 
fosse, impossvel fugir. Quinhentos e quarenta cossacos de uma 
assaltada, uma calamidade comparvel a uma invaso de gafanhotos 
ou a um tornado. Era preciso suportar, de cabea baixa. 
 Quando muito, poderiam prevenir os outros aldeSes. Assim, alguns 
camponeses cavalgavam sempre a alguma distncia do pequeno 
exrcito de Jermak, descrevendo grandes crculos em volta dos 
cavaleiros, semeando o alarme pelas aldeias por que passavam.
 Foi o que aconteceu em Novo Orpotchkov, aldeia situada a 
montante do Volga, e que era chefiada por um "antigo", Alexandre 
Grigorivitch Loupin.
 Loupin, o estiraste, no era um homem forte, mas tambm no 
carecia de coragem. Quando os cavaleiros que vinham  frente o 
preveniram, tocou a reunir, ocupou a rua principal com os seus 
homens, chegou mesmo a armar as mulheres com mocas, barras de 
ferro, ancinhos, enfim, tudo o que pudesse servir para repelir e 
atacar. E, sobretudo, preparou uma armadilha: escondeu a metade 
da populao, a fim de que, chegado o momento, pudessem atacar 
pela retaguarda os cavaleiros cossacos, uma vez iniciados os 
combates na frente. Nem um cossaco consegue facilmente lutar em 
duas frentes.
 Novo Orpotchkov.
 Segundo Ivan Matveivitch Mouchkov, era o nome de um aglomerado 
rstico que o diabo construra mas que Deus cobrira com um manto 
protector...
 - Devamos ter feito um desvio para o evitar - repetia ele 
constantemente. - Logo que vi aquela multido de camponeses na 
rua, no agoirei nada de bom.
 Passou-se tudo como estava previsto. Jermak e Mouchkov, que 
cavalgavam  frente das tropas, avistaram, mais divertidos do que 
surpreendidos, todos aqueles homens que lhes barravam o caminho.

 - Tambm acontecem destas coisas! - exclamou Mouchkov 
alegremente, detendo a marcha. Os cossacos estacaram, rindo. 
Quinhentas e quarenta vozes produziram um clamor retumbante que 
se repercutiu pelos campos tranquilos antes de ir cair sobre os 
corajosos camponeses.
 - No se afoitem! - rosnou Loupin. - Agora ainda riem, meus 
caros cossacos, mas dentro de momentos choraro!
 - Devamos ser poupados a tanta estupidez - observou Mouchkov, 
limpando as lgrimas de tanto rir. - Que te parece, Jermak?
 - Nada!
 Jermak aprumou-se, desembainhou o sabre preso  sela e 
brandiu-o.
 - Avancem! - gritou, por seu lado, o estiraste Loupin num tom 
surdo, dirigido aos seus camponeses. - Irmos, no seremos 
esmagados sem nos defendermos!
 Os cossacos atacaram. Um imenso clamor encheu a atmosfera, 
produzindo um efeito que nem os quinhentos e quarenta cavalos e 
cavaleiros armados de sabres tinham esperado conseguir. Os homens 
de Novo Orpotchkov desfizeram-se das armas e dispersaram por 
todos os lados.
 S Loupin se manteve no seu posto, imvel no meio da rua, e 
Jermak, ao passar por ele, limitou-se a empurr-lo. O estiraste 
rebolou pelo cho, caiu num fosso e s por isso sobreviveu aos 
dois mil cascos que lhe passaram por cima.
 Meia hora mais tarde, a aldeia estava a arder. Os cossacos 
traziam para a rua peles, sacos de farinha, jias de pechisbeque, 
carne fumada, frascos de pepino de conserva e pipas de couve 
salgada, antes de incendiarem as casas com mechas feitas de ervas 
secas. Alguns perseguiam as mulheres. Deitavam-nas no cho,  
porta das casas em chamas, ou nos jardins, e violavam-nas.
 Mouchkov tambm errava pelas ruas, em busca de uma jovem que lhe 
agradasse. Acabou por encontr-la numa casa de porta de madeira 
esculpida... uma criana ainda magrizela, de cabelo louro, que 
veio ao seu encontro munida de um grande pau e, sem proferir uma 
palavra, lhe aplicou uma violenta pancada no crnio. Mouchkov 
ficou de tal modo alarmado que nem tentou evitar a segunda 
paulada. Mas no chegou a receber a terceira.
 Pegando na pequena gata brava pelo cachao, arrastou-a para um 
quintal e manietou-a. A rapariga arranhava e mordia, dava-lhe 
pontaps no baixo-ventre e cabeadas no peito. Conseguiu fugir 
mas, em trs passadas, Mouchkov alcanou-a e atirou-se a ela da 
mesma maneira que, na sua aldeia, se agarrava uma galinha fugida.
 Rolaram pelo cho agarrados um ao outro at esbarrarem contra 
uma moita. Mouchkov, deitado sobre a jovem, palpava-lhe os seios 
ainda adolescentes. Os grandes olhos azuis da rapariga 
fixavam-no. No demonstravam medo, apenas uma selvagem 
determinao.
 - Mata-me! - pediu ela em voz baixa. - Mata-me! Se no me 
matares antes, matar-me-ei eu depois! Diabos! So todos uns 
ignbeis diabos!
 - Chamo-me Ivan Matveivitch Mouchkov... disse-lhe ele.
 At ao fim dos seus dias, nunca foi capaz de explicar por que 
dissera o nome naquela ocasio... Mas foi certamente forado a 
faz-lo devido ao olhar da rapariga.
 Ela, ento, respondeu:
 - E eu sou Marina Alexandrovna Loupin...
 - Marina...

 Mouchkov libertou-a um pouco. Em toda a volta, lavravam 
incndios entre gritos de mulheres e risos de vitria dos 
cossacos, enquanto os cavalos relinchavam, excitados.
 - Levo-te comigo! - decidiu ele subitamente.
 - Nunca conseguirs faz-lo! - gritou ela.
 - s a minha prisioneira de guerra!
 - Ento agarra-a bem, Satans!
 Lutaram de novo, rebolando pelo cho. Marina mordeu Ivan no 
ombro e s cedeu quando os cabelos se lhe prenderam num arbusto. 
Foi-lhe impossvel libertar-se.
 Assim imobilizada, estendida  frente dele, fechou os olhos.
 - Porque esperas? - perguntou numa voz sumida.
- Serve-te do que quiseres...
 E Mouchkov respondeu num tom de voz que lhe pareceu 
desconhecido:
 - No tenhas medo, Marina.
 Desprendeu-lhe os cabelos do arbusto, quase com ternura.
 - Que idade tens? - perguntou-lhe.
 - Catorze anos.
 - A tua aldeia est a arder - observou ele -, vou levar-te 
comigo, Marina.
 - No! - gritou a rapariga.
 Mas permaneceu estendida e no se mexeu.

Captulo 3

 Novo Orpotchkov ardeu completamente. Depois de terem chicoteado 
mulheres, crianas, velhos e doentes, os cossacos de Jermak 
acamparam como puderam dentro dos limites da aldeia. Cantavam, 
praguejavam e aqueciam-se nas labaredas das casas incendiadas, as 
suas fogueiras preferidas. Tinham prendido os cavalos uns aos 
outros. Porcos e vitelos assavam em espetos, canecas de vinho de 
btula passavam de mo em mo. Era a vida pela qual um cossaco 
no se importava de morrer: a liberdade tal como a entendia! "O 
mundo pertencer-nos- logo que o conquistemos!" E,  sua frente, 
estendia-se um pas que os esperava. Tinham-lhes prometido a 
fabulosa riqueza dos Stroganov, o pas de Mangaseja de que os 
trs emissrios tanto falaram... os trs emissrios que fizeram a 
travessia para norte, para o Kama, imbudos de um indescritvel 
pavor...
 - Uma cadeia de montanhas... - comentava Jermak, enquanto 
imaginavam o que talvez vissem dentro de algumas semanas... - e 
povos de olhos em amndoa, o que  isso, afinal? Amarelos, j 
vimos alguns: at j lhes despedamos o crnio! E um pedregulho 
 um pedregulho, mesmo medindo mil vertas de altura! Algum tem 
medo dos pedregulhos, irmos?
 O aniquilamento de Novo Orpotchkov no teve consequncias.
Os camponeses das aldeias em redor trataram os homens do 
estiraste Loupin como idiotas. Quem poderia defrontar quinhentos 
e quarenta cossacos? Deixavam-nos passar pela aldeia, davam de 
beber aos cavalos, ofereciam-lhes provisSes, aceitavam com mal 
contida raiva que as mulheres engravidassem... poderiam 
sobreviver a tudo isso e o mais importante era sobreviver. Lutar 
contra os cossacos? Por Santo Estefnio, que mau-olhado teriam 
lanado sobre Alexandre Grigorivitch Loupin para que lhe 
tivessem subido  cabea to loucas ideias?

 Os homens de Novo Orpotchkov, sentados na encosta da colina 
perto da aldeia, viam arder as suas casas. As mulheres 
regressavam uma a uma, auxiliando um velho ou um doente, 
transportando crianas em lgrimas.
 A maior parte das mulheres tinha sido espancada at fazer 
sangue, trazia as roupas em farrapos. Como nos jogos equestres, 
em que saltavam de cavalo em cavalo, os cossacos tinham passado 
de umas mulheres para as outras - orgia infernal acompanhada dos 
reflexos das chamas, dos estalidos das choupanas desmoronadas.
 S a pequena igreja de Novo Orpotchkov permanecia intacta. Foi 
a que o pope de Blagodorni, Oleg, se apresentou ao seu 
confrade:
 - Deus criou o homem e, portanto, tambm os Cossacos - disse ele 
na sua estranha lgica, enquanto se benzia. A sotaina cheirava a 
fumo, as botas de cossaco traziam lama at aos joelhos, a barba 
confundia-se com a fuligem. - Irmo pelo Senhor - retomou ele -, 
oremos a fim de que as almas pecadoras possam beneficiar no Cu 
de um olhar benevolente...
 E os dois popes, ajoelhados diante da iconostase, rezavam as 
suas oraSes, enquanto l fora a aldeia se consumia e as mulheres 
perseguidas tagarelavam.
 - Ests a ver, irmo - observou mais tarde o pope dos cossacos, 
enquanto os homens de Jermak cantavam, sentados em redor da 
aldeia destruda que a pouco e pouco se apaziguava -, 
conservmos-te a tua igreja. D graas ao Senhor! E, como apoio 
para a longa caminhada rumo ao desconhecido, d-me a tua cruz 
pascal...
 O pope de Novo Orpotchkov lamentou-se, mas foi buscar a cruz 
incrustada de prolas barrocas, bela obra rstica que lanou aos 
ps do colega.
 - Que Deus esteja contigo em cada uma das tuas bnos! - 
exclamou.
 - Amem! - respondeu Oleg Vassilivitch Koulakov com fervor e 
humildade. Entretanto, Loupin, o esterroaste, milagrosamente 
poupado pela cavalaria cossaca, percorria todas as mulheres, 
torcendo as mos:
 - Viram a minha Marina? - gritava ele, debatendo-se com uma 
enorme angstia. - Onde estar a minha menina? O meu raio de sol, 
a minha nuvem dourada...
 Viram-na? Porque no aparece? Porque no ma trazem? Estar 
morta? Digam-me, no me escondam a verdade, sou um homem forte, 
suportarei o golpe! Quem viu Marina? Quem?...
 Entre as mulheres que regressavam, nenhuma vira Marina. Sabiam 
apenas que a casa do esterroaste estava a arder. De resto, 
parecia-lhes justo, pois fora Loupin quem tivera a peregrina 
ideia de resignar! Os homens no lhe falavam e, na verdade, 
Loupin podia felicitar-se por no ter sido afogado no Volga pelos 
companheiros. Ningum sentia pena dele: um perdera Marina, o 
outro Olga ou Jelisaveta. E previa-se que, dentro de nove meses, 
muitos bastardos viriam ao mundo - facto que teriam de suportar. 
Na Rssia, viver era sempre duro, mas eles estavam calejados. 
Assim, deixavam Loupin gritar e correr em todas as direcSes, 
como um varro com uma faca enterrada nas entranhas,  espera que 
algum surgisse e dissesse: " verdade, a tua Marinouchka morreu! 
Os cossacos aproveitaram-se da tua lourinha at  morte..."

 Mas ningum apareceu. Ningum vira Marina... alm disso, quem 
visse Novo Orpotchkov arder ao longe, entre um mar de chamas do 
qual s sobressaa a igreja, deduziria que Loupin no voltaria a 
ver a filha...
 - Vou procurar a minha filha - declarou ele subitamente, quando 
anoiteceu -, no me retenham! 
 Ningum tentara faz-lo. Dois estados psicolgicos podem 
conduzir um homem  loucura: o herosmo e o amor paternal. A 
primeira destas aberraSes j ficara para trs... por que razo o 
impediriam de experimentar a segunda? Os homens olharam-no de 
olhos bem abertos e indiferentes, felizes por estarem vivos e 
terem recuperado as mulheres. Construiriam um novo Orpotchkov e 
chamar-lhe-iam "Novo" pela nona vez, como rezava a crnica 
conservada na pequena igreja. Afinal, os cossacos apenas tinham 
introduzido uma variante na monotonia da existncia nas margens 
do Volga. Furaco que passara, tonitruante. E a igreja 
mantivera-se de p: no teria sido o dedo de Deus?
 Ao cair da noite, quando a aldeia j no era mais do que um 
enorme monte de cinzas incandescentes e traves de madeira 
fantasmagricas, Alexandre Grigorivitch Loupin regressou ao meio 
das runas, em busca da querida filha Marina.
 Os cossacos dormiam. S os homens de sentinela, perto dos 
cavalos, formavam um crculo, distraindo-se com algumas mulheres 
que ainda detinham. Loupin aproximara-se, rastejando para as 
poder reconhecer  claridade das chamas... Mas Marina no se 
encontrava no grupo, a sua cabeleira dourada teria brilhado ao 
longe.
 Deitado no cho, escondido entre grandes tufos de ervas, Loupin 
permaneceu algum tempo junto dos cavalos e apercebeu-se do estado 
em que se encontrava a sua aldeia. Sentia o corao apertado. 
"Marina deve estar alm, coberta pelas brasas incandescentes", 
pensava ele. "Lutou, defendeu a sua honra at  morte. Uma 
verdadeira filha da minha raa... Nunca ceder, nem que rachem o 
crnio! Orgulho-me dela, mesmo com o corao a sangrar". Pousou a 
cabea no cho coberto de ervas, aspirou o odor da terra e 
abandonou-se ao sentimento de ter perdido a filha.
 - J no podes escapar - disse Mouchkov, ajoelhando-se diante de 
Marina -, as outras mulheres j abandonaram a aldeia e se tu 
agora corresses atrs delas... No conheces os meus camaradas! Se 
virem uma rapariga como tu, matam-me tambm a mim! S ests em 
segurana ao p de mim.
 Estavam deitados numa vala, ao longo da sebe do jardim. Tudo,  
sua volta, se apaziguara, mas o calor libertado pelas brasas 
quase os assava. Os cossacos reuniam-se, carregando nos braos o 
produto do saque.
 Formavam grupos, mostravam uns aos outros pequenos objectos 
preciosos, depois deitavam-se  roda das fogueiras.
Jermak corria de um para outro, interrogava-os sobre o amigo 
Mouchkov, mas apenas obtinha um encolher de ombros como resposta.
 - Quantos mortos temos? - perguntou.
 - Nenhum! - respondeu o pope, que sara da igreja.
 - E feridos?
 - Poucos. Quase todos foram arranhados, mordidos, espancados 
pelas mulheres. Um deles recebeu uma paulada na cabea, mas estou 
a v-lo alm, comendo carne fumada e recobrando foras.
 - Nesse caso, s nos falta Ivan Matveivitch.
 Jermak apoiou as mos no largo cinturo que suportava vrios 
punhais, um deles curvo.

 - Procurem-no nos escombros! Se tiver acontecido alguma coisa a 
Mouchkov, enforco cinco camponeses!
 - S disponho de uma maneira de te salvar - dizia nesse mesmo 
instante Mouchkov a Marina. - Considero-te prisioneira de guerra 
e meto-te num saco, que uma besta de carga carregar.  a nica 
soluo. Se no matam-te, Marina, desfazem-te como lobos 
esfaimados...
 - E para que me queres salvar? - perguntou ela.
 - No sei.
 Mouchkov tinha os olhos fixos no incndio. Na verdade, ignorava 
porque alimentava o desejo de a salvar.
 Estava indeciso e pensativo. "Nem sequer lhe toquei", pensava. 
"No lhe despi a roupa esfarrapada, no ca sobre ela como me 
aconteceu fazer com outras mulheres. Que se passar comigo? 
Porque estarei deitado a seu lado, aqui junto da sebe, em vez de 
me servir dela, recambiando-a em seguida? Estou aqui deitado, 
converso com ela e preocupo-me com a possibilidade de os meus 
amigos a poderem ver... Provavelmente, tenho o crebro avariado."
 - Quem faz trs perguntas j perdeu a cabea duas vezes, diz-se 
na minha terra - retomou ele. - Est decidido: levo-te comigo e 
sobrevivers. Aceita as coisas como elas so!
 - Mas nem por isso deixas de ser um assassino e um malfeitor!
 - Sou cossaco!
 - Qual  a diferena?
 Mouchkov espreguiou-se. O calor que os envolvia tornara-se 
insuportvel. Mas, simultaneamente, constitua a sua proteco. 
Ningum os procuraria naquele recanto to prximo do incndio. O 
fosso no qual se entrincheiraram assemelhava-se a uma espcie de 
caverna, rodeada por uma muralha em chamas.
 - S por essa pergunta, qualquer cossaco te enforcaria na 
primeira rvore que encontrasse! - respondeu ele brutalmente.
 - Ento porque esperas, Ivan Matveivitch?
 - Olha! Lembras-te do meu nome?
 - Quem poderia esquecer o nome de um diabo?
 No muito longe, elevavam-se vozes e Mouchkov julgou ouvir 
pronunciar o seu nome. Mas o crepitar das chamas e o estilhaar 
das traves de madeira, por efeito do calor, sobrepunham-se aos 
outros rudos. "Se me chamam,  porque me procuram", pensava 
Mouchkov "e, se me encontrarem, no poderei continuar a proteger 
Marina. Porque ser que ela no compreende?" 
 Pousou a mo no ombro da jovem e reteve-a no fundo do fosso. 
Subitamente, sentia o que nunca experimentara ao longo de todos 
esses anos em que cavalgara em todos os sentidos, com os 
companheiros, s ordens de Jermak, participando em confrontos 
sangrentos: medo!
 Medo por uma jovem que era quase uma criana.
 As vozes tornavam-se mais insistentes: agora ouvia com clareza o 
seu nome e distinguia silhuetas que corriam de um lado para o 
outro, procurando no sabia o qu entre os escombros 
carbonizados.
 Mouchkov coseu-se o mais possvel com o cho, ao lado de Marina, 
e pousou-lhe um dedo nos lbios:
 - No te mexas!
 Marina compreendeu e olhou-o com tanta incredulidade como 
gratido, antes de ocultar o rosto entre os braos dobrados.
 Os cossacos afastaram-se, gritando:

 - Ivan Matveivitch! Ivan Matveivitch!
 - Obrigada - murmurou Marina alguns momentos depois, erguendo a 
cabea. Mouchkov mordia o lbio inferior, considerando ter-se 
comportado como um louco.
 - O pior ainda est para vir! - exclamou. - prisioneira de 
guerra ou no, Jermak no permite que nenhuma mulher cavalgue nas 
nossas fileiras!
 - Ento, deixa-me neste fosso. - Marina deitou-se de costas e 
Mouchkov viu novamente os seios pequenos, as coxas, os lbios bem 
delineados, o cabelo louro e comprido do qual pendiam pedaos de 
fuligem. "Tem catorze anos... dentro de um ano ser uma rosa 
desabrochada e um ano passa depressa! Que diabo, Ivan, leva-a 
contigo!"
 - Nenhum cossaco restitui o esplio de que se apropriou! - 
exclamou ele, grosseiro -, ou ver-se-ia obrigado a cuspir em si 
mesmo!
 - Ento cospe, Ivan Matveivitch!
 - Vais comigo... vestida de rapaz. Direi a Jermak: olha para 
este tipo! Retire-o do lume antes que asse! Rachamo-lhe o crnio? 
Estive quase a faz-lo! Mas o que  que ele me pediu? "Leva-me 
contigo, cossaco sempre quis ser dos vossos, no nasci para ser 
campons! A vida em Novo Orpotchkov  uma pasmaceira! Leva-me 
contigo!" E eu embainhei o punhal dizendo para comigo: "Sabe 
falar, poderemos fazer alguma coisa dele!" Falarei a Jermak 
exactamente nestes termos. Ele observar-te- e dir com certeza 
que s muito jovem, mas se montares um cavalo  sua frente... - 
Mouchkov calou-se subitamente, embaraado. - Sabes, ao menos, 
montar a cavalo? - acrescentou, desanimado.
 - Como um cossaco! - respondeu Marina, em voz baixa. - 
Possua-mos quatro cavalos antes da vossa chegada a Novo 
Orpotchkov!
 - Quando te vir a cavalo, Jermak gritar: chamas a isso montar a 
cavalo? pareces um galo agarrado a uma galinha! Ivan 
Matveivitch, ensina-o a montar como um homem! E assim 
ganharemos, pois ningum perguntar como sers tu em roupa 
interior!
 - E se eu recusar a participar? - perguntou Marina, muito 
duramente.
 - Ento, estars perdida... - E Mouchkov olhou-a, assustado.
Os seus grandes olhos, num belo rosto, estavam cheios de 
determinao. - Queres morrer?
 - No h nenhum rapaz que use o cabelo to comprido!
 - Cortamo-lo.
 - O meu cabelo?
 -  mais precioso que a tua vida?
 - Seria mais simples se partisses sozinho...
 - Precisamos de falar assim tanto? - Mouchkov segurou a cabea 
de Marina entre as mos, desembainhou o punhal que trazia  
cintura e, num gesto brusco, cortou metade da cabeleira loura. O 
cabelo curto bailava em volta do rosto de Marina, enquanto ele se 
preparava para cortar o resto, exclamando:

 -  uma vergonha! Mas voltar a crescer. - E continuou a cortar 
o cabelo da jovem at parecer um rapaz. Marina, estranhamente, 
manteve-se imvel. Encontrava-se sentada no fosso, rodeada das 
ltimas fogueiras que consumiam a aldeia. S os olhos falavam a 
Mouchkov, perguntando-lhe: "Porque me deixas viver? Acreditas 
verdadeiramente que posso cavalgar a vosso lado rumo ao norte? 
Terei de me transformar num cossaco assassino e destruidor? 
Queres que mostre ao teu amigo Jermak os meus talentos de 
estribeiro? Queres que me faa passar por rapaz? Julgas que s os 
cossacos tm amor-prprio?
 - Vamos! - ordenou Mouchkov, - uma vez terminado o trabalho, 
evitando olhar para Marina, cujo aspecto no conseguia suportar. 
"Est estropiada, desfigurada", pensava ele, "mas que lhe 
aconteceria se casse nas mos dos meus camaradas?" Respirou 
profunda mente, como que suspirando, e, em seguida, sacudiu as 
madeixas louras que se lhe tinham colado aos dedos. Que belo 
rapaz! Agora, deves esfregar a cara com fuligem - acrescentou 
numa voz embargada e reticente.
 - Sempre quis ser um rapaz - respondeu Marina, passando as mos 
pelo cabelo curto. - Os rapazes podem fazer tantas coisas!
 - No abuses! Limita-te a adquirir o aspecto de um verdadeiro 
rapaz! - disse Ivan. - Talvez tudo se passe de um modo diferente 
daquele que imaginmos, quando nos encontrarmos diante desse tal 
Simeo Stroganov!
 Ainda esperaram um pouco, rastejando em volta a fim de achar, 
entre os objectos que os cossacos tinham retirado dos armrios e 
bas e que agora se apinhavam no cho, um fato masculino, botas, 
um gorro de Kulak suficientemente sebento.
 - Despe-te! - ordenou Mouchkov depois de reunirem tudo aquilo de 
que necessitavam.
 Marina no se mexeu. Com a roupa debaixo do brao, mantinha-se 
encostada  parede de uma cavalaria que resistira ao incndio, 
por ser feita de pedras retiradas do rio.
 - Aqui?  tua frente?
 - Se me prometeres que no foges, viro-me de costas!
 "Perdi o juzo", pensava Mouchkov, assustado com a sua prpria 
metamorfose. "Ainda est para nascer o cossaco que desvie o olhar 
quando uma rapariga se despe! Ah, no! E, de repente, aqui est 
um cretino nessas condiSes, chamado Ivan Matveivitch Mouchkov! 
Satans do Inferno, que se passa comigo?"
 Na verdade, virou-se de costas, meteu a mo esquerda na boca e, 
desesperado, roeu as unhas. "Isto no pode continuar assim", 
pensou. "Preciso de a zurzir conscienciosamente pelo menos uma 
vez para fortalecer o meu amor-prprio! Est a transformar-me num 
rato, mas ficar a saber que sou um urso!"
 - Acabaste? - perguntou ele, arrogante.
 - Ainda no! As botas so muito grandes, nado dentro delas e no 
poderei montar a cavalo...
 - No h tempo para encomendar botas por medida! - resmungou 
Mouchkov. - E o resto, est tudo bem?
 - V com os teus olhos!

 Voltou-se de repente e deu consigo em frente de um jovem Kulak 
emporcalhado. O bon era a nica pea que lhe assentava bem, o 
casaco ficava-lhe demasiado largo e comprido, e as calas 
entalavam-se em botas que deviam ter pertencido a um gigante. 
Estava ridcula mas, mesmo assim, Mouchkov sentia bater 
fortemente o corao. "Levo-a comigo" - este pensamento 
dilacerou-o - "e ningum adivinhar o que se esconde debaixo 
deste fantoche. Cavalgar como todos ns: um futuro cossaco! 
Jermak, ao v-lo, no deixar de se rir e o seu riso significa 
pena de morte ou uma vida salva: tudo depende da tonalidade do 
riso!
 - Vais tal como ests e se, no futuro, te dou um pontap no 
traseiro, no com muita fora, mas o suficiente para no passar 
despercebido, no te admires! Esto habituados a ver-me comandar 
prisioneiros  chicotada e, como  evidente, no poderei 
apresentar-me de brao dado contigo!
 -  assim que te comportas? - perguntou ela, puxando o bon para 
a testa. - Atreves-te a dar chicotadas aos prisioneiros? No 
ters muito prazer em me conhecer, Ivan Matveivitch!
 - Vamos! - ordenou Ivan em voz alta.
 - E quando me libertars?
 - Quando tiver oportunidade.
 Marina olhou-o novamente, de olhos muito abertos, enquanto Ivan, 
de olhos baixos, se acusava interiormente de fraco por se deixar 
dominar por uma rapariga, em vez de a repelir depois de se servir 
dela, como tantas vezes fizera entre o Volga e o mar Cspio.
 - No me olhes assim! - vociferou ele, deixando transparecer a 
excitao.
. - Como queiras - Marina encolheu os ombros estreitos debaixo do 
casaco demasiado largo. - Se quiseres, abstenho-me pura e 
simplesmente de olhar para ti.
 Marina avanou  frente de Ivan e a claridade provocada pelo 
incndio envolveu a sua silhueta, plantada nas enormes botas, 
como uma flor num solitrio.
 "Meti-me em grandes trabalhos", pensava Mouchkov, seguindo-a a 
passos largos. "Teria sido necessrio? para terminar, violo-a e 
depois abandono-a! Sou um cossaco livre, que diabo!"
 - Aqui tens o primeiro pontap, Marina - disse ele, 
aproximando-se muito. - Desculpa-me, mas tem que ser, os meus 
camaradas j esto a olhar para ns.
 Manteve-se um passo atrs e aplicou-lhe um pontap, moderando o 
seu furor. Mas Marina caiu e conservou-se estendida no cho 
durante alguns momentos. O corao de Mouchkov quase parou de 
pulsar, enquanto pensava: "Quebrei-lhe a espinha dorsal!" Marina, 
porm, ergueu-se e equilibrou-se nas gigantescas botas:
 - Ajustaremos contas mais tarde! - sussurrou ela por cima do 
ombro.
 Mouchkov respondeu-lhe meneando a cabea. "Pois, bem", pensava 
ele, "ajustaremos contas! Mas, louvado seja Deus, ela est viva! 
Avana, Marinouchka, os prximos pontaps sero carcias!"

 Passou-se tudo exactamente como Mouchkov previra, Jermak riu-se 
ao avistar o rapazelho que pretendia ser cossaco e os cossacos 
riram-se com ele. Rodearam Mouchkov e a sua descoberta, clamaram 
perante as botas disformes em to pequenos ps, e s por ainda 
ser quase uma criana, as opiniSes dividiram-se quando se tratou 
de escolher entre lan-lo  gua ou  fogueira da aldeia.
 -  preciso nascer-se cossaco! - gritou Jermak de bom humor, 
dando uma palmada nas costas do rapaz.
- Ningum se faz cossaco!
 - Monto a cavalo to bem como qualquer de vs! - declarou 
Marina. A voz fina e um pouco roufenha podia passar pela voz de 
um adolescente. - O meu pai foi cavaleiro do czar!

 - E onde est o teu pai agora? - gritou-lhe Kolka, um dos 
subchefes da horda.
 - No sei.
 - Est sentado  beira do rio, borrado de medo! - afirmou 
Mouchkov a fim de intervir, o que lhe parecia natural. - 
Tragam-lhe um cavalo! Ele vai mostrar-nos o que aprendeu com o 
pai! Cavaleiro do czar! Veremos, irmos, como um bode monta um 
burro!
 Jermak assobiou e esboou um gesto. Da massa de cavalos em 
repouso destacou-se um que foi trazido a Marina. Os cossacos 
continuavam a rir, dando cotoveladas uns aos outros: 
trouxeram-lhe Liouba, o cavalo de Jermak! quando a gua sentir 
algo diferente das coxas de ferro do dono, tornar-se- to 
prfida como o gelo da Primavera! Ouviremos, ento, todos os seus 
ossos rangerem. ..
 - Monta! - resmungou Mouchkov com uma brutalidade estudada, 
aplicando um pontap em Marina, suficientemente forte para a 
projectar contra o flanco do animal. Os cossacos gritaram, 
entusiasmados. "Que desgraa! ", pensou Mouchkov. "Foi um pontap 
suave como uma brisa! E ela quase saltou por cima da sela! No se 
lhe pode tocar sem a magoar! Que avezinha to delicada!" Nunca 
vira nada semelhante... Em geral, quando as suas mos actuavam, 
levavam tudo de vencida...
 Marina saltou para a sela. No era difcil; no entanto, teve 
dificuldade em conservar as botas caladas. Crispou os ps tanto 
quanto pde, a fim de no perder as monstruosas botas. 
 Jermak aprumou-se. A gua ia desenfrear-se. Comeou por se 
empinar, escoiceou e quem resistisse a estes exerccios sentia-a 
imediatamente pular nos quatro cascos. Nunca ningum a conseguira 
dominar, nem mesmo Mouchkov, a quem nenhum cavalo resistia - 
excepto Liouba!
 Marina mantinha-se firme e olhou de relance para trs.
 Os cossacos fixavam-na sem pestanejar e, de sbito, instalou-se 
o silncio no imenso crculo de espectadores.
 Mouchkov era o nico que respirava ruidosamente, como aps uma 
longa corrida.
 - Que devo fazer agora? - perguntou Marina, debruando-se para 
Jermak, que j no reconhecia a sua gua. Liouba nem se mexia, 
limitava-se a agitar as orelhas. - Quem me d uma lana e ergue 
bem alto um pedao de carne? Sou capaz de o apanhar, obrigando o 
cavalo a galopar!
 - Ataca! Vamos, ataca! - gritou Jermak que, no se contendo, 
ergueu a perna e aplicou um pontap no ventre do seu animal 
preferido. Liouba estremeceu, olhou para trs, mas no se mexeu. 
 - Vem, meu cavalinho! - disse Marina com ternura, pousando a mo 
entre as orelhas da gua. Em seguida, afastou-se, a galope, do 
crculo de espectadores. Liouba deu uma grande volta antes de 
largar pela estepe, como se se tratasse de atingir Moscovo num 
dia.
 "Perdi-a para sempre", pensou Mouchkov, assustado ao ver que 
Marina desaparecera na noite. "Ivan Matveivitch, grande parvo, 
reconhece que era o que ela queria! Fugiu-te e, montada em 
Liouba, no corre o risco de ser alcanada! Est tudo perdido! 
Levou-me  certa, aquele diabrete louro!"
 Mas, subitamente, recortaram-se na claridade do braseiro as 
sombras do cavalo e do cavaleiro, lanados num galope infernal, 
que se fechava em volta dos cossacos.

 Jermak esperava que Liouba se detivesse, escorrendo sangue. Mas, 
aps uma nova fase de galope, rasando, desta vez, o grupo de 
cossacos, Marina estancou sob o olhar taciturno de Jermak.
 - Ele sabe, ou no, andar a cavalo? - perguntou Mouchkov, 
entusiasmado. - No vos trouxe um bom prisioneiro? Jermak 
Timofeivitch, com a mesma idade, eu no era capaz de me 
equilibrar assim num cavalo!
 "Marina regressou!", rejubilava ele interiormente. "Graas a 
Deus, ou ao Diabo! Vejo-a rir montada na gua do chefe, com o 
nariz chamuscado de fuligem! Se eles soubessem que o rapazinho  
uma rapariga! ... Mas, Marina, porque voltaste?..."
 - Desmonta! - ordenou Jermak com rispidez. Pegou na pistola, 
puxou o co e preparou a plvora. Ao mesmo tempo examinava Liouba 
que, suportando o seu pequeno cavaleiro, dava mostras de grande 
nervosismo. - Desmonta,  uma ordem!
 Entre a massa de cossacos, reinava um terrvel silncio. "No 
ter coragem de o fazer!", pensavam os homens. "No, no far 
aquilo que um cossaco s decide fazer em ltima instncia! No 
abater o seu prprio cavalo!"
 Marina tambm adivinhara a deciso tomada por Jermak. Sempre a 
cavalo, avanou para ele, de olhos postos nos seus:
 - Mata-me tambm a mim! - pediu ela em voz alta.
 - O meu cavalo traiu-me! - vociferou Jermak. - Aprende, em 
primeiro lugar, que trair  morrer! - Apontou a pistola e lanou 
um olhar  sua volta. Os cossacos fixavam-no em silncio. 
Mouchkov, muito perto dele, ergueu as mos.
 - Algum ousa impedir-me? - gritou Jermak. - Este cavalo no 
vale nada!
 - No  o nico que no vale nada - replicou Marina, muito 
calma. - Outros como ele continuam vivos! Dispara, se isso te 
alivia!
 Passaram-se alguns terrveis segundos de silncio e expectativa. 
Em seguida, Jermak assoprou a plvora da caoleta e largou o co.
 - Desmonta, meu rapaz. Como te chamas?
 "Senhor! Como se chamar ela?", gritou dentro de si o corao de 
Mouchkov, atravessado por uma indescritvel angstia. "No 
pensmos em nenhum nome masculino!"
 - Boris Stepanovitch - respondeu Marina, impassvel, deixando-se 
escorregar para o cho. - Posso acompanh-los?
 - Pede um cavalo para ti - respondeu Jermak de cabea baixa, 
observando a gua Liouba. -  como todas as fmeas - acrescentou 
simplesmente -, perdem a cabea quando so montadas por um 
adolescente. E, voltando-se para Marina: - Ivan Matveivitch 
ensinar-te- a montar! Foi ele que te descobriu, pertences-lhe e 
sou eu quem decidir quando poders ser considerado um cossaco!
 Voltou-se e desapareceu. Num segundo, Liouba hesitou, mas 
depois, a trote, juntou-se-lhe e manteve-se a seu lado. Jermak 
lanou-lhe um olhar furtivo, esboou um esgar que lhe descontraiu 
o rosto e, abraando-a pelo pescoo, prosseguiu o seu caminho.
 - Pertences-me - repetiu Mouchkov a Marina, muito baixinho. - 
Ouviste? s propriedade minha...
 - Ainda tenho trs pontaps para te devolver, Ivan Matveivitch 
- respondeu ela no mesmo tom. - E agora d-me um cavalo!
 - Amanh, quando partirmos.

 Ela encolheu os ombros dentro do fato disforme, aproximou-se de 
uma das fogueiras e deitou-se na erva. Mouchkov deitou-se mesmo a 
seu lado. Subitamente, com a rapidez de um raio, Marina 
apoderou-se do punhal que o companheiro trazia  cinta e 
encostou-o ao seu prprio peito.
 - A partir de agora, ser o meu namorado! Dormir sempre comigo! 
- afirmou Marina num tom firme mas to baixo que s Mouchkov 
conseguiu ouvir. -  um amante ciumento, Ivan Matveivitch!
 Mouchkov suspirou e afastou-se. Obter um novo punhal no 
constitua um problema, quarenta animais de carga seguiam os 
cossacos, transportando armas e vveres. Nada lhes faltava. Mas o 
facto de Marina pretender defender-se, e domin-lo incrivelmente, 
atormentava-o e no lhe dava um momento de descanso. Conhecera-a 
h algumas horas apenas e, desde ento, em que se tornara ele? 
Esta aldeia, Novo Oportchkov, fora certamente construda pelo 
Diabo!
 Entretanto, ao ouvir a respirao ritmada de Marina, nada mais 
sentiu seno a alegria de se encontrar perto dela.

 Alexandre Grigorivitch Loupin reconheceu imediatamente a filha 
quando, disfarada dentro de uma farpela masculina, a viu sair da 
aldeia fumarenta, arrastada por um cossaco. Qual o pai que no 
reconhece a filha, mesmo mascarada?
 "Est viva", pensou ele, "mas as preocupaSes continuam. Vo 
enforc-la e terei de assistir ao seu suplcio sem o poder 
impedir. Mas ela saber morrer! Deus te abenoe, minha filha. Que 
o cu se abra aos teus ps..."
 E Loupin continuou estendido na erva, invisvel na escurido, de 
olhar fixo no exrcito dos cossacos, sempre na expectativa de ver 
Marina enforcada numa das cerejeiras. E foi assim, deitado no 
cho de barriga para baixo, que Loupin viu, com extrema surpresa, 
que a filha partiu a galope num cavalo cossaco, regressando quase 
de imediato para discutir com o chefe do bando. "Enlouqueceu!", 
pensou Loupin. "Deus misericordioso, o incndio da aldeia 
secou-lhe o crebro! Na posse de um cavalo, ddiva inesperada, 
foge a galope e regressa para junto dos cossacos! Pobre pai, 
pobre de mim!" Loupin continuou estendido na erva, na 
impossibilidade de se aproximar da filha. Em seguida, viu-a 
deitada junto de uma fogueira, entre os cossacos, enquanto ele 
prprio se atormentava pela calada da noite.
 S de madrugada, enquanto todos os homens dormiam, Loupin se 
aventurou, descrevendo um semicrculo, at s runas de Novo 
Orpotchkov, tendo conseguido penetrar na igreja.
 "Um pope ressonava junto da iconostase, vestindo calas e botas 
cossacas, cheirando terrivelmente a aguardente neste recinto 
sagrado. Quanto ao pope da aldeia, encontrava-se sentado, 
alquebrado, nos degraus do altar, olhando fixamente em frente. 
Quando viu que Loupin transpusera o limiar da porta, rastejando, 
ergueu a mo direita e abenoou-o.
 - Padre, no sei que partido tomar! - murmurou Loupin, olhando 
de relance, apavorado, para o pope cossaco.
 - Nem eu! - replicou o pope da aldeia. - O firmamento agita-se. 
A harmonia dos cus foi destruda.
 Esboou um gesto, apontando para o colega que ressonava e meneou 
a cabea, em silncio.

 - O cu est longe - observou Loupin -, mas a minha filha Marina 
est muito perto: parece-me que os cossacos pretendem lev-la.
 - Deus a proteja! - respondeu simplesmente o pope.
 - Melhor seria se eu me encarregasse disso! - replicou Loupin.- 
Assim, seguirei os cossacos, tambm a cavalo, e sabe Deus onde, 
quando e como, acabarei por recuperar Marina: surgir certamente 
alguma ocasio propcia! No sei de quanto tempo necessitarei 
para conseguir! Neste caso, Novo Orpotchkov ser reconstrudo sem 
mim!
 - Vai, Alexandre Grigorivitch, prometo-te que me "encarregarei 
dessa tarefa - afirmou o pope solenemente. - Ento, padre, 
abenoa-me...- Loupin ajoelhou-se e, enquanto o pope cossaco 
ressonava como um porco, peidando-se ruidosamente de vez em 
quando, o pope da aldeia proferia a orao das grandes despedidas 
e traava trs sinais da cruz sobre a cabea inclinada do seu 
paroquiano.
 Pela madrugada enevoada, os cossacos meteram-se a caminho. 
Totalizavam, agora, quinhentos e quarenta e um cavaleiros.
 Os camponeses, as mulheres, as crianas, os velhos e os doentes 
assistiram  partida, das margens do Volga, donde no tinham 
chegado a sair. Nenhum cossaco se abeirava do local, embora 
distasse da aldeia apenas umas centenas de passos. Os habitantes 
de Novo Orpotchkov, de mos postas, deram graas ao Senhor por 
tudo se ter passado to misericordiosamente.
 Quando os cossacos desapareceram entre uma nuvem de p surgiu da 
sombra da igreja, nico edifcio de p, um cavaleiro solitrio 
que se lanou em sua perseguio. O pope, imvel  entrada do 
prtico, ergueu a mo, mas uma mo vazia, pois a cruz que deveria 
empunhar fora-lhe confiscada pelo colega.
 "A minha filha  tudo o que me resta no mundo", pensava Loupin, 
de olhos postos na nuvem de p que se elevava no horizonte. "A 
minha mulher Larissa morreu de febres h dois anos, a minha casa 
e a minha aldeia arderam... O mundo, para mim, reduz-se a Marina. 
Segu-la-ei at aos confins da terra..."
 Era bom de dizer, mas a cavalgada afigurava-se difcil! Os 
cossacos avanavam a uma velocidade que Alexandre Grigorivitch 
tinha dificuldade em atingir.
 E a infeliz cavalgadura que o pope conseguira descobrir para lhe 
dar apresentava sinais alarmantes de velhice. Todos os cavalos 
vlidos da aldeia tinham fugido do incndio, dispersando-se pela 
estepe como um bando de animais selvagens. Os aldeSes 
necessitariam certamente de vrios dias para reunir de novo 
cavalos, guas e potros.
 O garrano que Loupin montava no seguira o bando de fugitivos, 
com certeza por ter compreendido que no resistiria a to louca 
corrida atravs da estepe. Assim, escondera-se atrs da igreja e 
foi a que o pope -  procura de um cavalo para Loupin - o 
descobriu.
 - Andava em busca da proteco dos locais sagrados - explicou o 
pope, colocando a mo entre as orelhas do cavalo, embora o pobre 
animal ignorasse o santo baptismo. - Deus  Todo-Poderoso.


 Mas Loupin no beneficiou em nada das piedosas disposiSes da 
cavalgadura. Por diversas vezes, o bando de cossacos fugiu ao seu 
olhar, mas no havia dvidas quanto ao itinerrio escolhido, pois 
as marcas dos cascos, ou os gemidos que os aldeSes soltavam  sua 
passagem, guiavam Loupin to seguramente quanto o teriam feito 
postes indicativos.
 - Porque se queixam e gritam? - perguntava Loupin sempre que as 
mulheres choravam, enquanto os homens erguiam os punhos sujos de 
vencidos. - Foram apenas roubados ou sovados. Na nossa terra, 
incendiaram a aldeia e raptaram a minha filha Marina! Irmos, 
preciso de um cavalo descansado! Olhem para este! Vacila a cada 
passo e, se o pico, comea a tremer! Como poderei perseguir os 
cossacos nestas condiSes? Dem-me um cavalo, irmos!
 Assim, no segundo dia, Loupin conseguiu obter um novo cavalo.  
verdade que no era bonito, mas a sua estatura, o seu pescoo 
forte sugeriam vigor e resistncia. Loupin desfizera-se de alguns 
rublos para o adquirir.
 O que  certo  que, a partir da, as coisas se compuseram. 
Loupin ganhou terreno e encontrou-se novamente a uma distncia 
razovel da terrvel nuvem de p que pesava sobre a paisagem como 
uma maldio divina; por vezes, encontrava-se com alguns soldados 
que os cossacos de Jermak deixavam para trs percorrendo os 
campos, roubando o que lhes pudesse ser til, ou seja, tudo, pois 
no h nada que um cossaco no possa utilizar!
 Ao anoitecer do quarto dia, Loupin ousou aproximar-se tanto 
daqueles que perseguia que viu claramente as suas fogueiras. 
Deixou o cavalo num bosque, preso a uma btula, esperou pela 
noite escura e acercou-se, ento, do bivaque.
 Os cossacos entregavam-se ao seu habitual comportamento durante 
as expediSes de pilhagens. Homens e cavalos dormiam lado a lado, 
cada cavaleiro encostado  sua montada. Todos igualmente 
preparados para o combate.
 H trs semanas que tinham deixado Blagodorni e todas as 
guarniSes do czar tinham sido alertadas para a sua passagem. Por 
toda a parte os camponeses reuniam-se, queixosos, apontando ao 
comandante as mulheres violadas. O general comandante da regio 
de Saratov disps-se a enviar de imediato uma expedio punitiva 
contra os cossacos, mas soube pelos rumores que corriam que 
Jermak e o seu bando selvagem caminhava ao encontro dos 
Stroganov, a fim de se colocarem ao seu servio.
 - Deixemos andar... sejamos prudentes - disse, ento, aos 
oficiais. - Este povo no passa de um inculto monte de merda, mas 
ns sabemos quem so os Stroganov! Os Stroganov podem estar a 
agir secretamente por vontade do czar,  prefervel tapar os 
olhos e os ouvidos...
 Quem poder conhecer o verdadeiro mbil do empreendimento? O 
prprio Jermak nem sequer sabia quem era Stroganov. Para ele, a 
cavalgada em direco ao Norte no passava de mais uma expedio 
no decurso da qual se defrontariam, mais tarde ou mais cedo, com 
as tropas do czar. Jermak conhecia os riscos, cadveres 
atravessados nas selas, o que era considerado uma honra, ou 
enforcados, o que constitua um dos "ossos do ofcio", como se 
costuma dizer. De qualquer modo, eram vidas perdidas.
 Jermak aplicava as leis da guerra e os cossacos comportavam-se 
como em todas as incursSes: homem e cavalo bem unidos, sentinelas 
alerta no centro de cada crculo, postos avanados, patrulhas a 
cavalo nos arredores! Jermak nunca fora assaltado de surpresa.

 Foi o que Loupin pde verificar. Por vezes, era obrigado a 
transformar-se num verme rastejante. Os cossacos percorriam toda 
a regio e, por diversas vezes, um deles passou to perto do 
local em que se encontrava que quase apanhou um coice do cavalo.
 "Marina ainda deve estar viva", pensava Loupin. No fora 
abandonada em nenhuma das aldeias por onde passara e tambm no a 
encontrara estendida  beira do caminho. "Portanto, ainda se 
encontra com os cossacos, vestida de homem! Ideia simultaneamente 
boa e perigosa... Que far ela se os cossacos tiverem de 
atravessar um curso de gua a nado, obrigados a despirem-se?
 E porque no fugir? Poderia ter ficado numa das aldeias por que 
passaram: s se teriam apercebido da sua ausncia  hora do 
recolher!
 Quantos enigmas! Loupin continuava deitado no cho.
 Abrigado por uma ligeira prega do terreno, ps-se a observar a 
fogueira do acampamento. Em vo: no conseguiu distinguir Marina 
entre o emaranhado de cavaleiros e cavalos. "E, contudo, 
encontro-me bem perto dela", pensava para consigo, muito feliz, 
"mesmo num mundo de cossacos, recuper-la-ei!"

Captulo 4

 No surpreende que Ivan Matveivitch tenha amaldioado cem vezes 
o dia em que encontrou Marina. A situao entre os dois no 
mudara, o que s por si deveria constituir motivo de regozijo.
 Mas a verdade  que o corao de Mouchkov parecia cada vez mais 
pesado s de ver Marina. E ele era obrigado a observ-la 
constantemente, pois devia cavalgar sempre a seu lado. Jermak 
dera-lha, era o seu esplio de guerra. Mas pela primeira vez, 
tratava-se de um esplio que no podia utilizar.
 S Mouchkov descobria os contornos dos seus belos seios quando o 
vento colava a camisa disforme ao seu jovem peito; s ele 
conhecia o verdadeiro aspecto do seu cabelo louro, quando o 
galope do cavalo lhe empurrava para a testa as madeixas curtas e 
sedosas. S ele conhecia as esbeltas pernas, cuja elegncia 
ningum poderia suspeitar ao ver as pesadas botas que usava. 
Quando Mouchkov pensava em tudo aquilo que ainda lhe era 
inacessvel, suspirava profundamente e fixava um ponto longnquo, 
com um ar irritado.
  noite, pousava o punhal atravessado sobre o peito at que 
Mouchkov dissesse:
 - Que queres mais? Sei como comportar-me!
 - s vezes, esquecemo-nos daquilo que sabemos, Ivan 
Matveivitch!
 - Prometo, por tudo o que h de mais sagrado...
- O que significa sagrado para um cossaco? - perguntou ela.
- O vosso pope reza, e pilha as igrejas ao mesmo tempo. Durmo 
melhor com este punhal, irmo.
 Mouchkov voltava a suspirar e permanecia acordado durante muito 
tempo, ao lado de Marina, debaixo de um cobertor que fedia a suor 
de cavalo. Lutava contra o seu corao, que Marina ocupava to 
solidamente como um cossaco ocupava a sela.

 E combatia igualmente o seu orgulho cossaco que, seja como for - 
Deus seja louvado! -, se vira lesado pelo comportamento de 
Marina. Nesses momentos, Mouchkov amaldioava Novo Orpotchkov, a 
aldeia do Volga que ele abordara como homem livre e cujas runas 
fumarentas abandonara transformado em fantoche, devido aos 
encantos de uma jovem. Deplorvel aventura e, alm do mais, mesmo 
nas barbas de Jermak, que no desconfiava de nada!
 Jermak chegava mesmo a reconhecer grandes mritos no campnio 
Boris Stepanovitch:
 - Ivan Matveivitch - dizia ele ao deprimido Mouchkov -, este 
rapaz monta como um diabo! E ainda por cima  resistente:
 - Resistente, l isso  verdade! - respondia Mouchkov, pensando 
em outra coisa.
 -  inteligente! - exclamava Jermak.
 - Corajoso e ousado!
 -  obediente!
 " isso", pensava Mouchkov, com um aceno de cabea. Na verdade, 
um punhal colocado, todas as noites, entre um homem e uma mulher 
no  propriamente uma prova de obedincia...
 - Quando estivermos na terra dos Stroganov, se ele continuar 
como at agora - prosseguiu Jermak -, e se tivermos de organizar 
um exrcito para conquistar essa tal Mangaseja, poderamos 
nome-lo chefe-adjunto. Que te parece, Ivan Matveivitch?
 - Devemos esperar que se desenvolva um pouco mais, Jermak - 
respondeu Mouchkov, prudente. - J se tem visto uma montanha 
parir um rato!
 - Por vezes, este Boris Stepanovitch tem trejeitos femininos... 
- observou Jermak pensativo.
 Mouchkov julgou que o seu corao ia parar de bater. 
Subitamente, sentira-se petrificado de medo.
 - Trejeitos femininos... ele? Ah! Ah! - riu-se Mouchkov, 
exagerando.
 - Eu disse "por vezes"! - justificou-se Jermak, meneando a 
cabea. - Quando galopa... rapazelho que ainda no acabou de 
CRESCER, AINDA SE LHE ADIVINHA A HARMONIA DO PEITO MATERNO... MAS 
DENTRO DE UM OU DOIS ANOS SER UM HOMEM CAPAZ DE DESEMPENHAR AS 
ACTIVIDADES QUE LHE DESTINARMOS...
 - COM A AJUDA DO DIABO, TUDO PODE ACONTECER! - RETORQUIU 
MOUCHKOV QUE, NESSE DIA, ESTAVA MUITO FILSOFO. - DEIXEMOS 
ANDAR...
 DENTRO DE DOIS ANOS MARINA TERIA DEZASSEIS ANOS! E O QUE SO 
DOIS ANOS PARA UM RUSSO? QUANDO SE DISPSE DE TEMPO, PODE-SE 
GAST-LO GENEROSAMENTE, COMO OS BOIARDOS FAZEM COM AS SUAS 
fortunas. Deste ponto de vista, cada cossaco  um homem rico!
 Felizmente, estas conversas com Jermak eram pouco frequentes. 
Davam conta dos nervos de Mouchkov, sempre inquieto perante a 
ideia de que poderiam descobrir qual o verdadeiro sexo de Marina.
 - No h nada a fazer - disse ele a Marina no nono dia de 
cavalgada comum, em direco ao Norte. - De vez em quando, terei 
de te zurzir diante dos meus camaradas, sem esquecer uns pontaps 
bem aplicados. Faz parte da tua formao!
 - No hesites, Ivan - respondeu Marina tranquilamente. - Se  
uma questo de segurana...
 - Mas no posso! - gemeu Mouchkov. - Se te bato, despedao-te o 
crnio! ...
 - E no consegues ser um pouco mais meigo?
 - Nunca experimentei. Mas, em todo o caso, um pontap meu 
provocar-te- sempre ndoas negras.

 Mouchkov afastou-se devagar, resmungando. "Como ela pronuncia o 
meu nome! Dir-se-ia uma carcia e uma bofetada ao mesmo tempo... 
e o olhar, sinto-me perdido...
Como poderei suportar esta situao durante dois anos?"
 Mouchkov dirigiu-se ao pope e travou-se de razSes com ele, o que 
lhe permitiu proferir tantas injrias que se sentiu aliviado da 
angstia.- Obrigado! - resmungou por fim.- Era disso que eu 
precisava...
 O pope dos cossacos, - Oleg Vassilivitch Koulakov, - agarrou 
energicamente Mouchkov pelo brao e bateu com o indicador na 
testa:
 - O que  que se passa, Ivan Matveivitch? - perguntou.
 - No  nada! - respondeu Mouchkov entredentes. -  uma coisa c 
dentro de mim... mas tu, pope, tu no podes compreender...

 As fogueiras crepitavam, um doce calor pairava sobre a noite de 
Junho, ainda fria. - os cavalos espelham o ar pelas narinas 
dilatadas, escoicinhando no cho. - os cossacos, com excepo de 
alguns jogadores apaixonados, debruados sobre um tabuleiro de 
damas, ressonavam enrolados nos cobertores.
 - Porque no foges? - perguntou subitamente Mouchkov a Marina.
 H dias que este pensamento o perseguia. No faltavam 
"ocasiSes". Ainda ontem, por exemplo, enquanto atravessavam a 
passo a pequena cidade de Ougounovsk, onde uns tantos idiotas 
dispararam sobre eles, - o que os obrigou a carregar a galope 
atravs das ruas, porque, dessa vez, no tiveram tempo para 
incendiar o pequeno burgo at s caves! Nesse momento, ela 
poderia ter fugido, pois, quando os tiros se fizeram ouvir e a 
mo de Jermak se ergueu para ordenar o ataque, ningum teria 
prestado ateno a esse rapazote do Boris Stepanovitch.
 Mas no! O seu grande cavalo mazela continuava de focinho colado 
 cauda do cavalo de Mouchkov, e este chegou mesmo a pensar que 
Marina lanara o grito de guerra dos cossacos, cujo significado 
cruel coagula o sangue.
 - Prometi a mim mesma desempenhar uma determinada tarefa - 
respondeu Marina, tapando a cabea com o cobertor.
 - Uma tarefa? Que tarefa?
 - Transformar um certo Ivan Matveivitch num homem respeitvel.
 - Que queres tu? - perguntou ele, pasmado. - Queres matar-me, 
Marina? - Mouchkov rangia os dentes de forma horrvel. Que diabo, 
como poderia um homem suportar uma coisa destas?
 - No fundo, s um bom rapaz, Mouchkov.
 - Quando o diabo abana a cauda, parece pacfico!
 - No espero concessSes da tua parte, Mouchkov - retomou Marina, 
espreguiando-se no aconchego do cobertor, enquanto Mouchkov 
imaginava os seus pequenos seios distendidos. - Tu s feito de 
duas metades muito diferentes que no se ajustam muito bem uma  
outra.
 - O que  que no se ajusta? - perguntou Mouchkov numa voz 
roufenha.
 - No podes compreender...
 - Mas tu, tu sabes do que se trata, hem?
 - Sei!
 Mouchkov encarou-a e distinguiu, debaixo do cobertor, a forma do 
punhal pousado no peito, pronto a servir. Afastou-se com 
brusquido.

 "Terei de correr com ela!", pensou ele, taciturno. "Ou ento, 
desanco-a violentamente segundo os velhos princpios: baixa os 
olhos, fmea! Bem, limitar-me-ei a zurzi-la at que lhe apetea 
fugir!"
 Fcil de imaginar, embora soubesse que nunca se decidiria a 
passar aos actos.
 De noite, como no conseguia adormecer, Mouchkov dirigiu-se mais 
uma vez ao pope. O sacerdote bebera novamente e estava a polir os 
diversos objectos de culto, "oferecidos" pelos colegas 
encontrados pelo caminho. No dia seguinte era domingo... e 
celebraria missa ao ar livre, antes que o grupo prosseguisse a 
caminhada.
 - Vai-te embora, Ivan Matveivitch! - sugeriu o pope, brandindo 
uma cruz pascal. - Conheo bem os teus grosseiros palavrSes! Mas 
ainda sou capaz de te ensinar alguns!
 - Venho apenas pedir um conselho, padre...
 Mouchkov demonstrara uma atitude to humilde que o pope encolheu 
os ombros, resignado a ouvi-lo.
 - Estou a ouvir-te.
 - Padre,  verdade que sou feito de duas metades diferentes que 
no se ajustam bem?
 O pope cossaco olhou primeiro para o seu paroquiano muito 
surpreendido, mas depois lembrou-se de que Ivan Matveivitch 
mudara muito depois de partirem de Blagodorni, a ponto de 
parecer desarranjado da cabea.
 - O que interessa  que a cola seja boa! - respondeu o pope num 
tom paternal.
 - Ento o que  que no se ajusta?
 - Como no s uma cadeira, da qual poderamos cair, tudo se 
resolver!
 - Eu no sou uma cadeira, padre.
 - Ento, que Deus te abenoe!
 O pope aplicou uma canelada numa das tbias do interlocutor e 
Ivan Matveivitch regressou ao acampamento meio consolado.
 Marina dormia a sono solto. Mouchkov debruou-se com muito 
cuidado sobre ela e contemplou-a com ternura. Tinha os lbios 
entreabertos e respirava suavemente, deixando ver os dentes 
limpos e brilhantes.
 "Como  bonita e frgil!" pensou ele. "Meu Deus, amanh terei de 
a aoitar para poder pensar em outra coisa!"

 Perto de Tchilny, onde o rio Kama descreve uma grande curva, 
Loupin conseguiu finalmente ver a filha e, sobretudo, falar-lhe.
 Foi a 14 de Junho de 1579 e, se Loupin possusse um calendrio, 
teria decerto sublinhado esta data a vermelho - nem que fosse com 
o prprio sangue. Assim, limitou-se a chorar de alegria, o que, 
dado o louco empreendimento em que se empenhara, era um 
verdadeiro prodgio.
 Os cossacos encontravam-se acampados nas margens do Kama. Jermak 
e os colaboradores discutiam h horas, no intuito de prever o 
futuro. Pela primeira vez, podiam formar uma ideia exacta da 
importncia dos Stroganov. O que os trs emissrios tinham 
contado era demasiado fantstico para ser verdade. Mas, agora, os 
cossacos escutavam os camponeses que conheciam bem os Stroganov. 
Quem, nas margens do Kama, e mais longe, no pas de Perm, 
ignorava os Stroganov?

 O czar est longe, mas um Stroganov est em toda a parte. Era 
uma verificao com a qual convinha saber viver, e bem. Os 
Udmurtes e os Bachkirios que colonizavam estas regiSes comearam 
por pegar em armas quando o czar ofereceu estes territrios ao 
av Anika Stroganov. Foi um presente fcil de oferecer, pois a 
regio no pertencia a Ivan IV. Apenas passou a pertencer-lhe 
quando Anika Stroganov surgiu nas margens do Kama, para contar a 
todos os habitantes que o grande czar branco, da longnqua cidade 
de Moscovo, o encarregara de os proteger a todos. E foi ento que 
Anika comeou a explorar o pas, as florestas. Estabeleceu 
tratados com os habitantes, que no sabiam ler nem escrever. 
Estava estipulado nestes contratos que o pas de Perm, e tudo o 
que se encontrava tanto na margem esquerda como na margem direita 
do Kama, pertenceria de futuro a Moscovo, e que Stroganov a 
exerceria todos os seus direitos. De incio sonhou-se um pouco, 
depois pegou-se em armas. Mas Anika no era homem para conquistar 
um pas  paulada. Preferiu reunir os chefes das tribos e 
mostrar-lhes o novo e magnfico palcio construdo segundo a 
tradio de Moscovo. Impressionados pelo esplendor e pelas 
palavras de Stroganov. "Um dia tambm ho-de viver assim!", 
aceitaram toda a espcie de presentes, confiando aos seus homens:
 - Este Stroganov  um mago que nos enriquecer a todos!
 E foi, de resto, o que aconteceu. O pas beneficiava da 
actividade dos crebros Stroganov. Os pequenos senhores 
construram pequenos Kremlins nos quais se pudessem refugiar, em 
caso de ataque por parte dos bandidos ou de outras tribos. 
Dispunham de uma fora defensiva reduzida mas bem armada, que 
apenas tinha o defeito de chegar demasiado tarde, mas pagavam 
generosamente as peles, a caa e o peixe que pretendiam. 
Institurem feitorias e elaborarem um plano de compras estvel 
para os negociantes. Podia-se confiar nos comissionados dos 
Stroganov. Anika chamava-lhes verdadeiros profissionais, que 
chegavam sempre nas datas previstas. E todos sabiam o que isso 
significava nessa imensa Rssia, privada de estradas, onde as 
armadilhas tecidas pela natureza eram constantes.
 Assim, ainda hoje, com Simeo Stroganov e os dois sobrinhos 
Nikita e Mximo, toda a gente vivia contente. Deus abenoe ainda 
por muito tempo os benfeitores Stroganov.
 - Dir-se-ia um conto de fadas - comentava Jermak para os seus 
ajudantes de campo, quando todas as informaSes lhe foram 
fornecidas. Os relatos dos trs mensageiros eram verdadeiramente 
incaractersticos. Os factos ultrapassavam tudo o que se contava 
sobre a Rssia, a qual era to rica em prodgios como em 
terrores. Irmos, vamos penetrar num pas onde correm o leite e o 
mel! Leite de zibelinas, mel de ouro puro!
 - Aleluia, louvemos o Senhor! - exclamou piedosamente o pope.
 Jermak olhou para ele, preocupado:
 - No! Trata-se de uma situao nova, irmos!
 Acabaram-se os ataques de surpresa, as pilhagens, as mulheres 
violadas! Fomos chamados a este pas para o defender, em nome do 
czar, das hordas de homens de raa amarela vindos do Leste. 
Cabe-nos cumprir uma misso sagrada! Conduzam-se, no como 
demnios, mas como homens dotados de sabedoria!
 - Seria terrvel, Jermak, se nos comportssemos como homens 
sensatos! - respondeu o pope, compenetrado. - Na verdade, 
comparado com um cossaco, o Diabo no passa de um menino educado 
num mosteiro!

 - Ento, comportem-se como eleitos do cu, o que somos, de 
resto. A partir de agora, as nossas vitrias sero para o czar!
 - Por quanto tempo? - perguntou um dos auditores.
 Jermak coou a cabea.
 - Os camponeses dizem que, dentro de dez dias, estaremos em 
Oriol, junto dos Stroganov.
 - No tocaro em nada!  uma ordem!
 Os tenentes cossacos estavam mudos, consternados. Jermak ordena, 
eles compreendem. Mas vai ser preciso explicar tudo aos outros. E 
que se passa quando um cossaco desobedece? Sobre isso nem  bom 
falar! H puniSes que deixam marcas para sempre!
 - E mais tarde? - perguntou outro.
 - Depois se v. Discutirei com os Stroganov o que poderemos 
fazer ou no. Mas prometo que nunca faro de ns ces raivosos! - 
Jermak aprumou-se, de olhos cintilantes. J era uma 
personalidade, reconheamo-lo.
- Seremos os cossacos mais famosos da Rssia! - concluiu, 
arrebatado pelos seus prprios pensamentos. - Nunca mais um czar 
poder afirmar que os cossacos so bandidos e assassinos!
 Foi um momento histrico. Um sonho que iria tornar-se 
realidade...

 Enquanto os chefes dos cossacos se reuniam e recebiam ordens de 
Jermak, enquanto os outros instalavam o acampamento, trs grupos 
de dez homens iam buscar gua ao rio em odres de couro. Outros 
destacamentos conduziam os cavalos para um local do rio em que 
estes pudessem beber e entre os soldados que executavam esta 
tarefa encontrava-se Marina.
 Loupin, desta vez, deparou com menos dificuldades para realizar 
os seus intentos. Graas a uma ordem de Jermak, os camponeses no 
eram obrigados a submeter-se aos maus tratos do bando, como 
acontecia outrora.
 J no se roubava descaradamente e s as mulheres muito bonitas 
eram molestadas na erva, o que Loupin considerava razovel, j 
que se aproximavam dos domnios dos Stroganov, esse estado dentro 
do estado do czar.
 Loupin no era parvo e dizia para consigo que se o prprio 
Jermak se emendasse, no viria longe o dia em que reencontraria a 
filha.
 Misturou-se com a multido de colonos udmurtes, enterrou o bon 
at aos olhos e ps-se a observar os soldados que conduziam os 
cavalos ao bebedouro. Imagem de respeito: seiscentos cavalos 
selados, carregados de sacos bem repletos de riquezas, cavalos 
para os quais nada era demasiado longe, que devoravam o colmo 
apodrecido dos telhados das casas dos aldeSes como se fosse erva 
luxuriante da Primavera. Cavalos que nunca se cansavam, ignoravam 
a doena e rivalizavam em coragem com os cavaleiros.
 Loupin avistou Marina no meio de uma fila de cossacos que se 
dirigiam para o rio. Montando um cavalo de plo mesclado, j no 
envergava um fato demasiado grande nem calava botas gigantescas. 
Vestia um verdadeiro uniforme cossaco, um pouco largo no peito, 
cinto alto de couro, bon vermelho-vivo sobre o cabelo louro e 
curto. Como todo o cossaco que se preza, trazia um punhal curvo  
cintura e, quando brandia o chicote, gritava "Ho+! Ho+! Ho+!", 
no se distinguindo em nada dos outros soldados.

 - Um bom disfarce - pensou Loupin, satisfeito e mesmo orgulhoso. 
- Ela sobreviveu a tudo!  uma rapariga atilada! Mas em breve 
terminar esta brincadeira e voltaremos a cavalo para um Novo 
Orpotchkov reconstrudo!
 Permaneceu entre a multido de indgenas at atingir os cavalos, 
e esforou-se por no cuspir de repulsa em contacto com os 
cossacos. Depois aguardou, um pouco  distncia, que os cavalos 
matassem a sede nas profundas guas das margens do Kama. Marina 
encontrava-se entre os relinchos, os coices, os roncos dos 
cavalos que soltavam tais bufados que dificilmente se ouviria um 
tiro de canho. Na verdade, seiscentos cavalos  solta fazem um 
barulho dos diabos!
 Mesmo assim, Loupin tentou lanar o assobio agudo que toda a 
gente conhecia, em Novo Orpotchkov, e ningum deixaria de ouvir. 
Introduziu, pois, dois dedos na boca, e o assobio partiu! Muitos 
dos seus vizinhos insistiam em treinar o mesmo assobio, mas o 
efeito obtido era sempre um lamentvel guincho. S o pope 
conseguiu um dia acertar com a nota, quando exercitava em segredo 
atrs da iconostase. O assobio foi to penetrante que uma velha 
que se encontrava a orar, diante da imagem de So Jos, caiu sem 
sentidos, julgando que o santo assobiara. A partir da, o pope 
interrompeu os treinos.
 Loupin assobiou, pois, e por milagre, ou porque a direco do 
vento era favorvel, ou ainda porque duas almas que se procuram 
tm mais possibilidades de se encontrar, o facto  que Marina se 
voltou e viu um homem imvel na margem do rio.
 Loupin esboou um gesto e tirou o bon, pondo a descoberto o 
cabelo grisalho e muito curto.
 Apercebeu-se de que Marina foi percorrida por um arrepio, 
levando a mo ao corao. Em seguida, voltou-se por diversas 
vezes, a fim de no ser notada, e comeou a avanar com o cavalo, 
lentamente, aproximando-se do pai atravs da massa formada pelos 
cavalos.
 Loupin arquejava ruidosamente. "Meu Deus ", implorava ele, "no 
permitais que o meu corao deixe de bater perante to grande 
alegria! Concede-me mais esta hora em que encontrarei a minha 
filhinha!" Mas sentia-se como que paralisado e via o rosto 
infantil de Marina, que entretanto adquirira uma expresso de 
mulher, atravs de uma nvoa. "Cavalguei tanto, durante tanto 
tempo", rezava Loupin, "para agora morrer... pois sinto-me 
desfalecer como um boi que recebeu o golpe de misericrdia. 
Marina..."
 - Paizinho - disse ela quando se encontrou  sua frente. Mas no 
pde abra-lo nem beij-lo... Teria sido indigno de um cossaco!
 - Minha querida - balbuciou Loupin. Proferidas estas palavras, a 
nvoa dissipou-se e ele viu claramente Marina mesmo  sua 
frente.- Minha filhinha! Como ests bonita, mesmo com esse 
uniforme!
 - Meu Deus, pap, como chegaste at aqui?
 - Tenho vindo sempre a segui-los - murmurou Loupin. -Estive 
sempre perto de ti, Marinouchka. Nunca estiveste sozinha, pois o 
teu pai esteve sempre contigo!
 Loupin no se mexia e, de longe, quem observasse o colquio 
pensaria que o jovem soldado interrogava severamente um velho, 
suspeito de hostilidade. Mouchkov ainda se encontrava junto de 
Jermak; quanto aos outros homens, - os cavalos prendiam-lhes toda 
a ateno.

 - Toda esta caminhada! Oh, paizinho! - os olhos de Marina 
encheram-se de lgrimas. Inclinou a cabea e mordeu o lbio 
inferior.- Disseram-me que tinhas morrido!
 - Quem te disse?
 - Os cossacos. Perguntei o que acontecera ao chefe da aldeia e 
eles gritaram, rindo: "Ah, esse? Assmo-lo dentro de casa!" No 
pude deixar de acreditar. A nossa aldeia ardeu e convenci-me de 
que pereceras nas chamas.
 Tambm eu teria morrido queimada se ele no tivesse tido a ideia 
de me vestir de homem!
 - Ele, quem?
 - Ivan Matveivitch Mouchkov.
 - Um cossaco?
 - O amigo e brao direito de Jermak.
 - Foi um desses sugadores de sangue quem te salvou?
 - Loupin passou as mos pelo cabelo.- Que te fez ele, minha 
pobre filha? Deus do cu, que sofreste tu?
 - No me fez absolutamente nada, salvou-me a vida.
 - Sem...- articulou Loupin, angustiado.
. - Sim, pai, sem.
 - Devem ter-lho cortado por ocasio de alguma expedio 
punitiva.
 - No sei, paizinho, mas no me parece...
 - Seja como for... - Loupin voltou-se, ningum os observava. - 
Se nos deitssemos na erva, num pice, e nos deixssemos rebolar 
at ao fundo da encosta, at quelas moitas, ningum nos veria... 
Esperaramos pelo cair da noite. - Ergueu o olhar acima do Kama; 
o dia declinava no reflexo rosado do poente; os campos 
tornavam-se pouco ntidos e sem contrastes, cobertos por uma 
claridade semelhante  que devia ter existido no primeiro dia da 
criao, quando Deus experimentou a luz solar. - Agora j no 
falta muito!
 - O qu, pap?
 - A nossa fuga! Galoparemos durante toda a noite. Jermak  
obrigado a prosseguir o seu caminho, no enviar ningum atrs de 
ns. A nossa fuga pode desde j considerar-se bem sucedida!
 Marina, procurando evitar o olhar do pai, observava o 
ajuntamento formado pelos cavalos e, mais adiante, as fogueiras 
que se acendiam no acampamento. Como era difcil dizer ao pai que 
gastara em vo foras e dores! Como era penoso explicar-lhe que 
h outro mundo para alm do Novo Orpotchkov e que a vida pode ser 
dominada pelo desejo do desconhecido!
 - Pai, no somos plantas enraizadas na terra, somos jovens e o 
mundo  muito vasto. Alm disso, h Ivan Matveivitch... No o 
conheces, mas salvou-me a vida e devia ser um filho para ti... 
No quero fugir, pap - disse ela baixinho. - E agora preciso de 
ir dar de beber aos cavalos.
 Loupin ergueu a cabea como se tivesse compreendido mal.
 - No queres... - repetiu ele, num tom meigo.
 - No, pap.
 - Ento, ests com eles de livre vontade...
 Era de tal modo inacreditvel que Loupin mal conseguia respirar.
 - Sim, pap.
 - E no queres voltar para a nossa aldeia?
 - Por agora, no. Mais tarde, certamente que sim.
 - Marinouchka...

 A expresso de Loupin crispou-se. Escorriam-lhe lgrimas pelas 
faces; no sabia que fazer nem que dizer.
 Desesperado, arrancava os cabelos com as duas mos:
 "Fica com os cossacos! A minha querida filha! O nico bem da 
minha vida!"
 - Que ser de mim? - perguntou por fim.
 - Voltaremos a ver-nos, pap.
 -  tudo? Tudo o que me resta de ti? Esperar! Esperar que a 
minha filha regresse verdadeiramente... ser isso viver?
 - E vegetar em Novo Orpotchkov  viver?
 - .
 - Eu penso que no, pap. - Marina encostara-se ao cavalo 
cossaco que, permanecia imvel habituado como estava, como um 
monumento. S as orelhas mexiam, enquanto a respirao lhe 
dilatava as narinas.
 - Que faria eu na aldeia? Jardinaria, casaria com um campons, 
daria  luz os meus filhos sem me afastar de casa e, por fim, 
morreria.  para nos submetermos a este destino que estamos 
vivos?
 - No foi assim que a tua me viveu? - balbuciou Loupin. "Ser 
mesmo a minha filha?", pensava ele.
 "Os olhos, a boca, o mesmo rosto de anjo, mas que esprito 
maligno habitar aquela linda cabecinha? Marinouchka, estou a 
chorar..."
 Loupin soluava, de rosto oculto entre as mos, aguardando mais 
explicaSes.
 - A minha me? - retomou Marina. - No era mais do que um animal 
de duas patas! Na rua labutavam os cavalos e os bois, em casa 
labutava ela tanto como eles. Qual a diferena? Recusava-se mesmo 
a pensar, isso era, para ti, pap. No quero ser como a minha 
me.
 - Ento queres cavalgar pelos campos, assassinando e incendiando 
tudo  tua passagem? - perguntou Loupin, sentindo a lngua pesada 
como chumbo. "A minha filha quer...". Baixou os olhos e 
encarou-a. - Se tivesse foras para te matar e, em seguida, 
acabar comigo... Como poderei viver depois disto...
 - No incendiarei nem pilharei o que quer que seja!
 - E eles? - perguntou Loupin estendendo o brao.
 - Eles?!
 - Que importam os outros? Trata-se de mim e de Ivan...
 - Esse cossaco! - Loupin arquejava, como se lutasse contra uma 
carroa totalmente enterrada na lama. - Ests apaixonada por ele? 
Por esse cossaco?
 - No sei o que  amar. - Marina puxou o bon vermelho mais para 
a testa. - Mas se  amor, a maneira como me comporto... ento 
tens razo.
 - E que fazes tu?
 - Fao de Ivan um homem!
 - De um cossaco?
 - Sim.
 - Deus me perdoe, j no  a minha filha,  uma cabecinha oca! 
Um cossaco! Um homem, dizes tu? Mais depressa transformarias um 
lobo em cozinho de estimao.
 - Com certeza! - Marina sorria eternamente. - Mouchkov j est 
mais moderado. - Se as rvores necessitam de tempo para crescer, 
porque  que um homem no h-de levar tempo a modificar-se? No 
podes compreender, pap!
 - No, no posso, Marinouchka.

 Loupin voltou-se para o rio. A noite descia lentamente sobre a 
terra, mal se adivinhara o Sol. "Talvez eu j esteja muito 
velho?" Enterrou a cabea nos ombros, como se sentisse frio 
naquela bela noite de Junho. "Que ir passar-se?"
 - Volta para casa, pap. Um dia tambm regressarei.
 - Quando, minha filha?
 - Dentro de dois ou trs anos. No sei de quanto tempo 
precisarei para modificar Mouchkov. Mas s voltarei com ele.
 Loupin meneou a cabea vrias vezes seguidas. "Quem devo 
acusar?", pensava. "O destino? O czar? por no ter enforcado 
todos os cossacos? Eu prprio, por ter querido resistir aos 
cossacos, provocando assim o encontro de Mouchkov com Marina? Que 
fazer? Valer a pena lanar-me ao rio?"
 - Est bem, minha filha - articulou penosamente Loupin. Para 
proferir estas palavras despendeu mais energia do que teria 
necessitado para dominar dois touros.- No te compreendo, mas que 
Deus te acompanhe!
 - Obrigada, pap.- e, subitamente, numa voz hesitante: - No 
posso dar-te um beijo...  impossvel, neste momento...
 - Evidentemente, j que s um cossaco.
 Marina esboou um gesto de despedida, voltou-se para pegar nas 
rdeas do cavalo e abeirou-se do rio. Loupin, por sua vez, 
virou-se lentamente para acompanhar a filha, com o olhar. Esta 
afastava-se entre os ltimos raios de sol ainda reflectidos nas 
guas do rio, jovem cossaco de ombros estreitos, escondendo o 
cabelo louro num gracioso bon vermelho.
 - Fico contigo! - gritou Loupin. Ningum o ouviu.
 Os seiscentos cavalos continuavam a dessedentar-se no rio.- Que 
farei eu em Novo Orpotchkov? Foges de mim, minha filha, mas eu 
seguir-te-ei. O teu velho pai vai perseguir-te. Que faria ele sem 
ti, neste mundo? De resto, ters necessidade de mim, sei-o bem.
 Viu-a regressar ao acampamento, cavalgando, com o primeiro grupo 
de cavalos. Mantinha-se bem firme na montada. Loupin sentiu-se 
orgulhoso e disse para consigo: "Fui eu que lhe ensinei a montar 
assim!"
 Seguiu-a com o olhar at a sua silhueta se apagar na escurido 
glauca das garupas dos cavalos. S ento voltou para trs, 
juntando-se aos camponeses udmurtes, reunidos nas margens do 
Kama, para prestar ateno aos seus comentrios.
 Jermak e os seus homens iam ao encontro de um certo Stroganov, 
que os chamara em nome do czar.
 - Cossacos chamados em nome do czar?
 Loupin j no compreendia nada do mundo. "Parece que o tempo 
passou por mim, deixando-me para trs. S a minha filha o 
percebeu. J no h pessoas sensatas." Era duro habituar-se.
 Agachou-se  beira do rio e s ento se congratulou por a filha 
ter sobrevivido, a despeito de todos os perigos.
 Do acampamento vinha o coro dos cossacos, enquanto a atmosfera 
se carregava de fumo da carne de vaca grelhada.

 Mouchkov, sentado  fogueira junto de Marina, saboreava 
antecipadamente o gosto da comida.
 - Que idade tens? - perguntou ela de repente.
 - Vinte e oito anos, penso eu.
 - O dobro da minha idade!
 Mouchkov olhou-a de esguelha. "Que mais teremos?", pensou. 
"Quando ela comea a fazer perguntas, temos perigo  vista!"

 - Porqu? - replicou com rudeza.
 Ela deu uma gargalhada e deitou-se para trs, na erva aquecida 
pela proximidade da fogueira.
 - De facto, j ests velho! - exclamou ela. - Mas no te 
preocupes a esse respeito.
 Durante a noite, Mouchkov no conseguiu dormir, sempre a pensar 
no que Marina lhe dissera, com toda a sua maldita alegria. Um 
velho... estas palavras continuavam cravadas na sua carne como 
uma seta. E, depois, todas estas noites sem dormir... to 
numerosas que Mouchkov emagrecera, andava plido e vagueava como 
um homem acossado.
 At mesmo Jermak se apercebera. Mouchkov cavalgava muitas vezes 
a seu lado durante a longa caminhada rumo ao Norte e vira-o fixar 
o horizonte com um olhar demasiado ausente, prostrado no cavalo 
como um saco de centeio.
 - Pareces doente - disse-lhe Jermak no dia seguinte. -  do 
estmago, irmo? Talvez tenhas comido de mais? Ou precisas de uma 
rapariga vigorosa, meu grande mariola?
 Jermak soltou uma gargalhada sonora, saudvel, provocante.
 Mouchkov sorriu, por entre um esgar:
 - Uma fmea! - esclareceu ele, desgostoso. - Jermak, no me 
venhas recordar um certo corpo muito branco, tpido, delicioso! 
S me falta chorar!
 - Ah! ento  isso... Escolhe uma... Ainda atravessaremos muitas 
aldeias antes de chegarmos  terra dos Stroganov. Acabaram-se as 
pilhagens! Foi ordem que vos dei! Quem se entregar s pilhagens 
ser enforcado! Mas deitar uma rapariga na erva  um gesto 
perfeitamente natural... De resto, elas gostam, as frgeis 
pombas...
 Pouco importa que seja musique ou cossaco, desde que se trate de 
um homem robusto! Ivan Matveivitch, tu eras assim, antigamente!
 - Antigamente! Quando penso nesses tempos, vm-me as lgrimas 
aos olhos!
 Aprumou-se na sela, olhou de esguelha por cima do ombro e viu 
Marina, que avanava na terceira fila de cavaleiros. O seu bon 
vermelho brilhava ao sol. O vento que lhe colava ao corpo o 
uniforme demasiado largo deixava adivinhar os seios firmes 
atravs da camisa. Mouchkov sentiu um choque: "Se um destes 
bandidos a observar com ateno neste momento, estar perdida!
 Felizmente, ningum olha para um jovem demasiado magro que a 
generosidade de Jermak admitiu entre os cossacos. Porque haveriam 
de olhar?"
 - Boris Stepanovitch est-me atravessado na garganta! - 
confessou Mouchkov. - Foi um erro traz-lo connosco.
 - A ideia foi tua, Ivan Matveivitch! - Jermak encolheu os 
ombros largos: - Vejamos, trata-lhe da sade com uma boa surra, 
linguagem que os camponeses no ignoram! De qualquer modo, penso 
que se far um bom cossaco!
 - Se lhe bastasse uma surra...
 Mouchkov deixou-se ficar para trs, insinuou-se pela fila em que 
seguia Marina e ps-se a mir-la fixamente.
Era uma jovem muito alegre, de olhos sempre brilhantes e que 
ocupava a sela como se a tivesse nascido.
 - Porque me dizes tantas maldades?
 - O qu, meu ursinho?

 O corao de Mouchkov saltou-lhe dentro do peito. Pela primeira 
vez, ela chamara-o assim e ele no sabia ao certo se seria por 
verdadeira ternura ou por zombaria. V l o Diabo entender as 
mulheres! Nascem com a lngua carregada de raiva e veneno!
 - Pretender que sou velho! Merecias ser mergulhada  fora no 
rio, durante uma hora, para amansares!
 Marina deu uma gargalhada e, cravando as esporas nos flancos do 
animal, juntou-se a Jermak,  frente da cavalgada. Mouchkov 
seguiu-a, de ar carrancudo e corao apertado. "Como poderei 
surr-la ou expuls-la se s penso em a acariciar?  impossvel 
sov-la como a qualquer camponesa, pois ela pagaria na mesma 
moeda! Ou apunhalar-me-ia..."
 Jermak mostrava-se de muito bom humor. Aproximavam-se dos 
domnios Stroganov. A sua influncia era bem visvel por toda a 
parte: aldeias limpas, dotadas de pequenas fortalezas contra os 
ataques imprevistos, contra os Ostacos pouco seguros, campos e 
jardins bem cultivados, algumas minas de prata vigiadas por 
homens de Stroganov e rodeadas por cercas aguadas.
Paliadas cujo ataque, mesmo para um cossaco, apresentaria 
numerosas dificuldades!
 Pescava-se  beira do rio. Os caminhos estavam cuidados. Grandes 
barcaas de madeira, largas e achatadas, transportavam 
mercadorias. Subindo o rio, rebocadores em longas colunas 
avanavam junto s margens, guiando filas de barcos atravs da 
corrente indolente enquanto se cantavam surdas melopeias 
escondidas a cada passo - uma nota por passo - pelos homens 
debruados para a frente, nos seus trajes de couro.
 - Porque  que Ivan Matveivitch est to preocupado contigo? - 
perguntou Jermak quando viu Marina a seu lado. - Queixa-se tanto 
que at parece que a Lua est para cair do cu!
 - No sei de nada, Jermak Timofeivitch - respondeu Marina, 
mantendo-se ao seu lado, numa posio s autorizada ao brao 
direito do chefe. O facto de Jermak tolerar esta impertinncia 
provou, a todos os que testemunharam a cena, que o rapazelho 
louro tinha um belo futuro em perspectiva entre os cossacos.
 - Ele tem exigncias estranhas... - confessou Marina, por fim.
 - Mouchkov? A que te referes?
 - Quer obrigar-me a dormir com ele...
 Mouchkov, que os seguia de muito perto, rangeu os dentes 
ruidosamente, surpreendido por no ter tombado da sela ao ouvir 
to ousado improprio. " um demnio, esta rapariga" pensou ele. 
Jermak virou-se para trs e lanou-lhe um olhar reprovador.
 - Devias ser borrifado com gua fria! - disse ele com dureza. - 
Na prxima aldeia, escolhers uma rapariga para ti, quero ver 
isso! E Boris Stepanovitch tambm assistir ao espectculo!
 Mouchkov arregalou os olhos, apavorado, deixando-se ficar para 
trs, na esperana de que Marina regressasse ao seu lugar.
 - F-lo-ei! - resmungou ele quando se encontraram novamente lado 
a lado. -  tua frente, arrastarei uma bonita mulher e hei-de 
mont-la como um garanho, enquanto tu aplaudirs com as tuas 
prprias mos. Ousas dizer a Jermak que pretendo dormir com um 
rapaz!  mais humilhante do que borrar-me de medo durante um 
ataque! Ah! Prometo-te que na prxima aldeia...

 - No jures, ursinho - avisou suavemente Marina Alexandrovna -, 
se no ters de renegar por perjrio. Se tocares numa mulher, 
regressarei a galope para Novo Orpotchkov.
 - Jermak deu-me uma ordem! - gritou Mouchkov fora de si. Ela 
chamara-lhe novamente "ursinho", era de endoidecer. - No sabes 
que sou obrigado a obedecer a Jermak?
 - Ento arranja uma desculpa, Ivan Matveivitch, uma velha 
raposa como tu deve ter experincia!
 Marina ria perdidamente. Inclinando o belo rosto para trs, 
partiu de novo a galope. Mouchkov fechou os punhos, segurando bem 
as rdeas, cuspiu nas crinas do inocente cavalo e gemeu baixinho. 
"Ela d cabo de mim", pensou ele. Mas o sentimento que 
experimentava era simultaneamente estranho e maravilhoso. "Se 
continuar assim, endoideo! Eu, o grande Mouchkov, o suplente do 
heri Jermak! Que todos os santos do cu me protejam desta 
mulher!"

 A 24 de Junho de 1579, os cavaleiros de Jermak atingiram a 
cidade de Oriol, construda pelos Stroganov, burgo do longnquo 
pas de Perm, quase lendrio, em que se encontravam acumuladas as 
maiores riquezas da Rssia.
 A chegada dos cossacos fora previamente anunciada por cavaleiros 
emissrios; Simeo Stroganov despachara ao seu encontro quatro 
"enviados" envergando sumptuosos mantos bordados, a fim de, como 
eles prprios disseram, saudar os futuros libertadores do pas da 
dominao dos Anticristos! A regio com que depararam era 
totalmente diferente das paisagens conhecidas dos rudes 
companheiros de Jermak. Tratavam-se de campos cultivados segundo 
planos preestabelecidos. O Kremlin dos Stroganov era uma 
imponente fortaleza de pedra situada numa lngua de terra que 
avanava pelo rio, muito fundo nesse local. Apresentava um 
aspecto sinistro e fechado por todos os lados, embora a capela 
privada fosse encimada por quatro cruzes que, dizia-se, eram 
feitas de ouro puro e no apenas douradas.
 Quanto  cidade de Oriol, era edificada ora em madeira ora em 
pedra, cortada por largas avenidas, dotada de grandes praas e de 
duas igrejas; e todas as casas particulares se orgulhavam de 
possuir um pequeno jardim. Os habitantes encontravam-se todos  
porta, curiosos e um pouco apreensivos, pois a reputao do 
"temperamento cossaco" chegara ao pas de Perm.
 Assim, s os homens se encontravam na rua, enquanto as mulheres 
espreitavam pelas persianas entreabertas das janelas. De vez em 
quando, adivinhava-se na penumbra das casas um leno de cabea, 
uma madeixa de cabelo.
 Contudo, algumas mulheres mais intrpidas ousavam encarar esses 
mal afamados, que despiam as calas to depressa como saltavam do 
cavalo... Era, pelo menos, o que constava...
 - Esconderam as mulheres! - Jermak ria a bom rir e, voltando-se 
para os enviados dos senhores da terra, vestidos de brocado, 
perguntou, numa voz tonitruante:
 - Pensaro que somos um exrcito de santos? - Observava a 
cidade, que se estendia a seus ps, pois encontravam-se numa 
colina donde a abrangiam na sua totalidade. - Esto aqui 
quinhentos homens vigorosos que no so castrados! Queremos uma 
mulher para cada um de ns! De contrrio, arrancamos os telhados 
das casas!

 - O senhor pensou em tudo. No vos faltar nada em Oriol! - 
respondeu um dos enviados designado por "Senhor" Simeo 
Stroganov, soberano absoluto do pas.
 Jermak ergueu-se nos estribos para contemplar o kremlin e o rio, 
a cidade e a multido de homens que os aguardava nas ruas. A 
cavalo do seu lado encontravam-se Mouchkov e Marina; seguia-se a 
horda densa, movedia, relinchante e inquieta de homens e 
cavalos, lado a lado, garupa contra garupa, o exrcito dos 
cossacos. E, muito mais atrs, simples ponto recortado no cu 
azul claro, um cavaleiro solitrio, de camisa em farrapos, cuja 
cabeleira branca ondulava ao vento do Vero: Alexandre 
Grigorivitch Loupin, o pai que cavalgava no rasto da filha...
 - Mulheres, alimentao abundante, boas instalaSes para homens 
e cavalos, os bolsos bem recheados de copeques... quero ter a 
certeza de que tudo isto nos ser proporcionado. Se assim no 
for, no nos limitaremos a atravessar a cidade, assalt-la-emos! 
- gritou Jermak. 
 Os cossacos sublinharam as suas palavras com o clamor 
caracterstico, tanto entusiasta como ameaador, que se propagou 
pela cidade como um trovo. Os citadinos que passavam nas ruas 
abanavam a cabea, horrorizados. Este grito diria muito sobre o 
que poderiam esperar.
 - O Senhor confirmar o que vos digo!
 O enviado dos Stroganov que tomara a palavra obrigou o cavalo a 
voltar-se para apontar o caminho aos recm-chegados, mas Jermak 
no os seguiu logo. Olhou de esguelha para Mouchkov, que tentara 
passar despercebido nos ltimos quinze dias. Como  evidente, no 
deitara na erva, nem violara na presena de Marina nenhuma slida 
camponesa, como lhe ordenara Jermak, pois no dia seguinte 
Mouchkov foi visto a coxear, com a cabea entrapada. O cavalo 
aplicara-lhe um corte no crnio, inadvertidamente, quando o 
cavaleiro se encontrava encostado  sua ilharga, segundo os 
hbitos cossacos.
 - Animal estuporado! Deu-me um coice que me fez ir pelos ares! - 
resmungava Mouchkov. Assim, Jermak no teve oportunidade de 
recompensar o seu maltratado cossaco com o conforto de uma 
meretriz.
 E foi tambm assim que Mouchkov evitou submeter-se s ordens de 
Jermak, o que lhe valeu um cumprimento da parte de Marina:
 - Basta ser velho para ter boas ideias, ursinho!
 A palavra "velho" perturbou mais uma vez Mouchkov, que s se 
libertou das ligaduras  vista da cidade de Oriol.
 - Tens mais alguma exigncia a fazer, Ivan Matveivitch? 
Ter-me-ei esquecido de alguma coisa? Ainda estamos a tempo! Pensa 
bem, irmo. Neste momento, ainda podemos falar... - Jermak 
voltou-se para trs, na sua sela.- No precisamos do grande 
Stroganov, mas ele precisa de ns!
 - Observemos em primeiro lugar o que se passa com esse 
maravilhoso pas conhecido pelo nome de Manga seja - respondeu 
Mouchkov, desanimado.- Se for verdade que se encontram pepitas de 
ouro penduradas nos ramos das rvores, ter valido a pena a 
deslocao!

 Enquanto falava, no ousava olhar para Marina. Com efeito, 
sentia-se verdadeiramente digno de piedade. - os seus camaradas 
tinham enchido os alforges de dinheiro sonante e jias roubadas. 
Vendo bem, obtm-se uma boa maquia ao cabo de dois meses de 
rapina! Jermak, por seu lado, levava  retaguarda duas bestas de 
carga bem fornecidas. Quanto ao pope, esse representante do cu, 
merecia respeito, pois muito se poderia aprender com ele ao ver 
como procedia no enriquecimento da sua parquia. Levava consigo 
dois cones, cruzes de ouro, vestes sacerdotais bordadas a ouro, 
taas de prata cinzelada, objectos todos eles "oferecidos " pelos 
caros colegas visitados pelo caminho durante a viagem em direco 
a Perm.
 S Mouchkov tinha os alforges completamente vazios: uma vergonha 
para um cossaco. Mas, assim que avistavam uma aldeia, Marina 
advertia-o:
 - No voltars a pilhar.- E ainda acrescentava: - Ou volto para 
casa!
 - Ento volta! - gritara-lhe uma vez Mouchkov. - Vai para o 
Diabo! De que serve viver se no pudermos roubar?
 Mas, de noite, quando ela se foi deitar encostada ao cavalo, 
Mouchkov correra atrs dela, sussurrando baixinho:
 - Manouchka, Marina, minha pomba, no me partas o corao! - 
Marina concordara em no fugir e Mouchkov comprometera-se a no 
roubar. Limitava-se a ver os outros roubar, rangendo os dentes, 
agarrado ao seu amor como um co de guarda  sua casa, o qual tem 
licena de ladrar mas sabe que no lhe perdoaro nenhuma 
mordedura.
 Finalmente, atravessavam a cavalo a cidade de Oriol, com direito 
a sorrisos sardnicos dirigidos aos homens que erguiam os olhos, 
e procuravam descortinar por detrs das janelas as pobres 
mulheres assustadas. Os cossacos comearam, ento, a cantar em 
voz muito alta, para mostrarem quo livres se sentiam.
 Do kremlin dos Stroganov, os dois sobrinhos de Simeo, Nikita e 
Mximo, saram ao seu encontro, em pequenos cavalos trtaros bem 
almofadados e fogosos. Sem desmontarem, Jermak e os dois 
Stroganov beijaram-se trs vezes nas faces, cientes de que se 
enganariam reciprocamente ao longo dos anos com inimaginvel 
astcia.
 - Que pas rico e aprazvel! - exclama Jermak, felicssimo.
-  uma atmosfera quase desconhecida no reino moscovita!
 - Mantemos a ordem,  tudo!
 Mximo Stroganov observou com olhar crtico a avalanche de 
cavalos suados e de cabeas de cossacos hirsutas:
 - O czar delegou em ns o direito de fazer justia em todas as 
regiSes que conquistarmos.
 Jermak Timofeivitch compreendeu: era a primeira ameaa velada, 
o primeiro pontap no traseiro. Sorriu abertamente, mas os olhos 
negros brilhavam de dureza, como os olhos de um urso que ignora a 
piedade.
 - Respondemos ao apelo que nos impele a defender a cristandade - 
afirmou. - O rei dos cus recompensar-nos-... e Simeo Stroganov 
tambm!

 O grande senhor esperava Jermak e Mouchkov na enorme sala de 
audincia, que, pela sua imensidade apresentava um aspecto pelo 
menos to sumptuoso e to deprimente como a sala do trono de Ivan 
IV, no Kremlin de Moscovo. Encostados s paredes forradas de 
seda, viam-se bancos cobertos de peles de raposas azuis e de 
esquilos cinzentos. Tapetes da Monglia revestiam as lajes do 
cho. Os candeeiros a petrleo, obras de artistas trtaros, eram 
de ouro cinzelado com incrustaSes de pedras preciosas.

 Simeo Stroganov envergava, a despeito do calor do Vero, um 
gibo talhado na mais delicada pele de zibelina. Tinha calor, 
visivelmente, mas importava mostrar a esse brbaro Jermak que no 
era o czar moscovita mas Stroganov, o soberano de Oriol, nas 
margens do Kama, o homem forte da Rssia.
 E, mais uma vez, Jermak compreendeu perfeitamente o que 
pretendiam dizer-lhe. Ento, pela primeira vez na vida, esboou 
uma espcie de cumprimento, inclinando um pouco a cabea num 
breve movimento, gesto este que causou uma extraordinria 
impresso em Mouchkov.
 - Bem-vindo, irmo Jermak - saudou Simeo Stroganov, abraando o 
maior bandido que a Rssia jamais produziu. Mas estas palavras 
saram-lhe dos lbios sem dificuldade, pois quem quer conquistar 
um pas como Mangaseja no deve deter-se em ninharias como so as 
consideraSes de ordem moral. - Pensmos em ti e nos teus irmos, 
mandmos construir uma cidade que vos est reservada, assim como 
uma bela zona nas margens do Kama, pois ainda teremos que 
trabalhar muito, antes que o apelo de Deus nos conduza a transpor 
os Urales!
 Uma cidade cossaca reservada... Jermak estava contente. Nos 
nossos dias diramos que Stroganov tinha construdo uma 
gigantesca caserna, afastada de Oriol e dos seus arredores, um 
gueto, que representava simultaneamente uma proteco para as 
mulheres que vivessem fora da caserna.
 - E onde esto as mulheres que nos prometeste, Simeo Stroganov? 
- perguntou Mouchkov. Marina no se encontrava presente e ele 
sentia que era seu dever formular tal pergunta a fim de aumentar 
o seu prestgio.
Jermak dirigiu-lhe um sinal de aprovao.
 - Mulheres no faltam - respondeu Simeo, com um sorriso de 
compreenso. - No ignoro aquilo de que um soldado necessita, 
pois cresci entre soldados.
 Entretanto, o pope dos cossacos, Oleg Vassilivitch Koulakov, 
visitava os seus piedosos colegas, comungando da mesma f, 
reunidos na capela privada dos Stroganov. Os cossacos, apeados, 
mantinham-se de p, cada um junto do seu cavalo, no grande ptio 
do kremlin, deixando-se admirar pela criadagem como ursos 
capturados. Algumas criadas mantinham-se a uma distncia 
prudentemente respeitosa, rindo  socapa. Os primeiros convites 
lascivos pairavam sobre o vasto ptio.
 - Kyrie Eleison - dizia o pope dos cossacos na sumptuosa capela, 
admirando, boquiaberto, o esplendor da iconostase, o maravilhoso 
altar-mor dourado, os preciosos clices, as cabeleiras dos 
sacerdotes, bordadas a prolas e pedras preciosas, que se 
encontravam alinhadas em cima de uma mesa, semelhantes a bolos 
monumentais. Oleg Vassilivitch Koulakov lamentava com amargura 
no poder exigir nenhum "presente", to tentador era tudo o que 
via.
 - Deus esteja connosco! - respondeu o pope dos Stroganov 
piedosamente, fazendo um grande sinal da cruz sobre a sua prpria 
pessoa.- Na verdade, precisaremos da sua ajuda!
 - Irmos perante o Senhor, viemos a fim de expandir os limites 
da cristandade e de entoar louvores ao Senhor.
 - Amem - respondeu o irmo numa voz surda. - Construmos uma 
igreja para ti na "cidade cossaca"!
 - To bonita como esta?
 - Nem por isso, meus irmos.

 - Deus lament-lo-! Todos os homens so irmos, tu prprio o 
dizes! - O pope dos cossacos aproximou-se mais um passo, agarrou 
o colega pela longa barba e invectivou:
 - No mundo da f no pode reinar a desigualdade.
 Promete-me alguns cones, irmo! Um cossaco tambm se deleita a 
admirar imagens sagradas!
 Passada meia hora, tinham chegado a um acordo para que a igreja 
dos cossacos tambm possusse algum brilho, no se reduzindo 
apenas a uma granja deserta.
 Finalmente, Alexandre Grigorivitch Loupin entrava no kremlin 
dos Stroganov, guiado pelo passo cansado do seu esgalgado cavalo, 
e procurou do imediato um moo de estrebaria. Marina viu o pai 
apear-se e, determinado, dirigir-se para os edifcios alinhados 
que se destinavam aos estbulos dos cavalos. o corao da jovem 
batia dolorosamente.
Encostou a cabea ao cavalo de Jermak e sentiu os olhos marejados 
de lgrimas.
 - Meu querido pai! Como  bom sentir-te aqui!
 Loupin viu que teria de se impor quando chegou  presena do 
cavalario-mor: no necessitavam de nenhum palafreneiro como ele, 
tanto mais que, em Oriol, no havia falta de homens e no se 
descortinava razo alguma para aceitar os servios de um 
desconhecido vindo do longnquo Sul.
 - Tambm sou mdico de cavalos! - sugeriu Loupin, corajoso.-  
um dom que passa de pais para filhos! Alguma vez tiveram um 
mdico para as vossas cavalgaduras? Como  que sabem quando um 
cavalo tem uma febre biliosa?
 - Quando caga verde! - gritou o cavalario-mor.
 - Isso pode ser da luzerna, senhor. No, a doena v-se nos 
olhos! E eu, eu sei ver!
 - Vem comigo, tagarela - respondeu o cavalario-mor -, e diz-me 
por que razo este cavalo no quer sair da cavalaria e conserva 
a cabea baixa, sem arredar os cascos!
 Loupin deu uma volta em redor do animal, bateu-lhe amigavelmente 
no pescoo e declarou:
 - Tem uma espcie de vertigem convulsiva!  por isso que est 
cada vez mais magro.
 O cavalario ficou de boca aberta.
 Foi um momento memorvel, aquele em que Loupin se viu assumir o 
cargo de mdico veterinrio, perante Nicolas Stroganov em pessoa, 
depois do cavalario-mor o ter apresentado ao seu jovem amo. E 
foi assim que Loupin se apropriou tambm de um quarto de 
habitao ao fundo da estrebaria, onde lhe serviam alimentao 
abundante e lhe pagaram mais dinheiro ao fim de uma semana do que 
em seis meses na sua aldeia. E, ao mesmo tempo, era mdico de 
cavalos! Quando se dirigiu  igreja para agradecer ao senhor, 
Loupin atravessou a grande praa que se estendia diante da casa 
senhorial. A praa encontrava-se deserta, pois os cossacos j se 
tinham apoderado da cidade construda expressamente para eles. 
Viam-se apenas alguns criados, que varriam os excrementos em 
volta dos estbulos. No ar quente do Vero, pairava um penetrante 
odor a suor de cavalo e a homens imundos.
 Um adolescente aproximou-se dele num passo hesitante. Olhou 
Loupin com um ar interrogador e perguntou:
 - No sers, por acaso, Alexandre Grigorivitch?
 - Sim, sou - respondeu Loupin surpreendido. - Donde me conheces?

 - Tenho uma coisa para te entregar, da parte de um dos cossacos. 
Diabos levem todos esses bandidos!
 O adolescente abriu a mo e mostrou uma madeixa de cabelos 
louros, brilhando ao sol na palma da mo suja.
 Loupin sentiu um n na garganta.
 - Obrigado - agradeceu com voz enrouquecida. Pegou no caracol e 
regressou a passos largos para a cavalaria, onde ningum o viu 
refugiar-se num canto obscuro para poder levar aos lbios a 
madeixa loura.
 - Marinouchka - balbuciou. - Meu anjo!
 E no pde deixar de chorar, cobrindo de beijos o pequeno anel 
feito de cabelo.

 A "cidade" ou, mais exactamente, o acampamento dos cossacos 
revelou-se um aglomerado de cabanas de madeira rodeado por uma 
alta paliada. Tinha ruas, uma praa principal, estbulos, 
entrepostos, uma capela que se resumia a um armazm meio 
deteriorado, o que amargurava o corao do pope Koulakov, um 
matadouro, cozinhas e, por fim, uma "loja" onde trs escribas de 
rosto plido, nomeados por Stroganov, se encontravam instalados. 
Tinham por misso dedicar-se ao comrcio com os cossacos. Era uma 
das ideias tpicas dos Stroganov os, rublos entregues como 
garantia deviam voltar aos bolsos dos Stroganov.
 Era assim. E depois, havia tambm aquilo a que se chamava a 
"casa das mulheres", imponente construo feita de toros de 
madeira, assentes numa base de pedra. As "pensionistas" 
encontravam-se na rua quando os cossacos desfilaram a cavalo, 
exemplarmente ordenados, dirigindo-lhes gestos de bom 
acolhimento. Eram mulheres de todas as raas, predominando as 
asiticas de membros muito delgados. Vestiam saias e blusas 
brancas e, nos cabelos cor de bano, brilhavam chapelinhos 
escarlates.
 - Sinto o corao dilatar-se como uma bexiga de porco! - 
exclamou Mouchkov, procurando humilhar Marina. - Vs aquela linda 
jovem de chapu azul? Est reservada a Ivan Matveivitch!
 - So poucas! - observou Jermak, irritado. - Que te parece? 
Quarenta e cinco, no total, no mais! Como podero satisfazer 
quinhentos e quarenta cossacos? Vo matar-se uns aos outros, os 
desgraados, para se aproximarem delas! - Afastou o cavalo para o 
lado e os outros passaram por ele, como numa parada. - Quem se 
aproximar das raparigas ser enforcado! - Gritou Jermak, por cima 
da cabea dos homens.
 O bando de brutamontes fixou-o, de olhar vazio e surpreendido: 
ao verem as mulheres, o contacto com as selas tornara-se 
insuportvel.
 - Enforcarei todos aqueles que desobedecerem! - insistiu Jermak. 
- Amanh, ou nos do o triplo destas pegas, ou vamos procur-las 
 cidade!
 - Ho+! Ho+! - gritaram em coro os cossacos, de brao levantado.
 O grito ressoou pela cidade, ouvindo-se no kremlin dos 
Stroganov. As mulheres que se encontravam  porta da casa grande 
agruparam-se numa massa compacta, como galinhas assustadas. Os 
funcionrios de servio  "loja" persignaram-se.

 - Isto  que  boa vida! Que te parece? - gritou Mouchkov, 
batendo no ombro de Marina. Esta sobressaltou-se e mordeu os 
lbios; logo a seguir, debruou-se sobre Mouchkov e 
sussurrou-lhe, mordaz:
 - Fica com a pegazinha de chapu azul. Quanto a mim, vi l em 
baixo, no ptio do kremlin, um belo rapaz que me agradou.  forte 
e sobretudo... jovem! Vou procur-lo amanh!
 - Darei cabo dele! - resmungou Mouchkov, crispando as mos nas 
rdeas. - Estrangulo-o... como a uma pomba! E a ti, encosto-te  
parede, vestida com o uniforme. No me escapars!
 Aplicou um pontap no cavalo, que deu um salto em frente e 
partiu a galope para a primeira fila. Jermak cavalgava na 
retaguarda, observador e guardio impiedoso. Era impossvel 
deslizar sorrateiramente em direco ao grupo formado pelas 
mulheres.
 O nico que ficou para trs foi o pope Oleg Vassilivitch 
Koulakov. Podia permitir-se tal atitude, pois devia tomar posse 
da sua igreja. Mas, vendo bem, fez um desvio, contornou a capela 
e, subitamente, viu-se diante de um grupo de jovens envergando 
trajes coloridos. Os cossacos tinham desaparecido atrs dos 
estbulos, onde se apearam e esperaram que Jermak e Mouchkov 
distribussem os homens pelos alojamentos.
 - Aproxime-se de mim a que tenha cometido mais pecados e eu a 
reconfortarei! - ordenou o pope Koulakov, mirando, benevolente, o 
bando de alegres raparigas.
 Uma imponente filha das margens do Volga, chamada Leila, 
apresentou-se-lhe. O seu corpo e o seu rosto era to claramente a 
imagem do pecado, que o barbudo sacerdote perdeu o flego. Para 
quem queira compreender, ou seja, perdoar, recordemos que a 
igreja ainda no fora consagrada...

  noite, nenhum cossaco de Jermak conseguiu adormecer.
 Aquartelados, tinham arrastado as selas para o interior, 
desfeito as trouxas e estendido os cobertores sobre as camas de 
tbuas. Quatro aougueiros encontraram dois bois no matadouro e 
abateram-nos imediatamente. Os cozinheiros cossacos ocupavam-se 
j das fogueiras acesas, onde ferviam caldeirSes de gua. A 
cozinha estava bem organizada e providas de pipas de couve-azeda, 
feijo-seco, pepino de conserva. Havia um estrado coberto de po 
fresco, e muitos cereais, na sua maioria, desconhecidos de resto, 
para os novos hspedes. A tudo isto juntavam-se ainda enormes 
recipientes de barro, da altura de um homem, cheios de cerveja 
caseira... Os Stroganov tratavam bem dos seus mercenrios.
 Mas quando, mais tarde, depois de saciados, se dei taram pelo 
cho, arrotando, a fim de repousarem da longa cavalgada, ao mesmo 
tempo que a fadiga se lhes apoderava dos ossos, a proximidade das 
raparigas instilava nas suas veias uma irreprimvel agitao.
 Alguns temerrios arriscaram-se a rastejar at  casa grande 
mas, ao passarem pelos estbulos, foram interceptados pelas 
sentinelas de Jermak, que os zurziram convenientemente e os 
recambiaram para as respectivas camaratas.
 A misso era dura para os guardas. Na verdade, eram homens 
semelhantes queles que chamavam  ordem. Quando inspiravam a 
leve brisa estival, parecia-lhes captar o odor das raparigas, 
como ces farejando uma cadela. Maldita noite, convenhamos.

 Jermak dirigira-se aos Stroganov, queixando-se do nmero 
restrito de raparigas. Mouchkov, o seu brao direito, 
encarregara-se de apoiar as suas reivindicaSes. O nico cossaco 
que dormia de facto, desprovido de qualquer desejo escaldante, 
era Boris Stepanovitch. Marina encontrava-se estendida na cama, 
na casa que ocupava com Jermak e Mouchkov. Era a nica casa de 
pedra. Simeo Stroganov mandara constru-la a pensar em Jermak: 
primeiro bero de uma nova Sibria, se os planos de Stroganov se 
concretizassem.
 Noite maldita, repetimos. Quente, sufocante, silenciosa, a ponto 
de cada um ouvir correr o seu prprio sangue, sangue este que 
murmurava como as guas de um rio depois do degelo, enquanto 
sonhava com as raparigas! S este clima particular explica que 
Mouchkov tivesse rompido o juramento que lhe apertava o corao: 
depois de ter contemplado Marina, que adormecera de joelhos junto 
 boca, lanou-se sobre ela, soltando um profundo suspiro.
 H segundos de terror que, na verdade, duram apenas segundos. E, 
quem conhecesse Marina Alexandrovna, sabia que as suas reacSes 
eram rpidas, mesmo quando arrancada a um sono profundo. Mas, 
naquele momento, tudo dentro dela pareceu renunciar  luta: 
manteve-se imvel, no se defendeu e conservou os olhos fechados. 
Mouchkov nem chegou a saber se ela estava acordada. O seu 
delicado rosto, meio oculto pelo cabelo em desalinho, parecia 
perfeitamente descansado.
 Mouchkov suspirou de novo, respirando ruidosamente, to nervoso 
se sentia. Com as mos trmulas, desabotoou a jaqueta da jovem e, 
pegando-lhe nos seios, ajoelhou a seus ps, amaldioando as 
calas e as botas de cossaco, obstculos que s poderia superar 
por vontade de Marina, a no ser que a estrangulasse ou 
aniquilasse...
 - Marinouchka... - balbuciou Mouchkov - amo-te... juro-te que 
farei tudo o que quiseres! No fiz j o suficiente para que 
acredites em mim? No sou o cossaco mais miservel, mesmo 
reconhecido como representante de Jermak? No vs o que fizeste 
de mim?
 Mouchkov beijava os seios rijos de Marina, enquanto se debatia 
com um par de botas, louco de desejo.
 Como dissemos, Marina permanecera at ento imvel, de olhos 
fechados e calada. Mas se dentro de todas as mulheres habita um 
diabo, como se costuma dizer, Mouchkov pde nesse momento 
comprov-lo. Inesperada, viva como um raio, invisvel ao homem 
cego pela sua paixo, a mo direita de Marina ergueu-se, o punhal 
descreveu uma curva... e Mouchkov soltou um grito abafado, largou 
as botas e os lindos seios e deu um salto, de mos apoiadas nas 
ndegas. Uma mancha quente e viscosa alastrava sob os seus dedos 
pelo tecido das calas.
 - Feriste-me - balbuciou ele -, feriste-me profundamente, 
Marinouchka... Tu...
 Surpreendido por este ataque fulgurante, Mouchkov tentava conter 
a dor que lhe invadia os rins. Um cossaco apunhalado nas ndegas! 
Era o cmulo do ridculo!
 Exactamente no local mais precioso para um cavaleiro. Que 
justificao poderia fornecer?
 - Mato-te! - ameaou Mouchkov num gemido, rangendo os dentes. - 
Deus perdoar-me-: sou obrigado a matar-te!

 - Ento mata-me! - Marina sentou-se, tapou o peito com a camisa, 
apertou o cinto que Mouchkov desafivelara e limpou a lmina do 
punhal curvo ao cobertor. A bem-dizer, via-se apenas um pouco de 
sangue na ponta... Marina atacara de mansinho, de certo modo para 
recordar que no era uma prostituta como as outras raparigas 
colocadas  disposio dos cossacos.
 - Mata-me! - insistiu ela. - No hesites! Nunca sers um homem, 
Ivan Matveivitch! Eu no me mexo, deixa-te de rodeios, prefiro 
morrer!
 H paixSes que no podem ser dominadas. Certos amores loucos 
constituem um bom exemplo, amores que se apoderam dos seres 
apaixonados e no lhes do descanso; amores que transformam o 
mais sensato num idiota; amores que, no entanto, so saboreados 
como um filtro...
 Ivan Matveivitch era uma dessas vtimas. Milhares de homens 
como ele, sucumbindo ao poder de uma mulher-demnio, tinham 
apresentado o mesmo comportamento. No matou Marina, como  
natural: limitou-se a correr, protegendo as ndegas com as duas 
mos, at ao ptio, onde lavou no bebedouro o sangue que lhe 
escorria pelas pernas. Por sorte, Jermak ainda se encontrava em 
negcios com os Stroganov, pelo que ningum se apercebeu do 
sucedido. Mouchkov conseguiu envolver as ndegas com um pano, 
sempre entre insultos dirigidos a Marina, que ele entrecortava 
com pedidos de perdo, proferidos em voz baixa, por ousar 
invectiv-la assim.
 Na verdade Ivan Matveivitch era um cossaco totalmente 
desamparado. Tenhamos piedade deste homem to cruelmente 
apaixonado.

 Conter o entusiasmo de quinhentos e quarenta cossacos, quando 
tm  sua frente toda a imensido de um pas desconhecido e 
anseiam pela embriaguez de novas aventuras, no  tarefa fcil. 
Podemos qualificar Jermak de bandido e assumido tratante, mas no 
podemos negar-lhe o mrito de saber manter uma disciplina de 
ferro entre os seus homens, exigindo que se submetessem a uma 
vida regrada na sua "cidade cossaca", pelo menos na medida do 
possvel.
 Passados quinze dias, os Stroganov j lhes tinham fornecido 
noventa mulheres da vida. Como? Era esse o mistrio. Libertou-se 
uma ampla cavalaria, que foi dividida em compartimentos, e onde 
os cossacos puderam entregar-se quilo que, para alm das 
cavalgadas e da pilhagem, continuava a ser a sua actividade 
favorita, sobretudo quando o tdio os invadia.
 - E, durante esse Vero, o tdio foi insuportvel. Os Stroganov 
no autorizavam Jermak e o seu bando a lanar-se s cegas pela 
cadeia dos Urales; no arriscavam nada que lhes pudesse custar um 
simples copeque. O czar de Moscovo no se comprometia com 
despesas, limitava-se a esperar riquezas que deveriam vir do 
lendrio pas de Mangaseja, esse pas do ouro do czar siberiano 
Koutchoum, no reino moscovita.
 Com a conscincia dos grandes guerreiros, os Stroganov 
preparavam a expedio tendo em vista a conquista dessa 
desconhecida Sibria. Tratava-se de organizar a marcha do 
exrcito de mercenrios comandado por Jermak, de prever 
itinerrios de abastecimento, depsitos de vveres que no 
distassem uns dos outros mais do que um dia de cavalgada, a fim 
de que o exrcito, avanando atravs do pas, nunca se afastasse 
da sua retaguarda e pudesse eventualmente refugiar-se nas praas 
fortes que, antes de tudo, seria preciso criar. Fortalezas estas 
que, um dia, seriam novas cidades.

 - O solo ser nosso quando os indgenas armazenarem a primeira 
colheita dos territrios conquistados! - dizia Simeo Stroganov, 
o sbio. - No pretendemos percorrer a Sibria, queremos 
incorpor-la na grande Rssia.
 Assim, os recrutadores percorriam o pas em todos os sentidos, a 
fim de alistar combatentes. Quirguizes, lituanos, alemes - 
prisioneiros de guerra arrastados at ao pas de Perm - afluam. 
Para eles, o apelo: "Unam-se ao exrcito dos Stroganov!" no 
significava apenas o fim da escravatura mas tambm, talvez, a 
realizao dos seus mais caros desejos. Algures para l dos 
Urales, recomear uma nova existncia, ser um homem livre na sua 
prpria parcela de terra! Esquecer, sob a proteco dos poderosos 
Stroganov, as frias do grande czar Ivan!... Uma paz, uma vida 
com que se sonhava...
 E, no entanto, eclodiram conflitos. Por causa dos alemes e dos 
lituanos. No por serem hostis aos cossacos - tinham estabelecido 
com eles relaSes de boa camaradagem - ou refractrios  
equitao -, possuam outros tantos talentos guerreiros que 
completavam maravilhosamente os dos cossacos em matria de 
cavalaria. No, os atritos com os cossacos surgiram devido s 
mulheres. Poderia deixar de ser assim? Surge um cossaco, aponta 
uma rapariga, esboa um esgar e apodera-se do objecto da sua 
cobia. Os alemes e os lituanos, por outro lado, tratavam as 
prostitutas como senhoras, rodeavam-nas de belas palavras, 
acariciavam os seus corpos depravados, dando assim s raparigas o 
sentimento de no serem simples presas, mas tambm apreciadas. 
No tardou muito a saber-se: correram rumores de que os alemes 
viviam com as mulheres, enquanto os cossacos eram obrigados a 
contentar-se com migalhas.
 As querelas multiplicaram-se at ao dia em que foi encontrado um 
alemo morto na margem do Kama, com um punhal enterrado no 
baixo-ventre.
 O que aconteceu em seguida deixou sem voz o mais turbulento dos 
cossacos.
 H j vrios dias que se viam jangadas amarradas  riba, 
balanando nas guas do Kama. Tratava-se de jangadas rsticas, 
feitas de toros de madeira, grosseiramente cortados e reunidos. 
Bastaria uma grande vaga para as desconjuntar. Jermak, que 
presidira  sua construo, disse aos seus carpinteiros:
 - No pretendo navegar nestas jangadas! Destinam-se a outros 
fins.

 Compreenderam o que ele pretendera dizer quando, nas jangadas, 
foram erguidos cadafalsos munidos de grandes cordas. Mouchkov 
parecia preocupado e, quando Marina o interpelou, respondeu numa 
voz surda:
 - H anos que conheo Jermak, deve ter as suas razSes! Nunca age 
sem reflectir.
 Entretanto, Jermak mandara procurar o autor do crime. 
Descobriram-se dois culpados, que foram conduzidos  presena de 
um tribunal de cossacos, solidamente amarrados. Na manh que 
seguiu ao veredicto, Jermak mandou reunir todos os seus homens na 
margem do Kama. Camponeses, artfices e empregados de Stroganov 
acorreram em grupos e, quando Simeo Stroganov surgiu em pessoa, 
acompanhado dos sobrinhos Nikita e Mximo, todos compreenderam 
que iria ter lugar um acontecimento importante.
 Os dois assassinos foram transportados numa carroa.

 De cabeas rapadas e corpos nus, apenas cobertos com 
serapilheira grosseira, pareciam atados como embrulhos, sem se 
poderem mexer. Lanaram olhares assustados sobre os colegas e 
jangadas, que continuavam a balanar  tona da gua.
 Mximo Stroganov, que cavalgava ao lado de Jermak, debruou-se 
sobre ele. Os seus lbios tremiam. Na Rssia de ento, no se 
perdia tempo. Se algum devia perder a vida, logo havia quem lha 
tirasse. E ningum experimentava grandes emoSes, quando se 
enforcava, esquartejava, cegava, capava, arrancava a lngua ou se 
cortavam as orelhas a um condenado, ou quando este era amarrado a 
um cavalo de corrida... Simplesmente, louva-se Deus por no estar 
no lugar do delinquente! Mas perante o que se iria passar nesse 
dia, at um Stroganov estremeceria.
 - Pelo que vejo, a tua mo  singularmente dura - comentou 
Mximo Stroganov, aproximando-se de Jermak Timofeivitch. - No 
bastava enforcar os dois homens?
 - Nunca mato um amigo! - replicou Jermak, lanando um olhar 
crispado aos condenados. - Ns, cossacos, somos todos irmos e 
amigos, mas sabes to bem como eu qual o preo a pagar para impor 
o mesmo pensamento a quinhentas cabeas diferentes! No, eu nunca 
mato um amigo.
 Quando a carroa se abeirou do rio, Mouchkov e quatro cossacos 
avanaram para ela. Ajudaram os dois condenados a descer e 
depois, para grande surpresa de toda a assistncia, desataram os 
sacos de serapilheira em que se enrolavam e encheram-nos de areia 
seca retirada da margem do rio. Em seguida, os sacos bem cheios 
foram atados ao pescoo dos homens. Os quatro cossacos 
transportaram penosamente os fardos at s jangadas e 
prenderam-nas s cordas das forcas.
 - Larguem as amarras! - gritou Jermak.
 O pope Oleg comeou a cantar com a sua voz tonitruante. Voz de 
baixo que ressoava em toda a volta, pois um silncio paralisador 
oprimia os milhares de espectadores reunidos  beira do rio. 
Ouvia-se apenas um leve assobio do vento. Mas no era vento, era 
a respirao laboriosa dos homens.
 Soltaram-se as amarras e, lentamente,  deriva, as jangadas 
afastaram-se para o meio do rio, onde se detiveram, uma vez que 
entre as duas margens pesadas pedras mantinham esticadas vrias 
cordas. Mouchkov, que embarcara na primeira jangada, agarrava-se 
ao cadafalso com um sentimento de mal-estar evidente ao 
aperceber-se da gua que emergia entre as tbuas mal ajustadas da 
jangada, e lanou novamente um olhar fugaz na direco de Jermak.
 - Vamos! Mergulhem-nos! - rugia Jermak, erguendo-se firme nos 
estribos e olhando por cima da cabea dos cossacos. - So os 
primeiros criminosos! Que o seu castigo sirva de exemplo! 
Juro-vos que afundarei todo o homem que, de futuro, no respeite 
a disciplina instituda! Vamos!

 Lentamente, os sacos cheios de areia contendo os condenados 
deslizaram para o Kama, imergindo at ao pescoo. Depois de 
verificada a solidez das cordas, os homens que se encontravam nas 
jangadas instalaram-se numa barca. Mouchkov foi o ltimo a 
afastar-se, sentou-se na barca e, empalidecendo, olhou fixamente 
para as guas do rio. os dois condenados estavam calados. 
Pareciam surpreendidos, ningum os enforcava, ningum os 
decapitava, ningum lhes fazia nada... A areia impregnava-se de 
gua e transbordava dos sacos como sopa a ferver ou leite 
derramado. O peso comeou a sufocar os homens, que sentiam uma 
angustiante presso entre o pescoo e os calcanhares, 
comprimindo-lhes a caixa torcica, impedindo-os de respirar, 
esmagando-lhes as costas. Uma hora mais tarde, os dois homens 
comearam a gritar. Silenciosos, imveis, os cossacos continuavam 
amontoados na margem do rio. Jermak avanou a cavalo entre as 
filas de cavaleiros e, sempre que algum se mexia, perguntava-lhe:
- Queres ser o seguinte?
Uns atrs dos outros, os habitantes de Oriol regressavam em 
silncio a suas casas. os gritos selvagens, desesperados dos dois 
homens mergulhados no Kama perseguiam-nos, e ficaram para sempre 
gravados nas suas memrias.
Depois de Simeo e Nikita Stroganov terem partido, apenas Mximo 
permaneceu na margem do rio perguntando a si mesmo se, com a 
ajuda das suas gentes, no deveriam pr termo a semelhante 
horror.
- Esquea isto, meu bom Senhor! - sugeriu Jermak ao passar perto 
de Mximo Stroganov e duvidando do que o outro projectava fazer.- 
assim, eles no morrem...
- Mas enlouquecem - respondeu Mximo, num murmrio.
 Jermak no fez comentrios e afastou-se, a cavalo. At ao 
meio-dia, os condenados gritaram em unssono. Depois, os seus 
queixumes foram enfraquecendo, at se tornarem simples gemidos, 
quase inaudveis, pois o sussurro das guas do rio sobrepunha-se 
s suas vozes. Continuavam vivos. A areia no os esmagara, mas a 
gua fria roa-lhes os ossos e o sol crestava-lhes sem piedade os 
crnios rapados.
 A pouca distncia, afastado dos cossacos em silncio, de p  
beira do rio, estava sentado Alexandre Grigorivitch Loupin, o 
novo veterinrio dos estbulos dos Stroganov. Observava a sua 
querida filha Marina que se encontrava na primeira fila dos 
cavaleiros reunidos  beira do rio. Firme nas pernas ligeiramente 
afastadas, de bon vermelho enterrado no cabelo louro, como um 
rapazote selvagem para quem no soubesse o que a sua camisa 
cossaca encobria. A seu lado encontrava-se Mouchkov, acabrunhado, 
de rosto plido. Loupin disse para consigo: "Deve ser ele! Por 
causa daquele bandido, a minha Marinouchka fugiu-me! Grande 
animal! No foi ele que transportou os condenados para as 
jangadas e que comandou a aco dos carrascos? E ela ama-o? Que 
se passar naquele coraozinho?"
 O pap Loupin suspirou. Mas continuava  espera. No sabia se 
Marina o teria visto; de qualquer modo, o terrvel Jermak 
acabaria por ordenar o regresso  cidade cossaca e, ento, talvez 
Marina passasse junto dele.
  beira do rio, ainda ningum se mexera. S Jermak estava a 
cavalo. Aguardava que algum pedisse clemncia para os dois 
camaradas flutuando  tona do rio, mas todos os cossacos se 
mantinham calados. Um silncio opressivo. Contudo, algum falava, 
em voz baixa, de lbios quase cerrados. Era Marina. E Mouchkov, a 
seu lado, no podia ignorar o seu discurso.
 - Irei habitar algures! - dizia ela. - No posso continuar ao p 
de um carrasco! No olhes para mim, que me conspurcas!
 - Marinouchka! - gemeu Mouchkov. - Foi uma ordem! Tive de 
obedecer! No podia ser de outra maneira!
 - Podia, sim!
 - Mas no com Jermak!

 - Tambm com ele!
 - E ento eu seria o terceiro a ser enfiado no saco!
 - Se assim fosse, rebolar-me-ia com Jermak na primeira cama que 
aparecesse!
 - Marinouchka! - Mouchkov revirou os olhos, como se estivesse 
prestes a desfalecer. - Que podia eu fazer? Tratava-se de dois 
assassinos!
 - No tens um punhal?
 - E que querias que fizesse?
 - Eu, no teu lugar, quando me encontrasse a ss com eles na 
jangada, t-los-ia apunhalado atravs da serapilheira, a fim de 
lhes poupar tamanho suplcio.
 -  assim que pensas, tu? - balbuciou Mouchkov.
 - Ouviste-me perfeitamente.
 Mouchkov sobressaltou-se:
 - Chego a ter medo de ti! - murmurou ele num tom bao.
- E Marina respondeu, entre dentes:
 - Ainda bem que compreendeste, urso velho!
 Pelo calor do meio-dia, Jermak autorizou os seus homens a 
regressar  cidade. E eles partiram apressados, como ces 
acossados, em grupo ou isoladamente, tremendo Como varas verdes. 
Jermak, o pope e Mouchkov permaneceram junto ao rio, assim como 
alguns observadores enviados pelos Stroganov e que no se sentiam 
nada  vontade entre os cossacos.
 - Quando os retiramos da gua? - perguntou o pope.
 - No os retiraremos! - Jermak aplicou uma cotovelada em 
Mouchkov. - Vai a remar at junto deles e corta as cordas 
amarradas s pedras. Assim, podero descer o rio com a corrente 
e, se Deus se lembrar deles, sobrevivero.
 Mouchkov remou at  jangadas, subiu para os esquifes de madeira 
flutuante e olhou, horrorizado, para os crnios rapados dos 
supliciados. Tinham os olhos abertos e desvairados, mas das suas 
bocas no se ouvia nenhum som. Estavam vivos, mas muito prximo 
da demncia.
 Mouchkov soltou as cordas e as jangadas derivaram lentamente, 
transportadas pela corrente do rio. Os sacos e os condenados 
neles encerrados flutuavam, desapareciam sob as ondas, emergiam 
ao sabor do ritmo das guas.
 De repente Mouchkov sobressaltou-se e agarrou-se  borda da 
canoa. Um dos condenados, o cossaco Andri Petrovitch, comeara a 
rir ruidosamente, um riso dilacerante, demente. Riu at que uma 
vaga penetrou na sua boca aberta.
 - Tinha de ser! - declarou mais tarde Jermak, quando Mouchkov 
acostou, de rosto plido e tremendo dos ps  cabea. - Ivan 
Matveivitch, como dominar meio milhar de homens? E, no prximo 
ano, sero mil, estou certo disso. Portanto, quero que todos se 
lembrem do que se passou esta manh!
 Entre os ltimos cossacos a afastar-se do rio, encontrava-se 
Marina. Passou por um homem sentado  beira do caminho sem sequer 
lhe dirigir o olhar. Mas quando ele assobiou baixinho - o famoso 
assobio de Loupin outrora conhecido em todo o Novo Orpotchkov - 
voltou imediatamente a cabea. Parou, puxou o bon para trs com 
um gesto desenvolto e fingiu troar do velho,  maneira de um 
insolente jovem cossaco em busca de conflitos. Contudo, dizia em 
voz sumida, estrangulada pela emoo:
 - Assististe a tudo, paizinho?

 - A tudo, minha filha, at ao mais nfimo pormenor! Segundo me 
pareceu, escolheste um companheiro diablico!
 - Foram ordens de Jermak!
 Nesse momento, Marina cuspiu aos ps do pai. Viu-se obrigada a 
realizar este gesto insultuoso porque trs cossacos, ao passarem 
por eles, dirigiram-se a Marina:
 - O velho tem uma filha e quer vender-ta? Boris Stepanovitch, 
no te deixes enganar! Mete-lhe uma vela por debaixo das saias, 
para te certificares de que possui tudo aquilo de que necessitas!
 Os cossacos afastaram-se, rindo.
 - Ivan Matveivitch no obedeceu de boa vontade, pap - 
justificou-se Marina, alvoroada -, e nunca mais far nada de 
semelhante! Estarei atenta!
 - Tu? - Loupin fixou demoradamente a filha. - Nunca fars de um 
cossaco um homem sensvel!
 - Preciso de tempo!
 Tirou o bon e serviu-se dele para esbofetear o rosto enrugado 
do pai, sem violncia, mas com um gesto suficientemente teatral 
para dar a entender, a um eventual observador, que batera 
realmente no velho. Representao necessria, pois Jermak estava 
justamente a observ-los. De quanto tempo precisa um urso para 
aprender a danar? Ora, Mouchkov era mais obtuso do que um urso! 
Marina voltou a enfiar o bon vermelho na cabea.
 - Como vo os teus cavalos, pap?
 - Bem, bem! No est nenhum doente. - Loupin suspirou. O seu 
corao de pai estava to pesado como a m de um moinho. - Como  
possvel amar um indivduo como Mouchkov?
 - No sei explicar, pap. De repente, aconteceu.
 Marina encolheu os ombros e, como, ao realizar este gesto, a 
camisa se lhe colou ao peito, o pai Loupin apercebeu-se de que a 
filha estava a tornar-se verdadeiramente uma mulher. Os seus 
seios desenvolviam-se magnficos.
 - Quem sabe donde vm as estrelas? - perguntou Marina.
 - Foi Deus que as criou, Marinouchka.
 - E tambm se lembrou de criar o amor! Poderemos opor-nos  sua 
vontade?
 Marina prosseguiu o seu caminho, depois de simular um pontap no 
traseiro do velho. Loupin caiu para trs - era um refinado 
comediante! - e deixou-se ficar a estrebuchar.
 "Tenho uma filha bastante desembaraada ", pensou ele, muito 
orgulhoso. "Tem resposta para tudo. Mas como conseguir ela, de 
futuro, ocultar a sua identidade?"
 E Loupin sentiu um suor frio percorr-lo da cabea aos ps.

 Podemos pensar de Mouchkov o que entendermos. Mas, de homem para 
homem, convenhamos que era digno de piedade.
 A mais ampla das cavalarias fora aumentada, compreendendo agora 
numerosos compartimentos. As prostitutas que os habitavam 
ganhavam bem a vida, tal como os Stroganov, de resto, que 
recebiam uma parte da receita.
 Os cossacos tinham adquirido melhores modos. Alguns deles, 
poetas nas horas livres, celebravam o olhar ardente de Olga 
Maximovna, ou as alvas coxas de Irina Grigorivna. Da resultavam 
estribilhos variados, dos quais, porm, nem todas as palavras 
podem ser divulgadas. Em suma, reinava a satisfao entre os 
homens de Jermak: todos eles dispunham de carne fresca a seu 
belo-prazer... todos, menos um.

 De facto, Mouchkov vivia como um monge. Cobria Marina de olhares 
apaixonados, pensava na punhalada sofrida e evitava novos 
assaltos de surpresa.
 Quando Jermak e os outros se dirigiam para o bordel, quando at 
mesmo o pope, preocupado com a sorte das suas almas, se 
consagrava s recm-chegadas - os Stroganov zelavam pela 
renovao dos efectivos -, Mouchkov deambulava, inactivo, 
maldizendo o dia em que passara por Novo Orpotchkov. Por vezes, 
sentia necessidade de exteriorizar e gritava, grosseiro:
 - Sou um homem!
 Numa noite em que Jermak e o pope, de brao dado e bastante 
avinhados, saram ao encontro das prostitutas, Mouchkov no se 
conteve e perguntou a Marina:
 - E tu, minha flor, sabes o que  um homem?
 - J que dizes que s um homem, deve ser algum parecido 
contigo! - replicou Marina. Estas respostas desarmavam Mouchkov, 
que necessitava sempre de um certo tempo de reflexo antes de ser 
capaz de admirar a presena de esprito de Marina. 
 Desta vez tambm reflectiu mas, sujeito s suas prprias 
sensaSes, rugiu:
 - Vou rebentar!
 - Gostaria de ver, Ivan Matveivitch!
 - Nem acreditarias no que visses, se eu despisse as calas!
 Marina sorriu suavemente, pegou no punhal curvo pendurado  
cinta e pousou-o sobre as coxas bem apertadas:
 - Tem cuidado, Ivan Matveivitch, os ramos mais fortes tambm se 
podam!
 - Serias capaz? - gaguejou ele, recuando.
 - Sem hesitar.
 - Desgraado de mim! - gritou Mouchkov, rangendo os dentes.
- Quanto tempo durar ainda mais esta brincadeira? Amo-te, 
ouviste? Amo-te, Marinouchka, a ponto de ter vontade de te 
despedaar! Se soubesses o que  um homem, no me atormentarias 
assim. - Deu um passo em frente, mas manteve-se a uma distncia 
prudente de Marina. - Sabes perfeitamente que tambm me amas!
 -  verdade! - concordou ela.
 Era a primeira vez que o confessava to abertamente.
 Mouchkov sobressaltou-se, passou a mo pela cabeleira hirsuta e 
suspirou:
 - Tu... tu concordaste - balbuciou ele. -  mesmo verdade que me 
amas?
 - E por que razo teria continuado junto de ti?
 - E como ser o nosso futuro? Mesmo amando-nos iremos passar a 
vida a olhar um para o outro, como num sonho? Marinouchka, uma 
mulher consegue resistir assim tanto? As mulheres no so 
diferentes de ns?
 - No h nenhuma diferena, Ivan Matveivitch!
 - Ento vem! - exclamou ele, abrindo os braos.
 Mas o punhal j familiar para Mouchkov brilhou imediatamente nas 
mos de Marina, impedindo-o de avanar um passo que fosse.
 - Tu ainda s um cossaco! - declarou ela, marcando as palavras.
 - E nunca serei outra coisa! - gritou ele.
 - Nesse caso, no haver nada entre ns, ursinho - concluiu 
Marina tranquilamente.

 Mouchkov afastou-se, jurando que levaria para o quarto cinco 
mulheres ao mesmo tempo. Mas, quando se viu ao relento, sentou-se 
num cepo de madeira, estendeu as pernas e bateu com os 
calcanhares no cho. No servia de muito, mas sempre transmitia 
parte do seu desespero  terra lavrada.

Captulo 5

 Os anos passam com uma rapidez incrvel. Mal chega o Vero e nos 
deitamos nos verdes prados, logo um vento gelado soprando do 
norte varre todo o bem-estar estival.
Choveu durante uma semana, os campos estavam saturados de 
humidade, os caminhos tornaram-se impraticveis e o cu parecia 
to baixo que quase se podia tocar com a mo... E depois veio a 
neve, e o gelo. O Kama solidificou-se. Os habitantes de Oriol 
fendiam o gelo com o auxlio de um machado, para poderem pescar. 
Um pro fundo silncio desceu sobre os campos. Os caadores 
entrelaados, ou em trens puxados por renas pPerseguiam linces, 
arminhos, zibelinas, visSes e raposas brancas. A riqueza da 
floresta transportava-se para casa dos Stroganov.
 Os cossacos entediavam-se. Teriam vindo para o pas de Perm para 
cochilar e galhofar com mulheres, de vez em quando? Os Stroganov 
no tinham prometido um rico esplio, do qual se apoderariam num 
pas chamado Mangaseja? Tinham sonhado com conquistas ou, ainda, 
como declararam ao czar, com cruzadas contra o pago Koutchoum 
para l da barreira rochosa dos Urales.
 Tinham sonhado com ouro e pedras preciosas e, afinal, que lhes 
restava? Tarefas de morrer de tdio, alguns jogos equestres para 
evitar a "ferrugem", rixas com os homens de Oriol, sempre por 
pequenos nadas entre os quais figuravam as mulheres e, alm 
disso, os "exerccios" institudos por Jermak, uma novidade a que 
os cossacos se submetiam com ilimitado espanto.
 Comearam pela reorganizao das tropas. O exrcito particular 
dos Stroganov contava presentemente com oitocentos e quarenta 
homens que Jermak dividiu em pelotSes de cavalaria, todos eles 
comandados por capites. Seguiam-se os grupos de cinquenta e cem 
homens. A velha ordem cossaca de tempos hericos, durante muito 
tempo esquecida, renascia. O chefe de todos os comandantes era 
Jermak e o seu adjunto, Ivan Mouchkov. Neste aspecto, nada 
mudara.
 O que era novo, era a nomeao de um adjunto encarregado de 
transmitir as ordens de Jermak aos chefes das formaSes de 
cavalaria. Gratificado com o melhor e mais rpido cavalo do 
exrcito, o adjunto, em pleno combate, devia assegurar a ligao 
entre o comandante supremo e os pelotSes de cavaleiros, e 
vice-versa. Para este cargo importante Jermak escolheu o jovem 
Boris Stepanovitch. E, quando Jermak abraou o companheiro Boris 
para o felicitar pela promoo que lhe concedera, Mouchkov teve 
de fazer um esforo para no gritar.
 Marina j completara dezasseis anos e no podia ser mais 
feminina. De seios redondos e firmes, de coxas bem torneadas, as 
elegantes pernas calando as grandes botas cossacas como hastes 
de roseiras mergulhadas numa jarra... era o que Mouchkov pensava, 
tornando-se poeta ao contemplar Marina.

 O seu rosto perdera a harmonia da infncia, mas assumia agora 
uma beleza singular. Os olhos de Marina continuavam alegres e 
azuis, mas o contorno da boca afirmara-se, realando as mas do 
rosto quando sorria. Nestes momentos os dentes brilhavam-lhe, a 
lngua passava pelos lbios com uma rapidez serpentina e Mouchkov 
recomeava a sonhar. "Ah! Santo Andr", pensava ele, "o meu 
corao deixar de bater quando um dia a tiver finalmente nos 
meus braos!"
 E, entretanto, Jermak abraava Marina e Mouchkov assistia a este 
espectculo com uma sensao de terror que lhe gelava as 
entranhas. "Se for um tudo-nada perspicaz, aperceber-se- de que 
Boris  uma rapariga! No poder deixar de sentir a presso dos 
seios! Qual o homem que no reage a estes contactos? E Jermak  
um macho famoso!"
 Mas nada aconteceu. Jermak afastou-se de Boris Stepanovitch e, 
em seguida, os chefes de pelotSes e de formaSes de cavalaria 
avanaram em grupo para cumprimentar o jovem eleito. Que sucesso! 
Passara-se apenas um ano depois da captura de Marina e j fora 
nomeada para o posto de agente de ligao, graas aos seus dons 
sequestres.
 - Reparaste que estiveste prximo da morte? - perguntou 
Mouchkov, com a voz embargada pelo susto quando, por fim, se 
encontrou a ss com Marina. - Se Jermak descobrisse que s uma 
rapariga...
 - Que terias feito ento, Ivan Matveivitch? - perguntou ela, de 
mos na anca e bon s trs pancadas sobre o cabelo louro, agora 
um pouco mais comprido, o que lhe conferia ao rosto a suavidade 
que tanto assustava Mouchkov.
 - Nada! Que poderia eu fazer?
 - Matar Jermak, por exemplo! - respondeu ela, esboando um 
sorriso suave. - Terei de ser eu a ensinar-te tudo?
 - Ests louca! - gaguejou Mouchkov. - Marinouchka, ests louca! 
Seria absolutamente impossvel.
 - Quando se ama, a palavra impossvel no existe.
 - Morrerias, ento, por mim se me acontecesse alguma coisa? - 
perguntou Mouchkov, respirando ruidosamente. 
 - Sempre, fosse qual fosse o caso, Ivan Matveivitch! Sempre! 
Quem te matar, ser morto por mim.
 - Amas-me assim tanto?
 - Sabe-lo bem.
 - No, no sei! - gritou Mouchkov, arrepelando os cabelos. - Nem 
sequer te posso abraar!
 - Quem sabe... - murmurou Marina, voltando-se.
 Lanou a cabea para trs num movimento provocante e afastou-se, 
requebrando-se, o que fez subir o sangue  cabea de Mouchkov... 
e a outra parte do corpo tambm.
 - Aos poucos, ests a tornar-te um ser humano! - declarou Marina 
por cima do ombro. - Pensa bem e descobre uma maneira de 
ocultarmos o nosso amor! No podes dormir na mesma cama que o 
adjunto de Jermak, que te poria imediatamente a flutuar no rio, 
enfiado num saco de areia!
 Emudecido, e boca aberta como uma r gigante, Mouchkov viu-a 
afastar-se.


 Veio a Primavera, a do ano de 1581. As rvores floriram mas, nos 
campos, a gua proveniente do degelo ainda estagnava, pois sob a 
camada superficial de terra amolecida, o gelo continuava a 
resistir nas profundezas do solo. Os habitantes de Oriol voltavam 
a pescar no Kama e os Stroganov faziam o balano de um frutuoso 
Inverno...
 Mas era tudo no que se refere a actividades.
 Nada de novo quanto ao pas das maravilhas, Mangaseja. Nem o 
mais leve rumor quanto a uma expedio militar em preparao, 
nada que dissesse respeito s riquezas prometidas aos cossacos. 
Presentemente, o exrcito contava com mil homens, e encontrava-se 
preparado para combater; mantinha uma disciplina de ferro, um bom 
treino depois de Jermak ter sido obrigado, por quatro vezes, a 
suspender criminosos  tona das guas ou, num caso particular - 
tratava-se de um cossaco que assassinara um camarada -, a 
enterrar vivo o culpado. O mais terrvel  que Marina, como 
adjunto e porta-voz de Jermak, era obrigada a ler a sentena de 
morte em nome dele. Uma vez cumprido este dever, Marina 
gratificava sempre o inocente Mouchkov com algumas bofetadas 
mestras, fungando ruidosamente. Mouchkov sofria estes maus tratos 
em silncio, sabendo que ela se aliviava assim do seu desgosto, 
do seu horror. Alm dele, quem poderia Marina espancar? Ele era 
dela e partilhava a sua desolao.
 Em seguida, Marina correu ao Kremlin dos Stroganov, em busca do 
pai. Contudo, o sensato Loupin, esse pai nico no gnero, 
pegou-lhe pelo brao e arrastou-o at  capela dos Stroganov, 
onde acendeu uma vela benta, rezando ao pope para que perdoasse 
os pecados a este jovem cossaco e o abenoasse.
 - Isto no pode continuar assim - anunciou Jermak, num dia do 
ms de Maio, a Mximo e Nikita Stroganov. 
 O tio Simeo, o ltimo da sua gerao que ainda podia olhar de 
frente para o czar Ivan, o Terrvel, enquanto os mais jovens se 
prostravam diante dele de rosto no cho, retirara-se para um 
mosteiro, onde definhava. Era, de resto, uma tradio dos 
Stroganov. No fim dos seus dias - e eles sabiam exactamente 
quando chegava a sua hora - abandonavam as suas imensas riquezas 
e iam viver para uma cela de um convento, a fim de se 
encontrarem, nesta humilde condio, mais prximos de Deus quando 
este os chamasse. Assim se comportara tambm Anika Stroganov, o 
grande sagre que, de uma simples famlia de mercadores, fizera 
uma grande potncia russa: sentindo aproximar-se a morte, 
instalou-se no mosteiro de Sohtchegodsk e optou pelo nome de 
irmo Jos.
 - E no continuar, Jermak Timofeivitch - respondeu Nikita 
Stroganov, que era o chefe militar da famlia. Mximo ocupava-se 
essencialmente dos assuntos comerciais e da gesto do patrimnio. 
- Tu tens razo, mas pensa no seguinte: conquistar a Sibria e 
aniquilar o exrcito de Koutchoum  uma empresa perante a qual o 
prprio czar recua.
 - O czar  um velho palrador! - exclamou Jermak com altivez. - 
Ele que se ocupe do bordel e nos confie os destinos da Sibria!
 - Mas ser a fora do nosso exrcito...
Jermak interrompeu Nikita:
 - Um homem destemido vale mais do que cem indecisos! Somos um 
milhar de combatentes: Koutchoum dispSe de cem mil guerreiros?
 - Vamos examinar a situao.
 Nikita Stroganov dirigiu-se para uma grande mesa sobre a qual se 
encontrava desdobrado um gigantesco pergaminho representando um 
mapa geogrfico do pas de Perm, com rios, colinas, montanhas, 
lagos, cidades e aldeias, praas fortes, caminhos e pntanos. 

 - Temos algumas preocupaSes, Jermak - disse Mximo Stroganov, 
que at ento se mantivera calado. 
 - PreocupaSes? Com mil cossacos dispostos a combater?
 - Aqui - Nikita apontou com o indicador para uma das regiSes do 
enorme mapa -, aqui encontram-se os rios Sylva e Tchousovaia. Nas 
margens situam-se boas aldeias, um solo frtil que outrora 
desbravmos, belas peles de animais. H quatro dias que nove 
aglomerados se encontram em chamas! Moursa Begouly atacou-os com 
setecentos Vogulos e Ostacos, e pilhou-os antes de os incendiar.
 - Quem  esse Moursa Begouly? - perguntou tranquilamente Jermak 
contemplando o mapa.
 -  um prncipe que at agora pagava tributo e permanecia calmo. 
De repente, revoltou-se, j no reconhece o czar e invadiu o 
pas.
 - Seja bem-vindo! - exclamou Jermak, sorrindo. Nikita Stroganov, 
os cossacos provaro o que entendem por vitria!
 - Conto com essa predio - respondeu Nikita Stroganov, cruzando 
as mos sobre o mapa de tal maneira que a ponta dos dedos 
assentou nos Urales. - Se venceres, Jermak, o caminho para a 
Sibria ficar livre!

 O dia 22 de Julho nasceu claro e luminoso. O pas brilhava, como 
que polido, mas o solo encontrava-se seco e o p elevava-se do 
cho quando os cavalos percorriam os campos. Que dizer, ento, da 
nuvem de poeira provocada por mil cossacos galopando nos seus 
pequenos e velozes cavalos no rasto dos lanceiros, de estandarte 
ao vento, e dos tocadores de trombeta! Dir-se-ia que a terra 
estava prestes a explodir. Qualquer corao pararia de pulsar  
vista de tanto poderio selvagem.
 Numa estepe perto do Sylva, encontraram-se pela primeira vez os 
pequenos ostacos e os Vogulos de olhos amendoados, contra os 
cossacos de Jermak, que no cabiam em si de alegria perante a 
iminncia do combate!
 Encontravam-se frente a frente. Dois pequenos exrcitos. Nenhum 
deles tinha outra soluo seno o aniquilamento do adversrio.

 Moursa Begouly, que, como Jermak, se encontrava  frente das 
suas tropas, protegeu os olhos com a mo a fim de ver melhor 
contra a reverberao do sol. Ignorava o que seria um cossaco. 
Pensava defrontar nova mente camponeses, angustiados e ansiosos 
por se defender, servos de Stroganov como aqueles, muito 
numerosos, a quem j tinham esfacelado o crnio.
 - Derrot-los-emos! - gritou Moursa Begouly. - Em frente!
 Nesse mesmo instante, Jermak gritava tambm, de sobrolho 
carregado:
 - Ao ataque! Carregar! Corneteiros, dem o sinal!
 - Endireitou-se nos estribos e ergueu o punho para o cu 
escaldante.- Boris Stepanovitch, a terceira e a quarta centrias! 
Formao em leque! Para a frente, cossacos!

 Um rudo ensurdecedor veio encobrir o dia luminoso, tendo-lhe 
respondido um clamor ostaco e vogulo impressionante. Marina 
obrigou o cavalo a dar meia volta e, nesse instante, apercebeu-se 
de que Mouchkov perdia o controlo dos seus nervos. O medo que 
sentia por Marina parecia priv-lo de tudo o que a vida de 
cossaco lhe ensinara. Em vez de permanecer ao lado de Jermak, que 
galopava na dianteira, manteve-se no flanco da carga de cavalaria 
a fim de proteger Marina.
  sua volta gritava-se ao ataque, esvoaavam crinas, acometiam 
cossacos de lanas espetadas, galopavam de p nos estribos os 
portadores de armas de fogo, carregando contra os asiticos de 
Begouly.
 Ainda antes das ordens transmitidas por Marina, desdobrou-se o 
famoso leque cossaco. As formaSes dispersaram a galope e 
escalonaram-se, demnios furiosos ao ataque do adversrio. Os 
cascos dos cavalos ressoavam no solo poeirento como um clamor de 
tempestade, as trombetas soltavam apelos estridentes, as lminas 
dos sabres e as pontas das lanas brilhavam ao sol.
 - Marina! - rugiu Mouchkov, do fundo do corao, pondo de lado 
toda a prudncia. - Pra!
 - Ivan! - gritou ela como resposta -, fica comigo!
 Mas, em seguida, foram arrastados, arrebatados pelo galope dos 
seus cavalos, ultrapassando os outros cavaleiros. Subitamente, 
contra a sua vontade, encontraram-se de novo  frente dos 
cossacos. De facto, alm de Jermak, eram eles que montavam os 
melhores cavalos.
 Lanados contra eles, envolvidos numa nuvem de p amarelo, 
guinchavam, como um bando de macacos, ostacos e vogulo.
 - No podes morrer! - gritou Marina. - Ivan, amo-te!
 Depois aconteceu algo que, na confuso geral, no foi visto por 
ningum, tanto mais que a poeira encobria tudo e que todos 
olhavam em frente, vidos de ver o homem que pretendiam matar... 
Mouchkov desequilibrou-se devido a um choque violento, rebolou 
pelo cho e ficou estendido, imvel, tapando a cabea com os 
braos,  espera de que cem pares de cascos o pisassem at  
morte. Mas sobreviveu e, apesar de rudemente massacrado, cedo 
viu-se simplesmente envolto numa camada de p. Ouviu com nitidez 
os dois exrcitos que se defrontavam a pouca distncia e os 
primeiros gritos de morte que trespassavam a nuvem de p.
 Sentou-se no cho, viu que o seu cavalo se encontrava perto e, 
mesmo ao lado, o cavalo de Marina, enquanto esta, de p, assente 
nas pernas afastadas com firmeza e de pistola em punho, com o 
bon vermelho descado para trs, fixava insistentemente os 
combatentes.
 Mouchkov ergueu-se com dificuldade e aproximou-se de Marina, 
coxeando:
 - Ca do cavalo - disse ele, cuspindo para o cho. - Pela 
primeira vez na minha vida, ca do cavalo durante um ataque do 
inimigo! No compreendo...
 - Talvez te tenham empurrado! - sugeriu Marina, tranquilamente.
 Um vogulo isolado, que conseguira transpor a formao em leque 
dos cossacos, avanava para eles, gritando.
 Marina ergueu a pistola, visou e disparou sobre o homenzinho de 
raa amarela. Mouchkov arrancou-lhe a arma e fixou Marina, 
desconcertado.
 - Falaste em empurrar? - perguntou ele.
 - Sim, fui eu que te deitei abaixo do cavalo! Preciso de ti 
vivo, e ests vivo! Amo um homem e no uma cruz espetada num 
monte de terra. Ivan Matveivitch, sinto-me to feliz por ter 
conseguido...
 Marina ps-se em bicos de ps e deu-lhe um beijo.

 - Sinto-me to confuso! - declarou Mouchkov em voz surda. - Por 
todos os santos, j no sou um cossaco. 
 O pequeno exrcito de Moursa Begouly, os velozes ostacos e 
vogulos de olhos amendoados, foram batidos at  derrota total. 
Os cossacos de Jermak limparam o terreno como se se tratasse de 
destruir um viveiro de ratos. A galope, abriam fogo sobre a massa 
dos cavaleiros inimigos e depois baixavam as lanas ou brandiam 
os iatags, gritando vitoriosamente perante o prazer demonaco de 
matar.
 Durante mais de um ano, os cossacos tinham esfriado, pois como 
nica distraco apenas tinham exerccios militares to 
fastidiosos que acabaram por abominar os ataques simulados contra 
recipientes de madeira enterrados no cho ou fantoches feitos de 
palha. Agora, munidos de sabres curvos, investiam contra homens 
de raa amarela projectando-os para longe das selas como 
camponeses que revolvem o feno. Abriam-lhes as cabeas, 
esmagavam-lhes os ombros, empalavam-nos entre gritos: Ho+! Ho+! 
Os homens de Moursa Begouly nunca tinham enfrentado semelhantes 
assaltos. A resistncia dos colonos que atacavam parecia-lhes 
natural. As violentas lutas contra as tropas dos Stroganov que os 
defendiam nas suas praas fortes eram combates leais. Mas o que 
agora se passava, quem atacava a galope, gritando e rindo, 
inebriados de uma raiva inextinguvel, no pareciam seres 
humanos, e deviam vir de outro mundo! Neste caso, restava apenas 
uma soluo: a retirada, a fuga!
 O exrcito dos cavaleiros de Moursa Begouly foi aniquilado. Para 
todos os lados fugiam homens montados em pequenos cavalos, 
fazendo-se ainda mais pequenos nas suas selas, embora se tornasse 
perfeitamente intil qualquer artimanha. Os cossacos perseguiam 
os fugitivos um a um, como galinholas, enchendo os gnomos 
cavaleiros de estocadas, at carem por terra.
 Mouchkov e Marina tambm se encontravam nos respectivos cavalos 
e deviam abrir fogo ou atacar com os sabres os cavaleiros que 
fugiam em debandada para a estepe, acometidos de verdadeiro 
pnico. Mouchkov protegia Marina com o corpo e esta aproveitava 
para recarregar a arma, disparando em seguida por cima do ombro 
do companheiro.
 No se perdia nenhum tiro. Mas os disparos dos mosquetes dos 
cavaleiros, passando pelos ouvidos, provocam detonaSes s quais 
nenhum tmpano resiste. Aps quatro tiros, Mouchkov j no ouvia 
o barulho provocado pelos combates. O aniquilamento 
desenrolava-se  sua frente como um sonho silencioso e mesmo 
quando Marina lhe gritou aos ouvidos, aproveitando uma pausa: 
"Amo-te, meu velho!", reteve apenas a palavra "velho", 
perguntando a si mesmo em que  que teria errado mais uma vez.
 Jermak abeirou-se deles quando se encontravam rodeados de 
feridos gemebundos e de alguns mortos. Contornou o massacre e 
interpelou o adjunto e o ajudante.
 - As tropas esto sem comandante! - gritou ele. - Que fazem 
aqui?
 Mouchkov, mais uma vez, no ouviu nada. Olhava o chefe, 
sorrindo, julgando que Jermak o felicitava.
 Marina, pelo contrrio, replicou to alto quanto possvel:
- No nos escondemos borrados de medo, batemo-nos tal como tu! - 
Apontou para os mortos e feridos.
 - Pensas que se estenderam no cho de livre vontade? 
 - O meu adjunto deve permanecer ao p de mim! Qu?

 - Os cavaleiros no formaram em leque - perguntou Marina.
 - Dei outras ordens. Quem  que no estava presente para as 
transmitir? Boris Stepanovitch! - Jermak avanou para ela, 
perguntando com os seus olhos frios e impiedosos: - Tambm queres 
ser suspenso no rio, rapaz?
 - Empurraram Ivan, que se desequilibrou - esclareceu ela, 
calmamente. - Ajudei-o a levantar-se e, quando montmos de novo, 
apercebi-me de que os outros j iam longe. Devia ter permitido 
que ele fosse pisado?  assim que demonstras a tua amizade, 
Jermak Timofeivitch? .
 Este fitava-a, desconcertado. Desde que comandava os cossacos, 
nunca ningum ousara falar-lhe neste tom. S a sua palavra 
contava, no admitia ser contrariado.
 Os cossacos nunca tinham tido nenhum rei, mas Jermak reinava 
como um dspota.
 - Manda tocar a reunir! - ordenou Jermak com dureza. - Os homens 
de Moursa Begouly ainda vivos que desapaream, e propaguem a 
notcia de que se iniciou uma nova poca, que ns mesmos 
introduziremos. No  verdade, Boris Stepanovitch?
 - Talvez - respondeu Marina, cuja desenvoltura impertinente 
surpreendeu Jermak ainda mais. - Mas essa poca nova precisa no 
s de homens fortes como tambm de bom senso!
 Dito isto, Marina deu meia volta e partiu a galope. Jermak 
seguiu-a com o olhar e, depois, assentou uma palmada no ombro do 
sorridente Mouchkov.
 - Este tipo est a tornar-se insolente - observou Jermak. -  
preciso vigi-lo, Ivan Matveivitch!
 - No ouo nada, irmo - respondeu Mouchkov, desculpando-se com 
um sorriso.
 Aos seus ouvidos chegava apenas um zumbido confuso, como se 
tivesse a cabea mergulhada no mar Negro. Jermak endereava-lhe 
certamente palavras amigas, pois a palmada no ombro exprimia uma 
franca amizade - conhecia o gesto.
 - No te rias de maneira to estpida! - gritou Jermak. - Como  
que pudeste cair do cavalo?
 - Sim, sim - respondeu Mouchkov que, continuando sem ouvir nada, 
no parava de sorrir.
 - Endoideceste? - gritou Jermak.
 - No ouo absolutamente nada - respondeu Mouchkov, gritando 
tambm. Jermak vacilou ao ouvir a sua voz tonitruante, mas 
podero os surdos controlar a voz? - Boris disparava mesmo junto 
do meu ouvido! Como poderia resistir?
 Recusando-se a tratar Mouchkov como deficiente, Jermak deu meia 
volta, sempre montado no seu cavalo, e partiu em busca de Marina, 
que transmitia aos corneteiros as ordens dadas pelo seu superior.
 Acercou-se dela no auge de um combate entre cinquenta cossacos a 
cavalo, atacando em todas as direcSes, e um grupo de vogulo em 
fuga. Marina apoderava-se, nesse preciso momento, do estandarte 
de um porta-bandeiras que, ferido por uma flecha, vacilava na 
sela.
 - No tens medo, rapaz? - gritou-lhe Jermak. - E sentes prazer 
em matar, sem dvida?
 - Matar  um acto terrvel, Jermak Timofeivitch! - respondeu 
Marina, espetando o pau da auriflama no estribo. Parecia Joana 
d'Arc, mas quem conhecia a virgem de Domrmy na longnqua e 
ignorante Rssia? - Procedo deste modo para me proteger, tal como 
Mouchkov. Mas detesto os combates!

 - Lutamos pela cristandade! - observou Jermak taciturno.
 - Bem sei.
 Marina riu-lhe na cara e, de repente, Jermak pensou:
 "Bem podia tratar-se de uma rapariga! Este Boris Stepanovitch  
demasiado bonito para ser rapaz... no me surpreende que, ao 
v-lo, haja quem tenha pensamentos estranhos..." Nas faces de 
Boris desenhavam-se duas covinhas: no h cossaco que no minta 
descaradamente... E, ento, Jermak tambm se riu, exclamando: 
"Ho+ Ho+", e partiu a galope em direco a um grupo de cavaleiros 
que por sua vez perseguiam alguns ostacos. A vitria foi 
esmagadora, os Stroganov mostraram-se muito contentes. Como 
recompensa, pagaram a Jermak cinco mil rublos em ouro, uma 
fortuna fabulosa no ano da graa de 1581.

 Nikita e Mximo puderam aperceber-se de que a prova tinha sido 
positiva. O poder combativo do seu pequeno exrcito era evidente. 
Bem treinado, poderia arriscar-se a transpor os Urales, 
penetrando no lendrio pas de Mangaseja. A Sibria estava 
amadurecida para a conquista.
 Tudo o que se sabia desse pas imenso - segundo os relatos dos 
caadores de peles e dos monges peregrinos, que conservavam as 
memrias de Santo Estefnio, o primeiro religioso a ter 
percorrido sozinho essas paragens desconhecidas - foi novamente 
compilado. Desenharam-se mapas de acordo com essas escassas 
informaSes, conhecia-se a existncia dos grandes rios Tobol e 
Irtych, do calmo Toura e do pedregoso Toungouska. No se 
ignoravam as florestas incomensurveis, os pntanos, as riquezas 
ilimitadas em castores, zibelinas e raposas. Ali, a riqueza 
rasava simplesmente o solo e ningum se preocupava!
 Conquistar o pas para a cristandade... era esse o pretexto 
oficial. Na realidade, tratava-se de obter uma riqueza imensa, 
destinada ao czar de Moscovo, aos Stroganov, a Jermak e ao seu 
bando de selvagens... tarefa que jamais se apresentara a um 
homem.
 At mesmo o velho e sbio Simeo Stroganov abandonou o retiro no 
mosteiro Solvytchegodsk partindo rumo s margens do Kama, tanta 
importncia atribua ao momento histrico: a realizao do grande 
projecto!
Aquilo que o czar Ivan concedera aos Stroganov pelo decreto de 
1574: autorizao para agir livremente, dava enfim frutos. Os 
Stroganov seriam os homens mais ricos do mundo se a expedio de 
Jermak  Sibria fosse um sucesso.
 Numa bela noite, saiu do Kremlin dos Stroganov um mensageiro a 
fim de ir convidar Jermak, da parte dos senhores do pas.
 - Venham comigo! - ordenou Jermak a Mouchkov e Marina. - E 
coloquem-me cem homens de sentinela  frente do Kremlin: que 
ningum apanhe Jermak distrado!
 Na sala de audincias da residncia dos Stroganov estava posta a 
mesa gigantesca. Havia vinho de Frana, um porco assado inteiro, 
aves, pratos de legumes e fruta. Lindas raparigas, elegantes e 
louras, da Livnia, serviam  mesa, substituindo os pagens, e um 
pequeno grupo de msicos, tocadores de flauta e cmbalo, e de 
viola, encontrava-se por detrs de um grande reposteiro de seda 
da China, acompanhando a refeio com as suas melodias.

 Jermak estava alerta como um pssaro preso numa gaiola dourada. 
Sempre atento, pesava bem todas as palavras e preparava-se para 
uma grande revelao, pois o convite s assim teria sentido. 
Conhecia suficientemente os Stroganov. E a presena do velho 
Simeo provava, claramente, s por si, que nesse mesmo dia iria 
ser tomada uma grande deciso.
 Mximo, o comerciante, encarregou-se de entrar no assunto depois 
de, por vrias vezes, ter sido servido vinho em taas de prata 
vindas de Frana. Nikita, por seu lado, desdobrara alguns mapas 
em cima de uma mesa, cobrindo-os em seguida com uma tapearia dos 
Gobelins. Simeo, a velha raposa, vestia hbito de monge e 
sentava-se  mesa dos gapes, parecendo ausente deste mundo, 
embora fosse ele, na realidade, o esprito superior que tudo 
decidia e dirigia. Elaborara a lista das diversas missSes a 
realizar, estava tudo escrito, faltavam apenas as assinaturas dos 
"encarregados de misso". Todas as acSes dos Stroganov eram 
regidas por contratos em regra.
 - Jermak Timofeivitch - comeou Mximo Stroganov -, hoje  um 
grande dia!
 - J comi carne de porco muitas vezes! - replicou
 Jermak prontamente.
 - Um dia, poders comer como um boiardo!
 - Um boiardo no  nada! - observou Jermak, orgulhoso. - Se se 
tratasse de proclamar que algum iria viver como Jermak, ento 
sim, teria o cu a seus ps!
 - Exactamente! - apoiou Mouchkov numa voz sonora, atirando um 
osso para trs das costas.
 Marina, por debaixo da mesa, aplicou-lhe um pontap nas canelas. 
Ele esboou um esgar, olhou-a de relance e compreendeu de 
imediato que a sua atitude  mesa de um senhor poderoso deixava 
muito a desejar.
 - Quando partimos para a Sibria? - perguntou Marina na sua voz 
clara de adolescente.
 Mximo Stroganov dirigiu-lhe um sorriso, meneando discretamente 
a cabea:
 - Logo que os armamentos sejam distribudos.
 - Est tudo pronto, Jermak Timofeivitch! As ltimas semanas 
foram consagradas  compra das melhores armas provenientes da 
provncia da Livnia.
 - Os alemes, os livnios, os suecos sabem combater - reconheceu 
Jermak. - Eu prprio, na juventude, fui carregador de navios 
atracados no cais, vivendo com os marinheiros nos rios das 
provncias do Norte. Nesse tempo, no reinava a segurana nas 
margens do Volga.
 "Nesse tempo, eras perseguido pelos soldados do czar", pensou 
Simeo Stroganov, sorrindo abertamente.
 "No foi na poca das campanhas cossacas contra os Nogais? A 
capital do Cnogai chamava-se Saraitchik e foi pilhada por vs: 
saquearam as mesquitas, assaltaram lojas e violaram raparigas, 
chegaram mesmo a desenterrar os mortos para lhes arrancar as 
jias... nesse tempo, as pessoas beijavam-se quando matavam um 
cossaco... um demnio a menos neste mundo - dizia-se - e vens tu 
falar-nos de descarregamentos na Livnia, Jermak Timofeivitch! 
Conhecemos muito bem a tua histria!"
 - Nikita encarregar-se- de vos explicar o nosso plano! - 
declarou o velho Simeo numa voz matraqueada. - Agora vamos 
discutir a remunerao que receber cada um dos homens que parta 
para a Sibria.

 - Uma parte justa retirada do esplio no seu conjunto! - 
declarou imediatamente Jermak, pousando os dois punhos na mesa. E 
Mouchkov acrescentou, num tom de voz claro:
 - As promessas no contam! Queremos um contrato em regra, no  
verdade, Boris Stepanovitch?
 Marina no dizia nada. Preferia calar-se, j que era o conviva 
mais jovem. Jermak observava-a pelo canto do olho.
 - Os contratos j esto feitos... - Simeo, no seu hbito de 
monge, apontava para uma sacola de couro bem recheada, de fechos 
dourados, ostentando as armas dos Stroganov. - Em primeiro lugar, 
os equipamentos. Vou enumer-los...
 Pegou num rolo de pergaminho que Mximo lhe estendeu, 
aproximou-o muito dos olhos e comeou a ler: 
 - Para todo o exrcito, trs canhSes do modelo mais recente, 
fabricados por fundidores alemes. As melhores espingardas. Para 
cada homem, trs libras de plvora e chumbo em quantidade 
suficiente. E ainda cem libras de farinha de centeio, trinta 
libras de biscoitos, sal, sessenta libras de fermento, cem libras 
de tolokono...
 Simeo calou-se e olhou Jermak por cima do pergaminho. O 
tolokono, para qualquer soldado dos Urales e do Adritico, era um 
alimento to precioso quanto extico - aveia-torrada ou moda com 
a qual confeccionavam bolos e as mais saborosas iguarias. Com 
tolokono no alforge, os Russos tinham conquistado o seu 
gigantesco imprio. A Sibria no constituiria uma excepo  
regra.
 -  pouco - declarou Jermak aps uns momentos de reflexo.
 - Muito pouco! - reforou Mouchkov.
 - Um cossaco devora como trs bois - concluiu Marina.
 A observao no foi particularmente lisonjeira, e Jermak 
perguntou a si mesmo se no seria prefervel expulsar aquele 
malandro da roda dos convivas por meio de uma valente surra. 
Mouchkov empalideceu e ps-se a observar fixamente o tecto de 
vigas pintadas. "Minha Nossa Senhora, Santo Estefnio, a vida de 
Marina est em perigo!", pensava ele, aterrorizado.
 - Ainda no acabei - retomou Simeo Stroganov, debruando-se 
novamente sobre a lista. - Cada homem ter ainda direito a uma 
poro de manteiga e a metade de um porco.
 - Joha+! - exclamou Mouchkov. - Assim est berxi!
 - E quanto aos cavalos? - perguntou Jermak.
 Os Stroganov olharam uns para os outros. Nikita, o estratego, 
levantou-se e soergueu a tapearia dos Gobelins, mostrando, 
assim, o estendal de mapas:
 - Construmos os melhores barcos fluviais que imaginar se possa 
- respondeu.- Recolhemos todas as informaSes, o que nos permitiu 
criar novos navios, grandes mas leves, capazes de transportar 
muitos homens e material, mas que so eles prprios 
transportveis sem grandes dificuldades.
 - Barcos? - Jermak ergueu-se lentamente, apoiando-se nos pulsos. 
- Barcos? Teremos de transportar barcos?
 -  a nica maneira de atravessar os Urales, subindo o 
Tchousovaia at  linha de diviso das guas no Ural. A, os 
homens tero de carregar os barcos s costas at  outra vertente 
do macio montanhoso, depois do qual atingiro o Toura. A, 
voltam a embarcar, descem o Toura e atingem o Tobol. 
Encontrar-se-o, ento, no corao das terras do czar siberiano 
Koutchoum. - Nikita calou-se e, logo a seguir, acrescentou 
precipitadamente: - Esse pago!
 - Para sempre, amem! - respondeu Jermak, sarcstico.

 Fixava intensamente os Stroganov, como se visse fantasmas.
 - E os nossos cavalos? - perguntou, por fim.
 - S podero penetrar na Sibria pelos rios, os cavalos tero de 
ficar aqui!
 Pode dizer-se a um cossaco que o Sol e a Lua acabaro por se 
encontrar, que o Volga corre para o Norte e no para o mar Negro, 
que se semeia fermento para colher couves... ele aceitar ou 
limitar-se- a encolher os ombros. Mas adverti-lo de que no 
poder montar um cavalo,  anunciar-lhe o fim do mundo!
 - Sem cavalos? - repetiu Jermak numa voz embargada.
 - Ento no irei a cavalo para a Sibria? - gaguejou Mouchkov.
 E Marina ousou acrescentar um murmrio:
 - Sem cavalos?  impossvel!
 - Vamos embora! - ordenou, por fim, Jermak, numa voz 
tonitruante. - Os Senhores Stroganov precisam de homens que mijem 
para o vento! Mas ns,  contra o vento que mijamos e sabemos 
venc-lo! Os senhores tero de contratar outros homens para essa 
empresa...
 - Olha bem para os mapas, Jermak Timofeivitch! - replicou 
Nikita Stroganov. - Se conheces outra via de penetrao, diz! 
Estamos prontos para alterar tudo!
 Jermak aproximou-se da mesa em que se encontravam os mapas e 
estudou-os atentamente. Debruou-se sobre os itinerrios 
indicados, reflectiu, roeu as unhas, fechou os olhos. Ningum 
interrompeu as suas meditaSes.
 Mximo Stroganov percorreu as listas de equipamentos. Nikita 
mantinha-se afastado, perto da tapearia dos Gobelins, que 
escorregara da mesa; Simeo, o velho, saboreava o vinho francs; 
Mouchkov mordia o lbio inferior e bem teria gostado de, pelo 
menos, tocar muito ao de leve em Marina, o que o tranquilizava 
sempre, estranhamente. De noite, permitia-se faz-lo, enquanto 
ela dormia. Ento, pousava a mo com muito cuidado nos seus seios 
jovens e desapareciam todas as preocupaSes... Era um sentimento 
maravilhoso, incomparvel.
 - Subir o Tchousovaia, transpor o Ural de barco, descer o Toura 
at ao Tobol  o caminho mais fcil - insistiu Nikita, enquanto 
Jermak mantinha o silncio. - Mais a sul, as cadeias de montanhas 
so mais elevadas, os vales mais profundos, os carreiros 
impraticveis, tanto de barco como a cavalo. Enquanto no se 
descobrir um bom caminho, a Sibria s poder ser conquistada a 
p ou atravs dos rios. Os homens de Koutchoum tm a tarefa 
facilitada:  o seu pas, conhecem-no. Como  que os seus 
cavaleiros transpSem as montanhas, vindo at aos nossos domnios, 
ningum sabe... Santo Estefnio tambm o fez, mas a p...
 - No sou santo! - exclamou Jermak, grosseiro. - Preciso de 
cavalos para carregarem o meu esplio! Os homens tero, ento, de 
transportar tudo s costas? Um cossaco sem cavalo...
 - Em Mangaseja encontraro de novo cavalos! - Simeo Stroganov, 
o velho, procurou aprumar-se, gemendo. H um ano que a gota o 
torturava. - Mas deves mostrar-te razovel e aceitar a travessia 
do rio, Jermak: um cavalo pode morrer, mas um rio corre 
lentamente.
 - Preciso de reflectir... - Jermak afastou-se da mesa em que se 
encontravam os mapas. - No tenho coragem para avisar os meus 
homens de que no podem penetrar na Sibria a cavalo!

 - Nesse caso, encarregar-me-ei de lhes explicar - replicou 
Nikita Stroganov.
 - Experimenta, meu donzel! - Jermak esboou um sorriso maldoso. 
- Despedaar-te-o! Um cossaco sem cavalo no  um homem!
 O rosto de Mouchkov resplandecia:
 - Ouviste? - murmurou ele, dirigindo-se a Marina, de p  sua 
frente. - Afinal, sempre somos seres humanos !
 - Poderemos falar sobre isso - respondeu ela, baixinho. - E  o 
que faremos depois... meu urso!
 Mouchkov suspirou, dirigiu-se a Jermak e disse, em voz bem alta:
 - Jermak Timofeivitch, a minha opinio  que deveramos 
regressar ao Don, depois de destruirmos Oriol! Fomos enganados!
 Os Stroganov sustiveram a respirao. Agora, ia ser tomada a 
deciso final... sabiam que, entregue a mil cossacos bem 
treinados, a sua fortaleza, feita de negcios e de dinheiro, 
estava perdida.
 - Nikita Stroganov tem razo - disse, por fim, Jermak em voz 
pausada, embaraada, pois sentia relutncia em reconhecer a 
verdade. - S atravs dos rios poderemos atingir a Sibria! Os 
nossos cavalos no chegaro ao cimo dos montes Urales: a domina 
Satans!
 - Que Deus vos ajude! - murmurou o velho Simeo, piedoso. - 
Partiro para o desconhecido erguendo estandartes bordados com a 
efgie da nossa santa Me, de todos os santos...
 - E o nosso esplio? - insistiu Mouchkov, teimoso.
 - Ser tudo o que possam transportar! - respondeu Simeo 
Stroganov, cruzando as mos sobre o hbito de monge. - O vosso 
equipamento custou-nos vinte mil rublos em ouro! Nem o czar 
dispSe desta quantia para as suas tropas! O vosso exrcito  o 
mais bem equipado do mundo!

 Foram precisas trs semanas para que os homens de Jermak se 
resignassem perante a perspectiva de no associarem os seus 
cavalos  conquista da Sibria. Prostravam-se nas margens do Kama 
a examinar as embarcaSes leves, largas e achatadas, de concepo 
estranha, obra dos construtores de barcos alemes. Mas insultavam 
e maldiziam os Stroganov. Depois, Jermak instituiu os exerccios 
de transporte dos barcos. Estes eram colocados sobre estacas de 
madeira que assentavam nos ombros dos carregadores, tendo-se 
chegado  concluso de que convinha escolher carregadores todos 
da mesma estatura, capazes de caminhar pelo mesmo passo. S 
nestas condiSes se conseguia que as barcaas no oscilassem 
muito. Surgiram veementes protestos quando Jermak pretendeu 
inculcar nas tropas a marcha " alem" .
 Alexandre Grigorivitch Loupin, o veterinrio dos cavalos dos 
Stroganov, tambm faria parte da expedio. Coube-lhe a delicada 
misso de explicar aos cossacos que deveria acompanhar as tropas, 
pois a sua presena era necessria. Um veterinrio, quando no 
permitem a presena de cavalos! Contudo, conseguiu o que queria, 
apresentando a razo de que tanto sabia tratar de cavalos como de 
homens. Qual a expedio militar que dispensa um cirurgio?

 O homem mais ocupado, e que definhava a olhos vistos, como que 
rodo interiormente, era Oleg Vassilivitch Koulakov, o pope dos 
cossacos. Com efeito, era a ele que as infatigveis costureiras 
dos Stroganov entregavam os estandartes cobertos de imagens da 
Virgem e de cabeas de Cristo. Verdadeiras obras-primas do 
bordado, em que cada ponto custava uma lgrima... Contudo, 
ningum chorava por causa deste penoso trabalho, pensando apenas 
nos cossacos que se introduziam secretamente nas granjas e nas 
residncias das bordadeiras para lhes ensinarem toda a espcie de 
talentos. Ao longo de um ano e meio, as tropas de Jermak tinham 
tido tempo de descobrir mil caminhos secretos, para, atravs 
deles, atingir o objectivo. No domingo teria lugar a bno antes 
da partida...
 O pope recebia os estandartes j prontos, examinava-os com olhar 
crtico, assim como s bordadeiras, autoras da obra, e se um 
estandarte lhe agradava em particular - ou a respectiva 
bordadeira - decidia abeno-los imediatamente. Nem mesmo um pope 
conseguia resistir a esta actividade e Koulakov queixou-se a 
Jermak de que os Stroganov encomendavam mais bandeiras bordadas 
do que o nmero de homens destinados a empunh-las.
 - Cada grupo de cinquenta homens tem direito a um estandarte! - 
ordenou Jermak. - Combatemos em nome da cristandade, padre!
 - Deus misericordioso! - exclamou o pope, esfregando as mos. Em 
seguida, cofiando a barba, abandonou a casa de Jermak.
 Durante um dia inteiro, recusou-se a abenoar estandartes e 
permaneceu sentado  beira do Kama, a fim de recobrar foras. 
Quando, no dia seguinte, abriu a porta da igreja e viu sete 
bandeiras empunhadas por sete jovens e bonitas raparigas, que 
penetraram nos locais sagrados com o ar mais respeitvel do 
mundo, ergueu os olhos ao cu:
 - Senhor, bem sei que necessitas de mrtires. Fortalece, pois, o 
meu corao e... o resto!
 Mouchkov e Marina tiveram de superar algumas dificuldades, 
Mouchkov, receando que Marina no resistisse  campanha da 
Sibria, ordenou-lhe, pondo de lado a prudncia:
 - Tu ficas aqui! Espera pelo meu regresso, pois no vais para a 
Sibria! No permitirei.
 Mas Marina respondeu com igual determinao:
 - Sou adjunto de Jermak, de resto, tu tambm no vais?
 - Eu sou um homem! - gritou Mouchkov,
 Teria sido sensato falar de outro modo, pois Marina 
respondeu-lhe com um riso aberto que lhe cavava duas covinhas nas 
faces e realava os olhos azuis. Mouchkov sabia perfeitamente 
porque se ria ela e, contrariado, rangeu os dentes.
 - No queres que se mate! - vociferou. - Mas ns,  para matar 
que l vamos!
 - Eu sei, Ivan Matveivitch, tambm  para isso que eu parto. 
Impedir-te-ei de matares!
 - Julgas que me desarmas sempre que queiras?
 - Se no houver outro processo serei forada a recomear!
 - E no queres que tome parte nas pilhagens?
 - No permitirei sequer que te apoderes de um sapato velho que 
no te pertena!
- Maldito seja Novo Orpotchkov! - resmungou Mouchkov, 
gesticulando sem se conter.

 - Demasiado tarde! Incendiaram a minha terra e, ainda para mais, 
raptaste-me! Fizeste de mim um esplio! - Marina soltou uma 
gargalhada e deu meia volta sobre si mesma com tanta graciosidade 
que o corao de Ivan se crispou.- Agora, ters de arrastar 
contigo a tua presa, meu tesouro! H doenas incurveis, o amor  
uma delas!
- Um dia, na cama, despedao-te - declarou ele, numa voz surda -, 
e esmago-te como couve-azeda!  mesmo disso que ests a precisar!
- Beijar-me-s to derretido como manteiga ao sol - respondeu 
ela, aprumando-se e deixando adivinhar o peito por debaixo da 
camisa cossaca. Ivan viu-lhe os mamilos salientes e engoliu em 
seco, penosamente.
 - Quando? - balbuciou ele. - Quando, minha rosa de ouro? Quando, 
diabinho maravilhoso?
 - Talvez... - Marina olhava de soslaio, e de cabea baixa. - 
Quando regressares de mos a abanar de mais uma cidade 
conquistada.
 Depois, Marina afastou-se.

 A 25 de Agosto de 1581, os navios de carga encontravam-se 
atracados nas margens do Tchousovaia.
 O exrcito dos Stroganov parecia de muito bom humor, apesar da 
perspectiva de subir a remos o maldito rio, de fundo rochoso e 
irregular, com muitas correntes, e de abandonarem os seus fogosos 
cavalos. Se, no local em que se encontravam, a estepe ainda 
reinava, j se avistava no horizonte o ameaador macio 
montanhoso dos Urales, barreira rochosa que atingia o cu.
 A presena de Alexandre Grigorivitch Loupin no se fez notar no 
meio do exrcito dos futuros invasores, j que, alm dos homens 
de Jermak, aquele comportava ainda um pequeno grupo de 
combatentes j reunidos nas margens do Tchousovaia: aventureiros, 
caadores, empregados dos Stroganov encarregados de estabelecer 
pontos de resistncia e de penetrao. Havia ainda intrpretes, 
conhecedores dos estranhos idiomas ostacos, dos vogulos, dos 
trtaros, dos tagil e de outros povos asiticos, e tambm 
barqueiros especializados na navegao fluvial e, por fim, 
religiosos!
 Vinham sobretudo do mosteiro de Ouspensk para se juntarem ao 
exrcito de Jermak e o pope dos cossacos observava-os pensativo e 
de sobrolho carregado. Os seus colegas avanavam para ele 
empunhando estandartes dourados, acompanhados de cantores e de 
serviais, como se no se tratasse de conquistar um pas 
selvagem, mas sim de organizar uma procisso pascal. At o bispo 
de Ouspensk fazia parte do grupo - no por desejar partir para a 
Sibria, mas para benzer os barcos, os corajosos combatentes, as 
mulheres e as filhas em pranto, e para lhes dedicar um sermo 
segundo o qual o objectivo desta expedio guerreira consistia em 
expulsar o czar pago siberiano, levando a cruz aos descrentes. 
Ningum proferiu uma palavra que fosse sobre zibelinas, raposas 
prateadas, visSes, castores, esquilos e outros animais de preo. 
Toda a conquista tem o seu lado srdido...
J  um grande feito embarcar um milhar de homens armados, trs 
canhSes, equipamentos e vveres e, ainda para mais, quinhentos 
porcos inteiros - as mil metades atribudas pelos Stroganov e... 
que seria impossvel transportar. Os Stroganov assim pensavam e a 
sua generosa oferta fora, inicialmente, uma prenda envenenada.

 Mouchkov lastimou-se at mais no poder, arrepelou os cabelos e 
acabou por calcular que seriam precisos dez barcos de carga para 
incluir os porcos nas bagagens.
 - Mesmo salgando-os e cortando-os aos pedaos - explicou Marina 
- no serviria de nada. J temos muitas coisas para levar! No  
verdade que teremos de transportar as embarcaSes atravs dos 
Urales?
 - Bandidos! Verdadeiros safados! - praguejava Mouchkov, 
observando a vara de porcos, grunhindo  beira do rio.
 Sentia o corao despedaado. Alguns cossacos j tinham comeado 
a amanhar uns tantos animais, mas da s lhes viria alimento para 
dois dias de caminho.
 - Marinouchka, tu s uma rapariga sensata. No tens nenhuma 
ideia?
 - No. - Marina enterrou o bon na cabea. - Para alm de 
podermos fugir esta noite e cavalgarmos rumo ao sul...
  beira do rio, Jermak fazia-lhe sinal. Precisava certamente do 
seu adjunto.
 - Abandonar Jermak? Enganar os camaradas? nunca! - gritou 
Mouchkov.
 - Ento, um dia ters de roer troncos de rvore como os 
castores! - concluiu Marina, afastando-se.
 No dia 1 de Setembro, os barcos fizeram-se finalmente ao Kama, 
entre cnticos entoados e repetidos por um milhar de vozes 
masculinas. O bispo de Ouspensk benzeu os servidores movimentando 
o turbulo, as bandeiras agitaram-se ao vento, as mulheres 
choravam ruidosamente e os homens viram desaparecer ao longe, 
satisfeitos o bando apaixonado. "Se Deus fosse um pai generoso, 
como dizem, f-los-ia desaparecer para sempre! Que sejam tragados 
pela Sibria!", eram estes, em geral, os fervorosos votos que 
acompanhavam as barcaas e os respectivos ocupantes.
 - Vai em paz! - dissera Nicolas Stroganov a Jermak, no momento 
da despedida, abraando-o como a um irmo e dando-lhe trs beijos 
nas faces. Avaliava a situao com mais objectividade do que o 
comandante dos cossacos. Para os Stroganov, tratava-se de uma 
incrvel aventura, cujo desfecho era essencialmente uma questo 
de sorte. Se, por um lado, Jermak estava certo de vencer, os 
Stroganov, por outro, mostravam-se pouco seguros de si. Davam 
tudo por tudo. Ao longo da histria, alguns Stroganov j tinham 
arriscado tudo, mas saram sempre vitoriosos.
 Desta vez, debatiam-se com muitas incgnitas. E dispunham apenas 
de um trunfo: Jermak, que no temia nada.
 Seria suficiente para conquistar a Sibria?
 A maneira como os cossacos se despediram dos cavalos foi 
comovedora. Todos os animais se encontravam alinhados ao longo do 
rio, em grupos de dez, como numa parada, e os cossacos avanaram 
para os respectivos cavalos, abraando-os entre lgrimas. Nunca 
se vira um milhar de cavaleiros chorando ruidosamente, enquanto 
acariciavam os focinhos dos animais, murmurando-lhes ao ouvido 
palavras mais ternas do que as que dirigiam s mulheres.

 Em seguida, Jermak ordenou que o corneteiro desse o sinal de 
partida. Mas, quando os cossacos se encontraram todos a bordo, e 
enquanto os religiosos entoavam cnticos, a sua natureza brutal 
veio ao de cima e abafaram os cnticos de aco de graas, 
gritando canSes que nada tinham de serfico. Os grandes remos 
mergulharam nas guas sussurrantes do Tchousovaia. O barco de 
Jermak comandava, seguindo-se-lhe Mouchkov e Marina... Cada um 
dos outros transportava vinte homens e material. Tratava-se, sem 
dvida, de uma frota enorme que se dirigia para os Urales, a 
primeira invaso de envergadura a esse pas desconhecido.
 Embora o sol brilhasse, como um disco incandescente no cu, e o 
Outono ainda mal se adivinhasse, enfrentavam um vento glacial. 
Eram as primeiras saudaSes dos Urales.
 No primeiro barco seguiam, juntamente com Jermak, os marinheiros 
e o pope Oleg Vassilivitch Koulakov. O coro ritmado de um milhar 
de vozes era acompanhado pelo bater dos remos, enchendo a 
atmosfera. A exaltao geral encontrava-se ainda no auge.
 - Por quanto tempo navegaremos neste miservel rio? - perguntou 
Jermak a um dos timoneiros.
 - Dentro de quatro dias devemos atingir os primeiros 
contrafortes das montanhas. - O timoneiro, um velho navegador e 
pescador de longas barbas, observou a enorme frota que os seguia. 
- Trouxemos mais carga do que a necessria, Jermak Timofeivitch!
 - Eu sei, velho - respondeu Jermak, de olhos postos nas guas 
revoltas. - Mas s assim consegui que os meus homens embarcassem! 
Mais tarde, nos Urales acordaro.  prefervel que lhes seja 
impossvel voltar atrs!

 Livres da zona de vigilncia dos Stroganov, os guerreiros, at 
ento aquartelados, voltaram a ser os cossacos intratveis que 
sempre foram. Nem precisavam de cavalos: para pilhar e assaltar 
mulheres, possuam pernas suficientemente rpidas.
 Contudo, nos trs primeiros dias no tiveram ocasio de as pr  
prova. O Tchousovaia revelou-se um curso de gua muito perigoso, 
repleto de bancos e recifes.
Afundaram-se vrias barcaas. Foi necessrio mergulhar na gua 
fria e, a ombros, libertar os barcos das pedras ou da areia que 
os retinham presos. Ao crepsculo, acampavam na margem, acendiam 
fogueiras, o odor da carne e das couves pairava como uma nuvem 
sobre as tropas sadas do rio. Pequenos grupos de batedores 
sondavam a regio em todas as direcSes, descobrindo amveis 
indgenas que acolhiam os estrangeiros sem preconceitos, 
recebendo maus tratos como paga.
 No quarto dia - o rio estreitava cada vez mais e o leito era 
formado apenas por pedras - atingiram os Urales. O cimo dos 
montes pareceu-lhes menos imponente do que imaginaram, o poderoso 
macio montanhoso comeava mais adiante, a sul. Ali, onde se 
encontravam, a montante do Tchousovaia, erguiam-se escarpas 
pedregosas formando extractos despidos, de silhuetas bizarras, 
sem quaisquer caminhos. Deserto de pedras que teriam de 
atravessar transportando os barcos. Terminara a viagem fluvial. 
Comeava a longa marcha. Acontecimento sem precedentes, esta 
conquista efectuada a p, por cossacos!

 Jermak, Mouchkov, Marina, as centrias e os religiosos 
reflectiam sobre cada pormenor dos mapas que Stroganov lhes 
entregara. Tinham sido elaborados pelos melhores cartgrafos, 
embora fossem to incompletos como os ensinamentos recolhidos 
sobre estas regiSes. Sabia-se apenas uma coisa: comeava aqui o 
velho caminho que conduzia  Sibria, aquele que monges e 
caadores j tinham percorrido: o "Serebrianka". Este carreiro 
contornava picos, atravessava estreitos vales encimados por 
rochedos a pique, passando ao longo de muitos precipcios... e 
algures, a norte, abrir-se-ia um prtico de rochedos sobre o 
infinito siberiano.
 E teriam de superar todos estes obstculos carregando os barcos 
s costas!
 Nessa noite, quando as tropas de Jermak montaram um novo 
acampamento, servindo-se de uma tcnica to precisa que o 
acampamento mais parecia uma pequena fortaleza. Ivan Matveivitch 
Mouchkov e Alexandre Grigorivitch Loupin encontraram-se. Ambos 
se entregavam  remoo de rochedos.
 - Ouve l, velhote - gaguejou Mouchkov, olhando de soslaio para 
Loupin -, no s tu o pai do nosso adjunto Boris Stepanovitch?
 - Sim, sou - reconheceu Loupin.
 - Ento, no me enganei! Vi-os algumas vezes juntos e, um dia, 
disposto a espiar-vos, rastejei at vs, rodo de cimes e... que 
ouvi eu? Paizinho, dizia ela! Talvez no signifique nada, pois 
ela tambm me chama "meu velho", a mim, um jovem de trinta anos, 
mas tranquilizou-me saber que s pai dela.
 - E tu s o amante - concluiu Loupin, muito desgostoso, como se 
pode imaginar.
 - Se ao menos o fosse! - suspirou Mouchkov, nostlgico e 
deixando cair um pedao de rocha, o que o obrigou a fugir para o 
lado. - Se quiseres, podemos conversar. A tua filha parece 
protegida por uma couraa! Sinto-me desesperado! .
 Dirigiram-se para uma colina de pedras, limpando a testa e 
arquejando ruidosamente.
 - Devamos entender-nos, velhote - retomou Mouchkov, passado um 
momento. - Amo Marinouchka e, por isso, alguma coisa ter de 
acontecer antes de deixarmos os Urales para trs. Receio que lhe 
acontea alguma coisa na Sibria!
 Este dilogo travava-se numa noite sinistra. O cu, carregado de 
nuvens, descia sobre os Urales. A paisagem mineral parecia 
mergulhada numa densa escurido. L em baixo, junto do 
acampamento de cossacos, bruxuleavam grandes labaredas e os seus 
reflexos iluminavam os rochedos em volta, mas ali, onde se 
encontravam Mouchkov e Loupin, reinava o silncio. Os dois 
homens, escondidos atrs de um rochedo, escapavam aos olhares 
indiscretos. Era um local propcio para conversar e tomar 
decisSes.
 Contudo, Marina andava  procura de Mouchkov. Formavam-se grupos 
em volta das fogueiras e ela circulava entre os camaradas, 
interrogando em vo os carregadores de rochedos e os construtores 
que, por ordem de Jermak, erguiam uma muralha de pedras, uma 
praa forte, como fora previsto durante a reunio com os 
Stroganov. Estas torres delimitavam,  laia de albergues, o 
caminho para a Sibria. Mais tarde, seriam os pontos fortes de 
novas colnias: simultaneamente centros de trocas comerciais, 
fortalezas defensivas e eventuais refgios. Plano genial que iria 
permitir a passagem dos Urales e a expanso comercial para l 
desta barreira.
 - Amo Marinouchka - repetiu Mouchkov. - Mantm-te atento, 
velhote, e retm-na com todas as tuas foras!  preciso salv-la!
 - Ret-la? - Loupin encolheu os ombros. - Dizes isso como se no 
houvesse nada mais fcil. s capaz de o fazer, tu?
 - Mas tu s o pai!
 - E tu? Ela no te ama?

 Permaneceram em silncio durante alguns momentos, aps os quais 
Mouchkov retomou:
 - Teramos de a tornar inconsciente durante alguns instantes. 
Permanecerias junto dela e, quando Marina voltasse a si, j ns 
estaramos longe...
 - Marina perseguir-vos-, como um lobo atrs de um coelho...  
verdade, ela ama-te, mas mais do que se ama habitualmente! 
Porqu?  isso que me parece estranho...
 - Apesar de tudo, trata-me como um co tinhoso. - Mouchkov 
encostou-se a uma muralha de pedra, de olhar perdido no cu 
escuro. - Velhote, que pensas de mim?
 - Preciso de responder? - replicou Loupin, prudente.
 - Salvei a vida de Marina.
 - Deveria apreciar-te por essa razo, mas quantas mulheres 
mataste e violaste?
 - Nenhuma, na verdade!
 - Ests a mentir, Ivan Matveivitch!
- Nunca matei uma mulher! A no ser que o amor possa matar uma 
mulher...?
- Aquilo a que os cossacos chamam amor,  um assassnio - 
declarou Loupin tranquilamente.
 - Juro-te, velhote que quando encontrava uma mulher, a tratava 
sempre como a uma pomba! Quando tenho uma mulher nos braos, 
chego a ter vergonha da meiguice, da ternura que lhe testemunho! 
Mas nada se pode comparar ao que sinto por Marinouchka, s de 
olhar para ela... Temos de a afastar de combates mortferos!  
uma loucura lev-la para a Sibria!
A conversa prosseguiu e nenhum deles se apercebeu que, por detrs 
deles, na encosta coberta de cascalho, Marina, deitada no cho, 
os escutava. No se mexeu quando os dois homens se levantaram e 
pegaram nos fardos, dirigindo-se  muralha circular em 
construo. S quando se encontraram fora da sua vista, como que 
engolidos pela escurido, Marina se ergueu tambm, fazendo um 
grande desvio antes de alcanar o acampamento.
Juntando-se aos outros, Marina sentou-se ao lado de Jermak, que 
saboreava um pedao de carne assada. Sobre as brasas, via-se um 
bom naco de porco salgado.
- Parece-me que Mouchkov tem inveja! - declarou Marina 
bruscamente.
 Jermak sobressaltou-se. Ningum gosta de ouvir falar assim do 
seu melhor amigo.
 - O que dizes? - perguntou ele, enquanto o suco da carne assada 
lhe escorria pelas comissuras dos lbios.
- Desde que sou adjunto, vejo-o a olhar para mim como se me 
quisesse apunhalar!
- Nunca conseguiu suportar a tua presena! - afirmou Jermak, 
soltando uma gargalhada.
-  verdade?
 Marina fitava Jermak. Subitamente, o seu corao comeara a 
bater e o sangue subira-lhe s tmporas, enquanto a invadia uma 
infinita melancolia.

 - Ento ele no disse: devia ter lanado este diabo s chamas em 
Novo Orpotchkov?. E eu respondi: "O tipo tem tanta cabea, como 
tu, o que te irrita!" E o meu amigo Mouchkov acrescentou: "Ah! Se 
fosse uma rapariga, matava-a!" - Jermak observava Marina, rindo 
novamente com os lbios sujos de gordura. - No, ele no tem 
inveja, Boris Stepanovitch, mas toma cuidado, pois s to bonito 
que ele pode esquecer-se de que s um homem! Na verdade, Mouchkov 
est cada vez mais estranho. Aguardemos at atingirmos o Toura ou 
o Tobol; a, haveremos de encontrar uma jovem trtara e 
obrig-lo-emos a viol-la  nossa frente! E, assim, curar-se-...
 - Com certeza, Jermak Timofeivitch!
 Marina, sonhadora, esforava-se por comer. A sua astcia 
feminina, que consistia em depreciar Mouchkov aos olhos de 
Jermak, a fim de impedir que, juntamente com o pai Loupin, 
descobrisse uma maneira de a deixar para trs, parecia voltar-se 
contra ela. Se Jermak tentasse procurar uma jovem trtara para 
Mouchkov, encontraria com certeza! Doa muito... e teria de 
assistir a tudo! Como escapar a esse espectculo? Teria de o 
suportar!
 Pela primeira vez, confessou a si mesma que no permitiria que 
nenhuma outra mulher pertencesse a Mouchkov. Por que  que o amo? 
Porqu? Um brutamontes assim! Um femeeiro, um grosseiro, porqu?
 Perguntar porqu em questSes de amor,  no querer obter 
resposta.

 Trs dias depois de terem abandonado o rio Tchousovaia, 
embrenhando-se no caminho ancestral que conduzia  Sibria, 
caminho este que, segundo a lenda, s devia ser pisado por 
religiosos, visto que estes se encontraram protegidos contra os 
ataques do Diabo, avistaram o pequeno curso de gua Charavlia.  
sua volta estendia-se um deserto pedregoso e os raros indgenas 
com que se cruzaram, inofensivos vogulos, foram saudados pelos 
cossacos segundo os processos habituais: pilhagem e destruio de 
habitaSes, disputa e partilha das poucas mulheres presentes. Em 
seguida, prosseguiam a terrvel marcha forada.
 Cada tripulao devia transportar a sua embarcao s costas, ao 
longo dos precipcios... gemendo, mas avanando de passo 
acertado, pois qualquer oscilao poderia ser perigosa. Assim, 
transportaram as grandes barcaas atravs dos Urales durante 
horas, dias, formando grupos suados e emudecidos. Jermak tambm 
participava no transporte, pois o seu exemplo encorajava os 
homens.
 No gozava de nenhum privilgio. At mesmo os religiosos se 
esfalfavam sob o peso dos barcos. Quem quisesse chegar  Sibria, 
teria de se submeter ao transporte dos barcos. As oraSes 
realizavam-se ao cair da noite ou durante as raras pausas para 
descansar.
 Apesar de tantas dificuldades, corria tudo bem. No havia 
mortos, pois os indgenas encontrados pelo caminho no opunham 
nenhuma resistncia. Assinalavam-se apenas alguns ferimentos, na 
maior parte das vezes ps esmagados ou ensanguentados, que os 
cirurgiSes tratavam,  noite, com o auxilio de diversos 
unguentos. Nestes casos, o velho Loupin fazia notar a sua 
presena.
 Conhecia bons remdios para os cavalos e todos os cossacos 
estavam convencidos de que o que era benfico para um cavalo no 
poderia deixar de curar um homem.

 Loupin confeccionava, pois, mistelas complicadas, pomadas que 
cheiravam horrivelmente mal, mas que actuavam! Para este 
trabalho, utilizava toda a espcie de verduras, desde musgo at 
s bagas mais desconhecidas. O facto de no ter morrido 
envenenado nenhum dos pacientes testemunha bem a resistente 
natureza dos cossacos, esses brutamontes selvagens.

  Avanavam lentamente, escavando cavernas, erguendo novas 
fortificaSes e quando, por fim, atingiram o rio Tagil, todos 
pensaram que o prodgio concedido a Moiss se repetia atravs de 
Jermak e dos seus homens:  sua frente estendia-se o pas 
ardentemente desejado, objecto dos seus sonhos, terra 
desconhecida, ilimitada, recheada de riquezas!
 Mil homens transpuseram a barreira rochosa dos Urales. Nas 
margens do Tagil, caram de joelhos e os popes passaram entre 
filas de guerreiros benzendo-os e aspergindo-os com gua benta. 
Em seguida, reunidos em volta dos estandartes da Virgem e dos 
santos que flutuavam ao vento, cantaram, de olhar perdido na 
gigantesca paisagem que se lhes oferecia: desertos de rochedos, 
estepes, pntanos, florestas, por cima das quais pairava um cu 
incomensurvel, como s se v na Sibria: um cu em que o olhar 
penetra nos olhos de Deus. Mouchkov ajoelhou-se ao lado de 
Marina, quando o ofcio divino teve incio, nas margens do Tagil. 
Ela empunhava firmemente a haste de uma bandeira e o vento 
danava no seu cabelo louro, que crescera durante a peregrinao 
e formava pequenos caracis.  noite, teria de os cortar, a fim 
de manter a aparncia de um adolescente chamado Boris 
Stepanovitch.
 - Ento, meu urso velho? - perguntou ela a meia voz. 
Encontravam-se lado a lado, de cabea baixa. - No querias 
reservar-me este dia?
 - Marinouchka - balbuciou Mouchkov, tacteando  procura da sua 
mo esquerda.
 - Baixa as patas, bruto! Se Jermak te visse...
 - O exrcito de Koutchoum vai atacar-nos algures, l em baixo...
 - Tens medo, meu velho?
 - Pensa bem no que se conta: Mangaseja  habitada por criaturas 
que tm a boca no meio do crnio. Devoram-se uns aos outros e, 
por essa razo, so chamados Samoiedos, o que significa que se 
"comem a si mesmos"! Marinouchka, no quero ver-te devorada por 
tais monstros!
 - Louvado seja Jesus Cristo! - exclamava o pope dos cossacos, 
Oleg Vassilivitch Koulakov. - Em seu nome, conduziremos os 
pagos deste pas ao caminho da f, ou aniquil-los-emos! 
Oremos...
 - Os Samoiedos devoram os seres humanos crus - murmurava 
Mouchkov. - Marinouchka, volta para trs! Segue o teu pai!
 - Se se trata de ser devorado, estou descansada quanto  tua 
sorte - respondeu ela com meiguice. - No te tocaro, cheiras 
demasiado mal!

 Permaneceram trs dias  beira do Tagil, consertando os barcos 
que se estragaram durante a viagem. Entre tanto, construram um 
campo entrincheirado e uma casa de pedra; com duzentos homens a 
trabalhar, no sobrou tempo. Armazenaram uma parte da carga e das 
provisSes e deixaram por l um pope e seis caadores, alm de 
trs cossacos doentes, cujo estado era to deplorvel que teria 
sido criminoso obrig-los a prosseguir a expedio.
 Assim, com um pope e alguns soldados, nasceu a primeira colnia.

 - A partir de agora, manter-nos-emos sempre junto aos rios - 
declarou Jermak s centrias e respectivos comandantes. No seu 
barco, reuniu um verdadeiro conselho de guerra; sobre os bancos, 
desdobrara os mapas geogrficos dos Stroganov. Os cossacos 
desconfiavam de que no teriam muitas mais oportunidades de 
discutir o assunto. Pela frente encontrariam no s riqueza e 
glria mas tambm as tropas do czar siberiano Koutchoum, que 
ousara escarnecer do czar Ivan, o Terrvel.
 Koutchoum julgava-se to poderoso, to fora do alcance dos 
outros, defendido como se encontrava por exrcitos compreendendo 
milhares de cavaleiros! Perante isto, que importncia poderia ter 
um milhar de soldados cossacos.
 - Quem quiser pode voltar para trs! - desafiou-os Jermak, com 
dureza. - No obrigo ningum!
 Os homens de Jermak calavam-se. Voltar, pensavam eles... Alguns 
ousaram faz-lo ao escalarem os Urales. 
 Afastaram-se  sorrelfa, em grupos de dois ou trs, vinte 
homens, no total. Jermak ordenou que os trouxessem de volta a fim 
de os lanar vivos ao primeiro rio que aparecesse - foi o 
Charavlia. - Um cossaco luta contra a morte enfrentando o perigo, 
mas no pode ter medo de um pas desconhecido!
 Os barcos regressaram  gua mas, desta vez, o momento no foi 
de festa como quando partiram do Kama. Os vveres comeavam a 
escassear. O que os Stroganov lhes destinara teria sido 
suficiente se tivessem podido transportar tudo, mas muitos 
pacotes tinham sido abandonados pelo caminho e, agora, pouco 
havia a esperar das pobres aldeias indgenas por que passavam: 
encontravam-se abandonadas, os celeiros vazios, o gado disperso e 
escondido nos campos.
 - Precisamos de descer o rio to rapidamente quanto possvel at 
ao Tobol! - declarou o pope cossaco. - L em baixo, encontraremos 
aldeias abastadas pertencentes a Koutchoum... O Senhor castiga os 
pagos! Precisamos simplesmente de uma boa pilhagem, de um 
esplio carregado de riquezas!
 A descida do rio Tagil processou-se tranquilamente. De vez em 
quando, os cossacos avistavam nas margens alguns trtaros a 
cavalo que seguiam os barcos durante algum tempo, olhando 
boquiabertos para o seu elevado nmero, desaparecendo em seguida 
na estepe. Ao v-los, os cossacos suspiravam profundamente, 
remando com firmeza e invejando com o olhar os velozes cavaleiros 
de raa amarela.
 - Cavalos! Santo Estefnio, eles possuem cavalos! Tm o direito 
de galopar at ao infinito! Acostemos, Jermak, para os podermos 
desarmar! Um Cossaco a remar  como o Sol sem luz!
 Um belo dia - tinham acostado nas margens do Tagil, mesmo junto 
 foz do Toura -, Jermak proferiu um discurso.
 - No chorem, irmos! - exclamou ele, com gravidade. - Tambm 
ns voltaremos a montar a cavalo! Quando atingirmos o rio Tobol, 
quando conquistarmos Sibir, a capital de Koutchoum, teremos os 
cavalos mais rpidos e mais belos do mundo! De que nos serviriam 
cem cavalos para mil homens? A bordo dos nossos belos barcos, 
penetraremos no corao do reino Koutchoum e ningum nos poder 
deter!  uma artimanha de guerra  qual devemos a vida! Vamos, 
cossacos, deixem-se de lamentaSes...
 - Amem! - rugiu Oleg Vassilivitch Koulakov, o pope.
 Em seguida, ainda entoaram um piedoso cntico, sonhando com a 
pilhagem da Sibria e da cidade de ouro do czar Koutchoum.


 No incio de Outubro, penetraram nas guas do Toura, grande rio 
que desagua no Tobol. Entretanto, em todo o reino do czar 
siberiano, cavaleiros velozes aliciavam os homens para os 
combates. As cidades e aldeias foram fortificadas com triplas 
muralhas de pedra solta, interiormente reforadas por estacas 
aguadas e mortferas.
 Dez mil cavaleiros s ordens do prncipe herdeiro Mametkoul 
estavam preparados para deter os cossacos de Jermak no Tobol. O 
exrcito principal era comandado pelo prprio Koutchoum, que o 
concentrava no Irtych, a fim de proteger Sibir, a capital. O 
comandante da regio do Toura, Iepoutcha, recebeu ordens de 
impedir o avano das embarcaSes. 
 E, subitamente, encontraram-se frente a frente...
 A margem do Toura regurgitava de guerreiros, assemelhando-se a 
um formigueiro. Sobre os cossacos caiu uma chuva de flechas, 
enquanto gritos estridentes acompanhavam os silvos que 
atravessavam os ares.
 - O comandante  um idiota - declarou Jermak, gracejando. 
 Os navios vogavam ao centro do largo rio e as flechas s 
raramente atingiam o alvo; mesmo neste caso o seu impacto era to 
fraco que os cossacos as agarravam com as mos, rindo.
 - Quero os atiradores de elite a postos! - gritou Jermak.
 A ordem foi transmitida de barco em barco e, onde quer que se 
encontrassem mercenrios alemes ou livnios, de arma de fogo em 
punho, tudo se animava; os atiradores chegavam-se ao rebordo do 
casco, agitavam a plvora nas caoletas e puxavam o co da 
espingarda.
 - Fogo! - comandou Jermak.
 Trs salvas rasgaram o silncio desse belo e claro dia de 
Outono. quela distncia, poucas balas atingiram o alvo, mas o 
efeito foi surpreendente. Os homens que se amontoavam numa das 
margens do Toura caram para trs como que soprados por um 
furaco. Em seguida, rebolaram sobre si mesmos, enterraram o 
rosto na erva da estepe e no voltaram a mexer-se.
 No compreendiam o que se passava. O cu estava lmpido, o sol 
brilhava e, mesmo assim, eram atingidos por raios e trovSes. 
TrovSes como nunca se ouviram e pedras de granizo cadas do cu 
sereno atingiram com tanta fora alguns homens que estes 
sangravam, gritavam, torciam-se na erva e morriam.
 At mesmo Jermak se surpreendeu com o efeito produzido. At 
ento, ignorava que os homens de Koutchoum desconheciam a plvora 
e o chumbo. Tal como no passado, lutavam com flechas, lanas, 
sabres de lminas curvas.
 - J conquistmos a Sibria, irmos - declarou Jermak perante os 
comandantes e as tropas. Entretanto, tinham desembarcado para 
tomar posio numa das margens do Toura. Ao longe, avistava-se um 
aglomerado importante. Era Tchinga Toura, actualmente Tjoumen. Os 
guerreiros trtaros aguardavam, refugiados nesta cidade,  frente 
os arqueiros, atrs a cavalaria.
 Os artilheiros alemes empurravam os trs pequenos canhSes, 
colocando-os em posio. "Antes que se habituem s explosSes de 
plvora, penetraremos em Sibir! O pas  nosso!"
 Mouchkov, por seu lado, partira em busca de Loupin, que se 
encontrava no ltimo barco, junto dos feridos e doentes. Quanto a 
Marina, transmitia as ordens de combate tal como Jermak as 
concebia.

 - C estamos, velhote! - declarou Mouchkov. - Chegou o momento 
de impedires Marina de correr pelos campos! Os trtaros so 
mestres no tiro com arco, conheo-os porque j assisti a mais do 
que uma invaso. Unimo-nos para imobilizar Marina?
 - Jermak ordenaria a sua captura
 - Ento, teremos de lhe torcer um p para que no possa 
caminhar!
 - Brbaro! - exclamou Loupin. - Pretendes, ento, estropiar a 
minha filha?
 - E queres que fique vivo antes de ser seu marido? Alm disso, 
estou farto. Alexandre Grigorivitch - prosseguiu Mouchkov. - 
Preciso de disponibilidade para me entregar  pilhagem,  
obteno de um esplio! Pensa bem no que havemos de fazer a 
Marina, a fim de que no possa opor-se aos meus projectos, ou, de 
contrrio, trago-te a tua filha atada como um embrulho!
 Perto de Jermak, sentado no casco de um barco voltado para 
baixo,  espera de que os seus homens formassem em filas, 
encontravam-se trs trtaros deitados na erva. Tinham o vesturio 
rasgado, e marcas de sangue na pele. Tinham sido descobertos por 
acaso, numa pequena cavidade da riba, da qual foram retirados 
como texugos. Interrogados por um intrprete respondiam em voz 
hesitante:
 - O chefe dos trtaros, o idiota que se encontra  nossa frente, 
chama-se Iepoutcha - anunciou Jermak quando Mouchkov se sentou 
junto dele.
 Marina regressava do cumprimento da sua misso; vinha corada e 
suada por ter corrido. Os artilheiros alemes tinham armazenado 
cuidadosamente as balas, enchendo as bocas de fogo, preparando as 
escorvas. Perto dos canhSes ardiam pequenas fogueiras nas quais 
se acenderiam as mechas.
 - Devemos ter cerca de trs mil homens  nossa frente.
 - Desfazemo-los num pice, Jermak! - vangloriou-se Mouchkov. - 
Ainda no conhecem a nossa artilharia!
 - Vai ser um combate decisivo! - Jermak protegeu os olhos com a 
mo e olhou na direco dos trtaros.
 - Decidi libertar todos os prisioneiros que fizermos, a fim de 
que propaguem por todo o pas que somos invencveis!
- Bruscamente, estendeu o brao, como se estivesse a enviar uma 
lana. - De resto, hibernaremos nesta cidade! Dentro de quinze 
dias nevar e o Toura gelar. Boris Stepanovitch!
 - Jermak!
 Marina perfilou-se  sua frente.
 - Agita a bandeira, vamos pr-nos a caminho!
 Mouchkov sentiu um arrepio gelado percorrer-lhe o corpo.
 - Deixa-me levar a bandeira! - implorou. - Jermak Timofeivitch, 
sou o teu ajudante!
 Empurrou Marina para o lado, que estremeceu e caiu, batendo com 
a testa no casco do barco voltado para baixo. A jovem ficou um 
tanto atordoada, deitada na erva, de olhos postos em Mouchkov. 
Subitamente, surgiu Loupin, ajoelhou-se junto da filha, fingiu 
ergu-la mas, em vez disso, manteve-a firmemente apoiada no cho. 
Era a nica maneira de a deter sem que Jermak suspeitasse.
 - Ao combate! - gritou Mouchkov, erguendo a bandeira contendo a 
imagem da Virgem. Em seguida, correu para a frente.

Numa ampla frente, desdobravam-se agora as bandeiras das 
centrias, enquanto os popes cantavam a plenos pulmSes. Depois 
soaram os canhSes e os atiradores fizeram ouvir as primeiras 
salvas. Atravs da bruma de fumo provocada pela plvora, os 
cossacos puseram-se a caminho. Viso impressionante que gelou o 
corao dos trtaros. Antes de poderem atirar, centenas de 
arqueiros jaziam na erva.
 Ajoelhado no meio das tropas, Iepoutcha orava:
 - Al! Estende a tua mo sobre as nossas cabeas. Maom, 
vencedor de todas as batalhas, vem em nosso auxlio...
 Contudo, mulheres e crianas fugiam de Tchinga Toura. Em 
carroas ou trens em forma de cuba, fceis de arrastar pela erva 
da estepe, transportavam os seus bens para locais mais seguros. 
Desceram o Tobol, no qual Mametkoul aguardava, rodeado por dez 
mil cavaleiros. Mesmo que os estrangeiros tomassem Tchinga Toura, 
nunca atingiriam Sibir! Koutchoum era invencvel! 
 No sabiam que Jermak falava nestes termos da sua prpria 
invencibilidade.

 Durante o ataque, ningum se preocupou com Marina nem com o 
velho Loupin. Passados alguns minutos, encontravam-se sozinhos, 
junto do barco voltado para baixo. As tropas de reserva 
aguardavam ao longo do rio, os padres, reunidos, observavam os 
combatentes surpreendendo-se por o seu irmo, o pope cossaco, que 
trocara o chapu negro de religioso por um bon de cavaleiro, 
empunhar uma espada curva em vez da cruz, carregando sobre o 
inimigo nas primeiras filas das tropas em movimento. Koulakov 
gritava bem alto ao lado de Mouchkov, de olhar fixo na cpula da 
pequena mesquita e no modesto minarete que apontava para o cu 
azul.
 Mouchkov conhecia demasiado bem o pope para no compreender o 
significado deste olhar.
 - O que  que h l adiante? - perguntou ele, ofegando em plena 
corrida. - Sero candelabros de ouro e prata?
- E tapetes, e peas de seda bordadas a pedras preciosas e vasos 
com incrustaSes de esmalte... - murmurou o pope. No muito 
longe, a segunda salva de tiros ressoou pela atmosfera, 
acompanhada do estrondo provocado pelos canhSes.
 - Pensa igualmente em mim, padre! gritou Mouchkov, entusiasmado.
 - Fica a meu lado, meu querido filho! - Oleg Koulakov 
esforava-se por avanar. - Os crentes no tm fome nem sede!
 Em seguida, abateu-se sobre ele uma chuva de flechas.
 Os feridos caram de joelhos e os primeiros mortos ficaram para 
trs, enrolados na erva da estepe.
 O combate durou apenas duas horas; no fim, houve escaramuas 
corpo a corpo e, mais uma vez, os cossacos revelaram-se 
superiores aos trtaros. As tropas de Jermak invadiam como uma 
torrente a velha cidade, assaltando casas e comeando por se 
entregar  ocupao que o cossaco considera a sua razo de viver: 
a pilhagem.
 Entretanto, Loupin e Marina continuavam sentados no casco do 
barco. Os prisioneiros estavam a ser concentrados na margem do 
rio e as tropas de reserva abatiam os ltimos trtaros que 
corriam, perdidos, em todos os sentidos. Como habitualmente, os 
prisioneiros eram amarrados aos pares, costas contra costas, e 
depois lanados ao cho.
 - Se Ivan Matveivitch for morto, nunca mais me vers, pap - 
declarou Marina num tom duro.

 Loupin atara-lhe os ps por meio de um trapo e, quem olhasse de 
relance, acreditaria que o adjunto Boris Stepanovitch se ferira 
no p. De resto, o velho Loupin mantinha-se junto dele, prova de 
que necessitava de cuidados mdicos.
 - Ivan voltar, Marinouchka, tem calma! - respondia Loupin, que 
observava, de testa franzida, as primeiras colunas de fumo que se 
erguiam sobre a cidade.
 - O Inverno est a chegar e, em vez de procurarem abrigos 
seguros, aquelas cabeas vazias incendeiam as casas em que 
poderiam defender-se tranquilamente do gelo. Se assim 
continuarem, tero de se proteger debaixo dos cascos dos barcos, 
a fim de terem, pelo menos, um tecto por cima da cabea. Mas, os 
cossacos so incorrigveis. A destruio entusiasma-os e depois 
surpreendem-se porque, apesar da vitria, se reconhecem num 
estado lastimvel!
 - Deus do cu, como pude eu merecer tal genro?
 - Prendeste-me - retomou Marina, irritada. - Que pai s tu, 
capaz de manter uma filha prostrada no cho  fora?
 - Foi uma emergncia, minha filha, mas assim ests viva! Quem 
sabe o que te teria acontecido debaixo do ataque das flechas 
inimigas! 
 Loupin passou a mo pela cabea loura de cabelo curto, que 
Mouchkov aparara com a ajuda de uma navalha. Conservara, em 
segredo, um caracol louro que trazia numa bolsa de couro 
pendurada ao pescoo. No se tratava de um gesto supersticioso 
mas, no fundo, esperara que esse pedacinho de cabelo o protegesse 
de todos os perigos.
 - Um pai tem o direito de salvar a vida da filha! - 
justificou-se Loupin, de lgrimas nos olhos.
 - Sabes perfeitamente que  intil protegeres-me e que eu s 
farei o que me apetecer! - replicou Marina, erguendo-se para ver 
melhor os destacamentos em retirada, arrastando atrs de si 
mortos e feridos. Um grupo compacto de trezentos trtaros foi 
empurrado para o rio; esgotados pelo combate, renunciavam  vida. 
Esperavam ser decapitados antes do pr-do-sol, segundo costumes 
mongis.
 - Ajuda-me a levantar-me - pediu Marina.
 - Minha filhinha - suplicou Loupin -, ests ferida... 
 - Ajuda-me! - gritou ela, determinada. - Ou ento anunciarei bem 
alto: este co do Loupin aprisionou-me!
 Loupin libertou finalmente a filha, que se ergueu. Lutava ainda 
contra o seu corao de pai, hesitando entre o castigo e o 
perdo.
 - Onde est Ivan Matveivitch? - perguntou Marina aos homens que 
se aproximavam. - Viste-o? Est vivo? Sabem onde est?
 Os feridos encolhiam os ombros; apenas um deles, um cossaco, 
cujo ombro fora atravessado por uma flecha que no conseguira 
retirar porque a extremidade lhe causaria certamente um grande 
ferimento e s um cirurgio se poderia encarregar de o fazer, 
parou e apontou para a cidade como resposta  pergunta do jovem 
soldado adjunto:
 - Mouchkov e o pope foraram as portas da mesquita. Vi-os lanar 
pelos ares, como uma pedra, um moullah que se dirigia para eles!
 Olhou tristemente para Loupin, mostrou-lhe a flecha cravada no 
ombro e aproximou-se dele, titubeando:
 - Serias capaz de ma retirar, velhote? Privando-te da tua 
conscincia ou no?

 - Julgas-me uma mulher?
 - Senta-te.
 Loupin pegou no punhal que trazia  cinta, afiou-o numa pedra e 
experimentou a lmina, passando-a pela ponta dos dedos. Em 
seguida, introduziu um pedao de madeira na boca do cossaco e 
disse-lhe:
 - Morde, e aguenta-te!
 Despiu a camisa ao cossaco, tacteou a flecha e verificou que no 
penetrara muito profundamente e que no seria necessrio praticar 
uma inciso muito grande.
 Loupin esquecera-se da filha por instantes e, ao voltar-se, viu 
que ela se afastava, correndo, em direco  cidade em chamas!
 - Boris Stepanovitch! - gritou ele, desesperado. - O teu p! 
Ests ferido!
 - Jermak procura-o! - observou o cossaco que tinha a flecha 
enterrada no ombro. -  a segunda vez que o seu adjunto no se 
encontra a seu lado no decorrer de um combate!
 Loupin no respondeu. Tinha conscincia do perigo que Marina 
corria... Quantos dias e semanas passariam ainda a combater! No 
podia reter constantemente o adjunto de Jermak!
 Em seguida, Loupin retalhou a carne do soldado e conseguiu 
extrair a ponta da flecha, enquanto o cossaco mordia o pedao de 
madeira, rangendo os dentes.

Captulo 6

 Ivan Matveivitch encontrava-se satisfeito. Na mesquita, os 
tesouros acumulavam-se  discrio. Lustres dourados, leos 
perfumados contidos em nforas incrustadas de pedras preciosas, 
cofres de prata trabalhada, tapetes de seda; bastava unir os 
quatro cantos de um tapete, maneira muito prtica de transportar 
tesouros.
 Mouchkov optou por um lustre de ouro, um cofre de prata lavrada, 
um punhal cujo cabo reluzia de pedras preciosas. Infelizmente, 
tal objecto originou um diferendo com o pope cossaco Koulakov, 
obrigando-o a aplicar um par de pontaps no ventre do piedoso 
sacerdote.
 - Muito bem! - concordou Oleg Vassilivitch, depois de ter 
retomado o flego. - Guarda o punhal!
 Mas prevejo que em breve o oferecers como homenagem  Santa 
Igreja!
 - Utiliz-lo-ei para te esquartejar o traseiro! - declarou 
Mouchkov alegremente, antes de sair, correndo, da mesquita.
 - Nunca se deve dar pontaps a um pope! No est certo. Um homem 
consagrado tem direito a melhor tratamento e, alm disso, esses 
mtodos profanos desagradam a Deus.
 Mouchkov concordou, pois considerou que o Cu o punira, ao 
enviar-lhe Marina antes de poder ocultar o seu roubo. Com efeito, 
esbarraram um contra o outro na esquina de uma casa. Precisaram 
de gritar para se explicarem, tal era o rudo provocado pela 
pilhagem de todas as casas que se fazia ouvir o estrondo da 
destruio.
 - Que levas a? - perguntou Marina, apontando para o grande 
fardo enrolado num tapete, que Mouchkov carregava aos ombros.
 O corao de Marina transbordava de secreta alegria por o ver 
vivo, embora os seus olhos azuis lanassem chispas.
 - Tenho de levar isto! - respondeu Mouchkov.

 - Desenrola o tapete, Ivan Matveivitch!
 - Marinouchka, a minha nica inteno  subtra-lo  destruio!
 -  a guerra! - rugiu Mouchkov, desesperado, agarrando-se bem s 
pontas do tapete.
 - Volta para a mesquita! - ordenou friamente Marina.
 - Que dizes?
 - Volta para a mesquita!
 - No estive na mesquita, minha pomba, minha rosa, ouve o que te 
digo...
 - Est tudo acabado entre ns, Ivan Matveivitch! - 
interrompeu-o Marina. - Vou imediatamente  procura de Jermak e 
desaperto a blusa  sua frente para lhe mostrar que sou uma 
rapariga! - Afastou-se quando ele pretendeu ret-la e passou por 
ele, afastando-se. - Fica onde ests! - ordenou-lhe. - No quero 
nada contigo!
 - Vou  mesquita - gritou Mouchkov, extenuado. - Olha... vou a 
caminho! Marinouchka, vem c! Meu anjo...
 Na mesquita, encontraram o pope cossaco que, entretanto, 
libertara os colegas muulmanos e os esbofeteava, alinhados  sua 
frente, rodo de prazer, a fim de lhes arrancar a revelao de 
outros esconderijos dos tesouros religiosos. Ao mesmo tempo, 
vociferava com a sua voz potente de baixo, talvez ainda mais 
eficaz do que a sua mo pesada.
 - Meu querido filho... - disse ele a Mouchkov, numa voz muito 
suave, enquanto este desdobrava o tapete  sua frente, 
descobrindo os tesouros escondidos.
 - Um verdadeiro cristo oferece  igreja o que tem de melhor!
 Abraou Mouchkov para lhe agradecer e, simultaneamente, 
mordeu-lhe o lbulo da orelha. Ivan Matveivitch rangeu os dentes 
de raiva e empurrou Koulakov.
 Em seguida, o pope apercebeu-se da presena de Marina e 
abenoou-a com o sinal da cruz:
 - Boris Stepanovitch - declarou num tom inspirado -, tens um 
grande futuro  tua frente se continuares a pensar em mim como 
at agora!
  noite, todos os cossacos se mostravam satisfeitos. O esplio 
era rico, a cidade de Tchinga Toura representava um bom refgio 
para a invernia. Nos arredores segundo informaSes extorquidas 
aos prisioneiros havia uma srie de entrepostos de vveres e 
peles. Mametkoul e os seus dez mil cavaleiros no atacariam, com 
certeza, antes da Primavera. Poderiam, portanto, repousar do 
cansao sofrido ao atravessar os Urales e, quando a neve 
derretesse, atacariam o czar siberiano Koutchoum com fora 
renovadas, a fim de o aniquilar para se apoderarem da cidade do 
ouro, Sibir.
 Em todo o caso, o caminho de Sibir, de Mangaseja, continuava 
livre...
 - Tenho feito tudo o que queres - anunciou, nessa noite, 
Mouchkov a Marina.
 Juntamente com Jermak, ocupavam a casa do prncipe Iepoutcha, 
que fugira, e encontravam-se sentados lado a lado num div 
coberto de sedas chinesas. Do quarto ao lado chegavam risos 
abafados, sussurros, grandes suspiros e guinchos de ratos. Jermak 
distraa-se com uma jovem prisioneira trtara. Mouchkov 
invejava-o profundamente.
 - Quando me conceders, enfim, o que desejo? - perguntou ele 
numa voz embargada.

 - E o que desejas tu, urso velho?
 - Ouve bem o que se passa ali ao lado - suspirou Mouchkov.
 - Ouo piar um passarinho - observou Marina, alegremente. - E 
ento?
 - Porque no h-de ser tambm um passarinho? - balbuciou ele. - 
Um passarinho que fizesse o ninho nos meus braos...
 Marina inclinou-se para a frente, pegou subitamente no rosto do 
companheiro com as duas mos, e deu-lhe um beijo na boca. 
Mouchkov, deleitado, fechou os olhos, no se mexeu e, quando 
Marina o abraou e esmagou os seios contra o seu peito, Ivan, no 
auge da felicidade, quase se esqueceu de respirar.
 Um minuto de indescritvel prazer pode contrabalanar um ano de 
rudes provaSes. Para Mouchkov, o primeiro verdadeiro beijo de 
Marina valia bem cem bnos do pope. Mas, quando julgou que se 
quebrara o gelo que envolvia o corao da jovem e arriscou meter 
a mo por dentro da blusa... ela repeliu-o, meneando a cabea, 
precisamente no momento em que lhe pegava nos seios.
 - Isso no, Ivanouchka - advertiu ela, em voz baixa, com ternura 
e firmeza.
 Do quarto ao lado, continuavam a chegar os risinhos da jovem 
trtara, acompanhada da voz ofegante de Jermak e de outros sons 
confusos, que despertavam nos auditores as mais engenhosas e 
fantasistas visSes. 
 - Martirizas-me at  morte! - gemia Mouchkov.
- Todos eles celebram a vitria sentados em montanhas de objectos 
saqueados. E eu, que tenho eu? O pope, aquele malandro, 
apoderou-se de tudo!
 - Tambm queres ser um malandro, Ivan Matveivitch?
 Mouchkov calava-se. Marina enfiou a camisa para dentro das 
calas cossacas e enterrou o bon vermelho na cabea. Ao lado, a 
jovem trtara continuava a pipilar, enquanto Jermak rugia sem 
parar, como se cavalgasse na estepe atrs de uma raposa. Mouchkov 
revirava os olhos de forma impressionante, torcia as mos e 
olhava fixamente para o tecto de argila seca. "Quem conseguiria 
suportar semelhante destino?", pensava ele. "Se no a amasse, 
arrancava-lhe o uniforme e seria fcil venc-la, mas seria tambm 
o fim de todos os meus sonhos para o futuro."
 Pelas ruas de Tchinga Toura, passeavam os cossacos, hilariantes, 
cantarolando. A retaguarda acabara de chegar, esse bando composto 
de aventureiros, monges, empregados dos Stroganov que, durante os 
combates, se mantinha afastado mas que, passado o perigo, 
retomava a actividade. A passagem dos Urales atrasara muito a 
retaguarda, obrigada a transportar as embarcaSes atravs de 
carreiros perigosos, ao longo de precipcios, descendo ao fundo 
dos vales, passando por cima de impetuosas correntes. Construra 
igualmente pequenas fortalezas, utilizando pedaos de rochedo, a 
fim de assegurarem a retirada, se esta viesse a ter lugar. Em 
particular para os sacerdotes, que no estavam habituados seno a 
elevar o turbulo ou a cruz, por ocasio das bnos, esta 
obrigao de viver em estreita colaborao com a montanha 
representava uma provao quase insupervel.

 Sendo assim, quem os criticar por terem sido os primeiros, uma 
vez conquistada a cidade, a convocar toda a gente para uma 
cerimnia de aco de graas? Mais uma vez, desfraldaram-se os 
piedosos estandartes, reuniram-se os cossacos com as melhores 
vozes para entoarem cnticos. Na mesquita ocupada por Oleg 
Vassilivitch Koulakov, os monges declararam que no acalentavam 
pretensSes quanto aos preciosos bens contidos na casa de Al. E 
foi melhor assim, pois o fogoso padre Oleg no teria hesitado em 
fazer justia por suas mos.
 -  daqui que Cristo partir  descoberta da Sibria... - 
proclamou o enviado do bispo de Ouspensk.- Deus tenha piedade dos 
pagos e os conduza para o seio da verdadeira f!
 Os cossacos de Jermak compreendiam de maneira diferente esta 
sagrada misso. Encarregavam-se do destino dos mveis e objectos 
que tinham pertencido aos trtaros e aos vogulos. Percorriam os 
arredores, arrastavam para fora dos esconderijos pacotes de peles 
e de vveres e, quando deparavam com mulheres, tomavam  letra a 
seguinte expresso do bispo: "trazer nos braos as almas 
perdidas" e ofereciam, a estas delicadas fmeas de olhos em forma 
de amndoa, uma nova concepo da mais fogosa virilidade. Esta 
revelao era transmitida de boca em boca at  capital, Sibir, e 
mesmo entre os prximos de Koutchoum.
 - Aniquil-los-emos! - afirmava o czar siberiano.
- Deixemos passar o Inverno e sero expulsos como lebres das 
margens do Tobol!
 O Inverno, na cidade conquistada, custava a passar. Os nevSes 
sucediam-se e, depois, o gelo petrificava tudo. O Toura gelou, 
tornando-se necessrio abrir brechas, com a ajuda de um machado, 
na crosta de gelo para alcanar os bancos de peixes. Mas estes 
eram de tal modo densos que bastava mergulhar uma rede para 
retirar peixes s centenas, como se estivessem dentro de um 
caldeiro. Os caadores desceram o rio at  confluncia com o 
Tobol; neste ponto, esbarraram com as tropas de Mametkoul, 
encarregados de impedir o avano em direco ao pas de 
Mangaseja. Verificaram-se pequenas escaramuas e nem do lado dos 
Urales reinou a calma. Nesta regio, grupos de ostacos e de 
vogulos assaltavam todos aqueles que se aventuravam 
despreocupadamente pelos contrafortes montanhosos.
 Jermak ordenou que as caadas se processassem sob a proteco de 
um destacamento de cossacos. Os prisioneiros no seriam 
decapitados, circulariam livremente, a fim de propagarem certas 
notcias.
 - No os odiamos! - declarara Jermak depois de os interrogar. Os 
prisioneiros, resignados perante a perspectiva de morrerem, 
esperavam apenas pelo carrasco.
- Consideramo-los irmos infelizes! Mas queremos derrotar 
Koutchoum, esse tirano pago que vive em quartos dourados, 
enquanto o povo vive como os ratos!
 Como sbitos do nosso czar Ivan, sero camponeses livres! 
Adoptem a f crist e partiro em paz...
 Raramente se ter ouvido mentira mais descarada. Os sbitos de 
Koutchoum estavam vivos,  certo, e aceitaram o baptismo, de p, 
em longas filas, de boca aberta perante o pope, e de olhos postos 
nas deslumbrantes vestes sacerdotais, enquanto se ouvia o coro 
dos monges.
 Desamparados, observavam os crucifixos ostentando um homem nu 
que parecia pregado em duas vigas cruzadas.

 Os intrpretes falavam-lhes de Jesus, que se deixara matar por 
amor aos homens, o que eles consideravam perfeitamente estpido 
porque, antes de nos deixarmos matar, devemos despedaar tudo  
nossa volta... Contudo, esforavam-se por admirar e acreditar 
neste acontecimento, como convinha, e recebiam o baptismo e a 
bno do pope.
 Mas por este preo tinham a vida salva e, portanto, mostraram 
aos cossacos onde caar sem restriSes e construram-lhes trens 
muito leves, de fibra entranada, que deslocavam pela neve e pelo 
gelo to rapidamente como uma raposa preta.
 A cidade de Tchinga Toura, semidestruda, foi refeita.
 Os cossacos preferiam esperar pela Primavera bem agasalhados e, 
quando as tempestades de neve sopraram de leste, uivando, quando 
veio da taiga e da tundra um frio cruel que penetrava at aos 
ossos, quando a regio se tornou impraticvel e at mesmo os 
ostacos deixaram de caar, refugiando-se nas cabanas como 
marmotas... comeou uma dura estao para os homens de Jermak.
 Alexandre Grigorivitch Loupin conseguiu colocar-se ao servio 
do pope cossaco. Era o nico meio de permanecer perto de Marina, 
pois a grande residncia do prncipe Iepoutcha encontrava-se 
junto da mesquita e Jermak, Mouchkov e o pope formavam um grupo, 
uma trilogia de camaradas ou, para sermos srios, o 
quartel-general dos cossacos! Discutiam a trs a melhor maneira 
de resistir ao cruel Inverno e, como o adjunto Boris se 
encontrava sempre presente, em todas as discussSes, Loupin tinha 
muitas ocasiSes de contemplar a filha e, por vezes de lhe falar.
 Loupin assobiava a cano do melro que, pousado no ramo de uma 
cerejeira, consola com o seu canto uma jovem apaixonada, quando 
se aproximou do pope. Este, ao ouvi-lo, comoveu-se e as lgrimas 
vieram-lhe aos olhos, pois a desgraa do pas habitava o seu 
corao. O Don! A igreja de Baglodorni pintada de cores vivas, 
as alegres mulheres que vinham confessar-se na salinha do 
fundo... como tudo isto ia longe! Voltaria a viver semelhante 
felicidade?
 O melro pousado na cerejeira...
 - Que queres, Alexandre Grigorivitch? - perguntou o pope, num 
tom dorido. - Desejas uma bno especial?
 - Gostaria de ser sacristo, respeitvel padre - respondeu 
Loupin, baixando humildemente a cabea -, sim, gostava de 
organizar o coro e ser vosso servidor. Sei tanto sobre a arte de 
cantar como sobre a de curar cavalos: o Inverno anuncia-se longo.
 - s crente, no  verdade, Loupin? - perguntou prudentemente 
Oleg Vassilivitch.
 Loupin apercebeu-se da inquietao que a voz do pope traa e 
sorriu quase amigavelmente:
 - Importa distinguir a orao da fraqueza humana, respeitvel 
padre...
 - Falas muito sensatamente, Alexandre Grigorivitch... - E o 
pope gratificou Loupin com uma palmada no ombro to vigorosa que 
ele caiu de joelhos e dificilmente retomou o flego. - Na 
verdade, um homem avisado  sempre til  igreja.

 Assim, Loupin tornou-se aclito do pope cossaco, o que no era 
uma sinecura, como se pode imaginar, visto que, se um cossaco j 
no tem por hbito gastar as solas nos locais sagrados, ainda  
menos frequente v-lo arear cibrios e cruzes douradas e zelar 
pelo bom estado das vestes sacerdotais. No entanto, a sua 
principal ocupao consistia em recrutar para os momentos de 
lazer do pope uma espcie particular de mulheres: esbeltas, bem 
torneadas, de pele branca, de cintura fina e seios fartos, 
cheirando a essncia de rosas e sem vestgios de odor a rano, 
como acontecia a tantas camponesas vogulos, enfim, as requintadas 
bonecas trtaras.
 Quanto aos cossacos, os odores no os preocupavam porque, 
diziam, no se ama com o nariz. Mas o pope Oleg era um 
aristocrata e a sua necessidade de beleza feminina revelava-se 
imenso. Talvez esta gula resultasse do facto de as suas ovelhas o 
terem sempre acarinhado e provido dos melhores alimentos.
 O pope organizara sem demoras a cobrana da dcima sobre os bens 
de cada um, em proveito da Igreja. E, com este intuito, todas as 
semanas partiam trens em todas as direcSes. Mas circulava ainda 
outro tren, abundantemente provido de peles. Era conduzido por 
Loupin, caador de belas trtaras. Quando avistava uma que lhe 
parecia ao gosto do pope Oleg, enrolava-a nas peles e assim, bem 
quentinha, transportava-a em condiSes de ser entregue  Igreja.
 - s um bom companheiro! - observou o padre Oleg, dirigindo-se a 
Loupin, ao qual ofereceu, como testemunho do seu reconhecimento, 
uma rica pulseira mongol, de prata cinzelada e incrustada de 
pedras coloridas, cujo nome todos ignoravam. - Se continuares 
assim, nomeio-te dicono, pois tenho bom corao, irmo.
 Loupin podia, pois, ver a filha Marina e falar-lhe... na igreja, 
no jardim e em casa do prncipe Iepoutcha.
 O amor que Marina experimentava por Mouchkov era, para ela, um 
paraso secreto, mas sentia uma alegria indescritvel durante os 
momentos passados com o pai junto ao aquecedor escaldante, 
sabendo que no era a nica a confiar num homem selvagem que ela 
pretendia aperfeioar...
 O Inverno revelava-se, na verdade, feroz, coberto de neve e gelo 
inquebrvel. A superfcie dos rios formava uma carapaa gelada e 
as florestas mantinham-se impenetrveis, com as rvores 
petrificadas. Estas, por vezes, estalavam ruidosamente, fendidas 
pelo gelo acumulado no seu interior... Para os cossacos um 
Inverno assim era aterrorizador, mesmo bem aquecidos, sempre 
junto aos fogSes. O tdio originava rixas. Insultavam-se, 
batiam-se pelas poucas mulheres que se lhes ofereciam... Mil 
malandrins numa cidade morta, condenados a conservarem-se 
fechados num espao restrito... Jermak no encontrava soluo 
para este problema.
 Em Oriol, passara-se tudo de maneira diferente, havia a "cidade 
cossaca", a casa grande habitada por cerca de duzentas mulheres 
e, alm disso, havia festas, caadas no pas de Perm...
 E outrora, no Don? Oh! Irmos, tentemos esquecer o Don, o Volga, 
o Donetz ou o mar Cspio! Esqueamos as estepes do Sul e as 
radiosas raparigas dos nogais!  de chorar de dor, to cruis so 
as saudades da terra. Jermak, Mouchkov e Marina faziam muitas 
viagens de reconhecimento pelos arredores de Tchinga Toura.
 Num grande tren puxado por renas machos e conduzido por um 
prisioneiro ostaco, partiam nos dias sem vento, deslizando pela 
imensido branca desta regio coberta de neve e desciam ao longo 
do Toura at ao Tobol, objectivo da expedio que prosseguiria no 
ano seguinte. Pensavam embarcar no Tobol para atingir Irtych e 
destruir Sibir, a cidade de ouro, a cidade de Koutchoum.

 Loupin sentia uma enorme angstia sempre que tinha conhecimento 
da partida de Marina. Essas expediSes eram perigosas porque 
cavaleiros de Mametkoul, batedores, percorriam a cavalo toda a 
zona e abatiam como lebres, com as suas flechas silenciosas, os 
cossacos que se aventurassem pelo seu territrio. J se tinham 
verificado incidentes deste tipo por trs vezes. Jermak acabara 
mesmo por proibir as sadas a grupos de menos de 50 homens e 
cinco atiradores. E, como o exrcito de Jermak no dispunha dos 
cinquenta cavalos necessrios, os cossacos estavam condenados a 
permanecer na cidade, bebendo e lutando, o que lhes valia uma 
estada na priso ou a prova do gelo: depois de regados com alguns 
baldes de gua, eram expostos ao ar... A maior parte dos cossacos 
dificilmente resistia a esta prova refrescante... E Loupin, 
obrigado a amputar-lhes os dedos e as orelhas gelados, no tinha 
mos a medir.
 O prprio Jermak enfrentou problemas com os autctones por 
ocasio das suas excursSes de reconhecimento.
 Foi num dia claro, soalheiro, em que o gelo resplandecia. Sob o 
cu muito azul, a neve brilhava de tal maneira que Jermak e 
Mouchkov tiveram de proteger os olhos com uma faixa de pano 
destinada a filtrar a luz. Marina enrolara-se nas mantas e 
enterrara o gorro de pele na cabea. Viajavam em dois trens, o 
deles e um outro, transportando uma escolta de atiradores 
livnios. As renas trotavam na neve endurecida, fazendo ouvir 
cada um dos seus passos e os trens chiavam de tal modo ao 
deslizar sobre o gelo que o solo parecia gritar como uma criatura 
ferida. Embalados pelos solavancos da viatura, nem Jermak nem 
Mouchkov se aperceberam de que o condutor ostaco saltara 
subitamente do assento, rolando vrias vezes sobre si mesmo e 
imobilizando-se na neve inerte. As renas, no se sentindo 
pressionadas pelas rdeas de couro entranado, ergueram 
surpreendidas os focinhos monumentais e, aps alguns momentos de 
hesitao, largaram a galope pela extensa plancie gelada que se 
estendia at ao infinito. O tren em que se encontravam os 
atiradores de elite ficou para trs, ouviram-se gritos, mas 
Jermak, Mouchkov e Marina, enrolados nas mantas, nem os ouviram. 
Apenas se admiraram ao verem as renas embaladas, enquanto o tren 
parecia voar atravs da paisagem.
 - Que belo dia! - gritou Jermak ao ouvido de Mouchkov. - Um sol 
maravilhoso!
 - As renas vo a grande velocidade, o nosso condutor deve 
sentir-se feliz com a viatura!
 Enganavam-se totalmente. O ostaco erguera-se depois da passagem 
precipitada do segundo tren. De p, na neve, com a mo em pala 
sobre os olhos, fixava o horizonte, onde acabava de surgir uma 
mancha negra que se destacava do fundo imaculado da paisagem. 
 Agora, a mancha dividia-se numa quantidade de pequenos pontos 
que comeavam a adquirir forma: eram cavaleiros, vestidos de 
peles bem grossas e usando gorros terminados em bico, tambm de 
pele.  frente, assentes no pescoo dos cavalos, traziam arcos e 
flechas, e lanas, galopando cobertos de pedaos de gelo 
tilitantes, mas ardendo interiormente de dio e desejo de 
exterminar o inimigo. E o tren de Jermak, sem condutor, 
deslizava precisamente naquela direco. Era este o tipo de 
aventuras que Loupin sempre receara enormemente ao pensar nas 
excursSes da filha!...

 Perseguindo o tren de Jermak, os atiradores livnios e alemes 
abriam fogo sobre os assaltantes. Mas era intil, pois o tren 
vacilava e saltava e os homens tinham de se agarrar aos assentos 
com toda a fora enquanto a viatura, que at ento seguira 
sensatamente o tren  sua frente, ganhava, por sua vez, 
velocidade.
 - Aqueles idiotas comearam a disparar! - gritou Mouchkov ao 
ouvido de Jermak. - Nesta regio, porm, no me parece que haja 
raposas!
 Conseguiram desfazer-se das mantas, arrancaram as faixas que 
lhes protegiam os olhos e sentiram-se ofuscados pelo brilho da 
neve.  sua frente, as renas estendiam o pescoo sob as pesadas 
armaduras e as suas pernas esguias e nervosas arranhavam com os 
cascos o solo gelado.
 - O condutor! - gritou subitamente Mouchkov, abanando Jermak 
pelos ombros. - O nosso trtaro desapareceu! Deve ter cado do 
assento e as renas assustaram-se!
 - Os trtaros! - gritou Marina, por detrs deles, com sua voz 
aguda. Ainda se encontrava deitada entre montes de peles e olhava 
intensamente para a fila de cavaleiros que galopavam ao seu 
encontro.- Trtaros por todos os lados! Trata-se de uma 
armadilha, Jermak! 
 Na retaguarda, os atiradores abriram novamente fogo, mais para 
reanimar a coragem, ou para assustar os trtaros com o estrondo 
produzido, do que na esperana de atingir o que quer que fosse a 
tamanha distncia. Presentemente, Jermak e Mouchkov distinguiam 
com clareza a linha dos cavaleiros, que formava um semicrculo, 
armadilha na qual os trens se precipitariam inevitavelmente. 
- Detm as renas! - vociferou Jermak. Libertou-se das mantas que 
ainda o envolviam, tentou pegar nas rdeas, mas estas 
escaparam-se-lhe, escorregando para fora do tren e comeando a 
arrastar-se pelo cho, atrs do veculo.
-  preciso parar os trens - gritou Jermak. - Ivan Matveivitch, 
temos de montar as renas!
- No consigo det-las! - resmungou Mouchkov, olhando para todos 
os lados. Atrs dele, Marina continuava sentada sobre um monte de 
peles, agarrada s paredes laterais do tren.- Temos de saltar! 
Jermak, saltemos!
- Vamos ser esmagados pelos trtaros! - rugiu Jermak como 
resposta.
Rastejou para a frente, debruou-se sobre os enormes patins do 
tren, mas no conseguiu apoderar-se das rdeas que continuavam a 
arrastar-se pela neve. J se ouviam os gritos de contentamento 
dos trtaros.
- Vou saltar para uma das renas! - avisou ento Mouchkov.
O medo de que acontecesse alguma coisa a Marina levava-o a 
encarar as soluSes mais loucas. Rastejou, por sua vez, para a 
frente, at ao assento anteriormente ocupado pelo ostaco e, 
depois, preparou o salto, avaliando a distncia que o separava da 
rena colocada a meio do veculo. Porm, no chegou a saltar. 
Subitamente, Marina colocou-se  sua frente. Sem capote nem 
gorros, protegida do frio apenas pelas calas e pela camisa, 
Jermak gritou:
 - Mouchkov! Agarra-me esse idiota! No tem fora suficiente!
 Mas era demasiado tarde! Mouchkov fechou a mo no vazio... Viu 
Marina saltar, de braos estendidos para a frente, de pernas 
abertas sob um sol resplandecente.

 - Meu Deus! - exclamou Mouchkov. Pelo seu rosto escorriam 
lgrimas que gelavam imediatamente.
 Marina aterrou exactamente no dorso da rena colocada ao centro. 
Enterrou as unhas na crina do animal, ajustou as pernas aos seus 
flancos e sentiu-se to confortavelmente entre os arreios de 
couro como na sua sela cossaca.
 A rena virou o focinho para trs, soltou um bramido surdo e 
arqueou o dorso, partindo a galope. Mas esta tentativa de revolta 
foi intil, pois Marina enterrou nos flancos do animal os tacSes 
das botas, debruando-se para a frente para se lhe agarrar  
armadura e, esforando-se desesperadamente, tentou puxar o 
focinho do animal para trs. 
 Era uma luta sem esperana: o animal esticava os msculos da 
nuca, bramiu de novo e a sua boca exalou um vapor denso e quente 
que, contra o ar glacial, se transformou imediatamente numa 
pesada nuvem.
 - Ivan! - gritou Marina numa voz estridente. - Ivan, ajuda-me!
 Continuava agarrada  armadura da rena, esperando quebrar a sua 
resistncia. Mas os animais continuavam a avanar pela neve ao 
encontro dos trtaros que, de p nas selas, j apontavam os arcos 
e baixavam as lanas.
 - Ivan! Estou esgotada! - gritou novamente Marina.
 O perigo que ameaava Marina deu asas a Mouchkov, foi, pelo 
menos, o que este depois afirmou. Saltou quase ao mesmo tempo que 
Jermak, que tambm envidou os mesmos esforos. Os dois corpos 
partiram pelos ares mas, enquanto Mouchkov caiu ao lado de 
Marina, no dorso da rena da esquerda, Jermak falhou o salto e 
abateu-se violentamente no cho duro e gelado. Meio inconsciente, 
ficou estendido, imvel, coberto de flocos de neve e de 
estilhaos de gelo provocados pelo tren dos atiradores que 
prosseguia a sua corrida infernal e quase lhe esmagou o crnio.
 Mouchkov batia com os punhos no pescoo da rena, gritando: Ho+! 
Ho+! A rena defendia-se. Nuvens de vapor envolviam Mouchkov, o 
animal empinava-se, mas Mouchkov acabou por o obrigar a 
vergar-se, torcendo-lhe o pescoo com mos de ferro.
 - Pra, carcaa! - rugia ele.
 Aps um bramido surdo, a rena abrandou a corrida, imitada pelas 
companheiras, antes de se deter completamente, o que as outras 
tambm fizeram. Marina pde, por fim, dominar a montada. O tren 
dos atiradores de armas de fogo parou ao lado do primeiro. Em 
toda a volta, formou-se uma aurola de bruma constituda pelo 
hlito das renas atreladas e dos homens ofegantes.
 Jermak continuava estendido na neve. Tentou por diversas vezes 
erguer-se, mas em vo.
 Os cavaleiros soltaram um grito frentico, o semicrculo 
fechou-se e depois, em formao compacta, de lana em riste, 
avanaram para os dois trens, precedidos de uma chuva de 
flechas.
 - Marinouchka... - balbuciou Mouchkov. Continuava a cavalgar a 
rena, suado, de msculos ainda trmulos devido ao esforo a que 
tinham sido submetidos.
 - Deixa de choramingar! - lanou-lhe Marina.
 - Marinouchka, esconde-te! - implorava ele.
 - Desaparece! - respondeu-lhe ela severamente.

 A seu lado, os atiradores alemes e livnios tinham finalmente 
recomeado a disparar. Agora, sentados mais confortveis e 
protegidos por grossas mantas que impediam a penetrao das 
flechas, podiam visar com preciso. Os primeiros trtaros caram 
e, sob eles, a neve tingiu-se de vermelho.
 As renas pareciam novamente irritadas. Marina saltou da sua 
montada improvisada, colocou-se entre os animais e obrigou-os a 
baixar o focinho para o cho, puxando pelo freio que lhes 
envolvia as ventas. Mouchkov deixou-se escorregar para o cho e 
tentou agarrar Marina por uma das botas, a fim de a derrubar. Mas 
Marina esperneou e atingiu-o com um pontap na testa.
Mouchkov resmungou e largou-a.
 - Deixa-me em paz! - gritou-lhe ela, na sua voz aguda. - 
Preocupa-te com Jermak.
 - Vais ser empalada pelos trtaros! - vociferou ele. 
- Ah! Bandido, que te arranco a cabea! Stoj! Stoj!
 Correu para o tren, puxou por uma montanha de mantas, voltou 
para junto de Marina e cobriu-lhe o corpo, trmulo de frio.
 Em seguida, sempre a correr, pegou na pistola, no punhal curvo e 
aproximou-se de Jermak, que se ajoelhara na neve e olhava em 
frente, esgazeado. Mouchkov protegeu o amigo com o seu prprio 
corpo, ergueu a pistola e abriu fogo sobre um trtaro que 
galopava ao encontro deles, soltando gritos ferozes.
 Tranquilamente, tal como tinham aprendido, os atiradores alemes 
e livnios visavam os trtaros e, indiferentes s flechas, nenhum 
lanceiro de Mametkoul se aproximou suficientemente deles para os 
atingir. 
 Marina continuava de p entre as renas, protegida pelos seus 
corpos imponentes e pelas mantas retiradas do tren; 
conservava-se energicamente agarrada s enormes cabeas dos 
corcis da neve. Estes, agora, pareciam de uma sensatez exemplar. 
Os seus enormes olhos fixavam cavalos e cavaleiros, abanavam as 
orelhas espantados com todo o rudo produzido, enquanto nuvens de 
vapor esbranquiado se lhes escapava das ventas.
 O ataque falhara, os trtaros foram obrigados a reconhec-lo 
quando viram metade dos seus guerreiros estendidos na neve e 
ensanguentados. Lanaram um ltimo grito de guerra que rasgou a 
atmosfera, deram meia volta e os seus cavalos desapareceram na 
neve, no sol, na reverberao do cu que os engoliu. Levavam com 
eles os cavalos dos irmos abatidos, mas abandonaram mortos e 
feridos.
 Os dois livnios desceram do tren, aproximaram-se de alguns 
inimigos ainda vivos e apontaram as armas.
 Soluo mais humana do que deix-los morrer na neve ou 
transport-los para Tchinga Toura, onde, depois de curados, 
seriam enforcados... Conheciam Jermak, esta emboscada no mais 
seria esquecida!
 Enquanto os atiradores revistavam os mortos, despojando-os de 
anis e de tudo o que lhes pudesse servir, Jermak coxeava em 
direco ao tren, apoiado em Mouchkov.
 Titubeava. O seu sentido de equilbrio parecia alterado, algo no 
seu crebro devia ter-se quebrado. Sofrera certamente um choque 
ao cair no solo gelado. Talvez fosse essa a explicao para 
certos actos de que Jermak foi acusado, mais tarde, pois embora 
sempre tivesse sido malvado, nunca fora um monstro.

 - Tm anis de ouro! - gritou um dos livnios, que se encontrava 
precisamente a despir um trtaro. - Grandes anis de ouro!
 Mouchkov suspirava, pensando em Marina, de p entre as renas, e 
invejava os outros, que no tinham ningum que os impedisse de 
pilhar.
. Foi uma hora quase histrica quando Jermak, emocionado, abraou 
Marina, beijando-a trs vezes:
 - A partir de agora, s meu irmo, Boris Stepanovitch! - disse 
ele.
 Mouchkov tossiu, como se tivesse alguma coisa atravessada na 
garganta, pois estava a pensar nos seios redondos e firmes de 
Marina, apertados contra o peito de Jermak. Mas este possua um 
humor demasiado solene para se aperceber do facto, e prosseguiu:
 - Devemos a vida  tua coragem. Ivan Matveivitch, foi a melhor 
inspirao que jamais tiveste: trazeres Boris daquela aldeia em 
chamas...
 -  o que estou sempre a pensar! - exclamou Mouchkov, fazendo 
meno de tambm beijar Marina mas, desta vez, com a permisso de 
Jermak. Mas ela empurrou-o com brutalidade, enquanto um brilho de 
fria lhe passava pelos olhos azuis. "Que dia de festa! Quando 
penso nisso, tenho a impresso de que o meu apetite aumenta!" Fez 
nova tentativa no sentido de se apoderar da cabea de Marina, mas 
esta repeliu-o, aplicando-lhe uma palmada na mo. 
- Ele no me suporta, Jermak... - declarou. - Talvez no o tenha 
surrado como merecia, um tipo como este s se torna razovel  
custa de coleccionar equimoses!
 - Regressemos a casa! - Jermak inspeccionava com o olhar os 
campos cintilantes. - E aquele que me trouxer a cabea do 
condutor do meu tren receber dez rublos! - Subiu para o tren e 
empunhou as rdeas de couro. - Qual dos dois  capaz de conduzir 
renas?
 - Eu monto a rena da frente - sugeriu Marina. - Julgo que serei 
capaz de me desembaraar!
 - Eu encarrego-me disso! - replicou Mouchkov. - Jermak 
Timofeivitch, o rapaz est meio gelado, no suportar o esforo! 
Enrola-te nas mantas e aquece-te!
 - Sou eu que monto a rena! - insistiu Marina, saltando para o 
animal. - Ivan  demasiado estpido! Ele que se cale, ou 
gelam-lhe as tripas!
 Jermak soltou uma gargalhada, dirigiu-se para o tren, pegou nas 
mantas mais grossas e tapou Marina. Mouchkov andava em volta das 
renas, resmungando e endereando a Marina olhares suplicantes de 
co abandonado.
Ao mesmo tempo, perguntava a si mesmo que tolice teria feito para 
que ela se mostrasse to furiosa. Sentou-se, porm, resignado, ao 
lado de Jermak, de olhos postos em Marina que, numa voz 
cristalina, deu o sinal de partida. As renas avanavam a trote e 
os trens deslizavam, rangendo na neve endurecida.
 O segundo tren, com os atiradores alemes e livnios, seguia-os 
de perto. Os homens riam-se, mostravam uns aos outros os seus 
esplios e gritavam a Marina:
 - Recebers a tua parte! Tens o direito de escolher o que mais 
te agradar!

 - Est bem! - replicou Mouchkov, sentindo um vivo prazer ao 
pensar que Marina seria forada a aceitar uma parte do esplio 
recolhido, e esfregando as mos. "Se ela recusar", pensou ele, 
"no s passar por idiota como magoar os camaradas! Pois bem, 
meu lindo cisne, como te safars desta?"
 - E no se esqueam de Ivan Matveivitch! - advertiu alegremente 
Mouchkov, comeando a cantar a cano do rouxinol dourado 
subtrado por um cossaco da corte do imperador da China.
 Marina voltou-se para trs e olhou de relance para Mouchkov, que 
se sentiu atingido por um raio. Calou-se e preparou-se para 
passar mal a noite, encostado ao grande fogo de barro.
 Mas no se diga que Mouchkov era um cobarde pois, quando 
avistaram ao longe Tchinga Toura, emergindo do pr-do-sol e as 
primeiras patrulhas vieram ao seu encontro, estava decidido a 
evitar qualquer contacto com Marina.
 Logo que chegaram  residncia do prncipe Iepoutcha, retirou-se 
para a mesquita, presentemente transformada em igreja, onde 
Loupin se lanou sobre ele, insultando-o e arrepelando os cabelos 
ao pensar nos perigos a que estivera exposta Marina, a sua 
pequenina, a sua pomba! Como habitualmente, o pope fora o 
primeiro a ser informado sobre a escaramua e Oleg j se 
encaminhara para os bairros dos alemes e dos livnios, para se 
apoderar, em nome de Cristo, de parte dos despojos de guerra.
 - Porque abandonaste Marinouchka? - vociferava Loupin. - Onde se 
encontra? Porque no vem?
 - Est a escolher a sua parte do esplio - respondeu Mouchkov, 
torcendo o nariz.
 - O qu - perguntou Loupin, intrigado.
 - Marina tem direito  sua parte, despojmos os mortos, velhote, 
que queres tu que um morto faa de uma quantidade enorme de anis 
e pulseiras? - Apurou o ouvido, de cabea voltada para a porta, 
para se assegurar de que ningum se aproximava; em seguida, 
apoiando-se firmemente nas pernas, concluiu:
 - Fico aqui porque necessito da proteco da Igreja! 
 Oleg Vassilivitch, o pope cossaco, surgiu uma hora mais tarde, 
de barba hirsuta, pois vira-se obrigado a lutar para convencer os 
atiradores alemes de que a verdadeira f se manifesta 
essencialmente atravs do sacrifcio. 
 - Olha! - exclamou o pope ao avistar Mouchkov. - Que tens tu 
para oferecer?
 - Nada! Cortaram-me a erva debaixo dos ps.
 - No mintas! - vociferou o pope. - Um Mouchkov surripia sempre 
alguma coisa!
 - Um Mouchkov! Oh! padre, que Mouchkov? - Ivan olhou para todos 
os lados e sobressaltou-se quando ouviu a voz de Marina em frente 
da iconostase.
 - Venervel padre! - gritava ela.
 - Aquele malandro! - exclamou o pope alegremente. -  um belo 
rapaz, oferece  Igreja o que sabe ser do seu agrado!
 Enquanto Oleg e Loupin contornavam a iconostase, Mouchkov 
espreitou por uma brecha aberta na parede coberta de cones. Na 
verdade, Marina recebera a sua parte dos despojos e acabava de a 
depor nos degraus do altar: duas pulseiras com incrustaSes de 
prolas, um punhal com cabo de ouro puro sumptuosamente 
lavrado...
 - Meu filho - declarou o pope emocionado, eu te abenoo!

 -  a minha parte - disse Marina, apontando para o maravilhoso 
punhal - e mais isto... - e mostrava as pulseiras cobertas de 
prolas -,  a ddiva de Mouchkov, pela sua salvao!
 - Aleluia! - rejubilou o pope Oleg.
 Ivan recuou e fechou os olhos, abatido: "Se casar com ela", 
disse mais uma vez para si mesmo, "terei de viver como um 
campnio, coisa que um cossaco no suportar!"
 - Onde est Mouchkov? - perguntava Marina, na sua voz 
cristalina. - Atrs da iconostase? Vamos, padre, mostra-mo, 
preciso dele para lhe transmitir uma ordem!
 Sorrindo, Mouchkov contornou a iconostase e viu o pope, que 
examinava as pulseiras, dando estalos com a lngua.
 - Vem comigo! - gritou-lhe Marina, pegando-lhe numa mo e 
arrastando-o at  porta. L fora, na noite glacial, uma vez 
fechado o batente, Marina plantou-se  frente de Mouchkov, bem 
encostada a ele, de olhos brilhantes:
 - Amo-te, grande urso! - murmurou ela, muito baixinho. - Amo-te 
e, presentemente, sei que serei tua mulher.
 Depois desapareceu na escurido, deixando atrs de si um infeliz 
Mouchkov, interiormente consumido...
 Durante toda a noite, Mouchkov aguardou o regresso de Marina, 
mas esta permaneceu inacessvel. To martirizado pelo amor quanto 
pelo medo, Mouchkov errava pela vasta manso do prncipe 
Iepoutcha e saltava para a porta ao mnimo som vindo do exterior. 
Mas tratava-se apenas de alguns cossacos que passeavam pela 
cidade, perturbando a paz nocturna.
 Era impossvel falar com Jermak. A doce trtara encontrava-se de 
novo com ele, e justamente, conversavam deliciados, embora Jermak 
ainda desse mostras de ter o crebro um tanto toldado, depois da 
queda do tren. Tambm sentia dores nos membros e o mais leve 
esforo, mesmo amoroso, prostrava-o como se lhe tivessem batido 
com um peso de chumbo. Perguntar-lhe, nesse momento, onde se 
poderia encontrar Boris Stepanovitch, teria sido perigoso, mesmo 
para Mouchkov.
 "Ela tem de estar escondida em algum lugar", pensava ele, 
"talvez entre os cavaleiros, ou enrolada numa manta de peles, 
recolhida numa cabana abandonada, como um co escorraado. Mas 
porque teria fugido? Por que me deixou, precisamente agora?"
 J a noite ia avanada quando Mouchkov se dirigiu para a 
mesquita, transformada em igreja, a fim de confiar o seu desgosto 
ao padre Oleg. O pope encontrava-se deitado no div em que 
outrora repousara o moullah maometano e ressonava a ponto de 
meter medo.
 Muito encostada a ele, uma jovem de peito farto acordou, olhou 
de relance para Mouchkov, virou-se para o outro lado, e adormeceu 
novamente.
 - Como estou s! - observou Mouchkov, abatido. - Ningum vem em 
meu auxlio! - Vagueou pela antiga mesquita, penetrou nos 
compartimentos desocupados e acabou por encontrar Grigorivitch 
Loupin, que se acomodara no "quarto dos tesouros" e que, facto 
estranho, ainda estava acordado. Mouchkov percorreu com o olhar 
todo o tesouro acumulado no quarto; objectos de ouro e de prata, 
peles e tecidos cujo valor avaliou em algumas centenas de rublos. 
Depois, sentou-se, suspirando, junto de Loupin, na colcha de pele 
de lobo que cobria a cama e descia at ao cho.

 - Marina fugiu! - declarou ele. - Agora, que tinha prometido ser 
minha mulher! Diz-me, onde est ela?
 - Nunca a encontrars.
 - Foi a primeira vez que disse que me amava e, logo a seguir, 
fugiu! Com certeza, estava muito emocionada... Que filha tens, 
velhote! Se Jermak descobre que Boris Stepanovitch  uma 
rapariga... terei de escolher, sem dvida: ou mato Jermak ou 
abandono Marinouchka...
 - E tu preferes...
 - Creio que matarei Jermak! - respondeu Mouchkov em voz surda. - 
Agora, tenho a certeza!
 - Repito-te aquilo que j te aconselhei: fujam! Regressem  
vossa terra! - insistiu Loupin, aps um momento de silncio, 
durante o qual lamentou a sua prpria sorte de pai abandonado. - 
O caminho que atravessa os Urales tornou-se mais fcil, poderiam 
ir de guarnio em guarnio, uma vez que deixmos algumas  
nossa passagem...
 - Um cossaco no deserta!
 - Esquece que s um cossaco!
 - Que queres ento que seja?
 - O homem de Marina... acabars por a encontrar!
 - Na prxima Primavera, haver uma grande batalha...
 - E, ento, ser bom que h muito tenhamos atravessado os 
Urales, Ivan Matveivitch! - E acrescentou, em tom confidencial: 
- Consta que Koutchoum tem dez mil cavaleiros estacionados nas 
margens do Tobol! Ests a ver Marina, obrigada a cavalgar ao lado 
de Jermak,  frente das tropas? Nem consigo respirar, s de 
pensar nisso! Seja como for, ela no regressar  Rssia sem ti. 
Se acompanhares Jermak, t-la-s a teu lado!
 A conversa era sempre a mesma.
 - No posso esperar nenhum conselho! - concluiu tristemente 
Mouchkov. - Vou voltar para casa, para ver se Marina j 
regressou...
 Mal saiu do quarto, Marina soergueu a pele de lobo, abandonando 
o esconderijo, debaixo da cama. Descalara as botas e vestia 
apenas uma camisa leve, pois o quarto encontrava-se aquecido por 
um fogo que libertava um calor penetrante. As pedras de que era 
feito estalavam lentamente, tal era o calor produzido pela lenha 
em combusto.
 - Quando derreter o gelo do Toura, Ivan Matveivitch ser um 
homem diferente! Ouviste-o, pai? Por mim at seria capaz de matar 
Jermak! - Sentou-se na cama, com as mos em redor dos joelhos e 
lanou um olhar cintilante de felicidade aos candeeiros de 
petrleo que iluminavam o quarto. - Eu sabia:  um homem de bom 
corao! Tudo se arranjar e tu tambm acabars por te habituar a 
Ivan, pap!
 - Nunca, filha, nunca! - Loupin encostou-se  porta, pois 
Mouchkov podia voltar, depois de verificar que Marina no 
regressara. Sendo assim, Marina teria de ter tempo de se enfiar 
debaixo da cama! - Nunca esquecerei que ele incendiou a nossa 
aldeia! - acrescentou.
- No lanou um nico archote! - exclamou Marina. - Nesse 
momento, estava ocupado a proteger-me!
 - Queria desonrar-te,  boa maneira dos cossacos!
 - E f-lo?
 Loupin no respondeu: nada ganharia a discutir as virtudes de 
Mouchkov com Marina, que era teimosa como uma burra!

 - Porque te escondes dele? - perguntou o pai, passado um 
momento.
 Marina olhou vagamente em redor e depois, lentamente, respondeu:
 -  de mim mesma que fujo...
 - No compreendo.
 - Amo-o e, se no tivesse fugido, a tua filha j no seria 
virgem... - Marina estirou-se sobre a pele de lobo e dobrou as 
pernas bem torneadas. - Tu no o viste lanar-se sobre a rena, 
torcendo-lhe o pescoo para trs!
 - Mas, Marinouchka, pensei que tu prpria tinhas saltado para a 
rena?
 - Sim, saltei, mas no tive fora suficiente para lutar contra 
um animal to possante. Quando Ivan lhe pegou na armadura, 
senti-a quebrar-se. Puxou pela cabea da rena e, ento, vi que 
Ivan chorava a cavalo no animal. Chorava por amor e medo de que 
me acontecesse alguma coisa e as lgrimas gelavam-lhe no rosto 
como prolas de gelo. Um Mouchkov a chorar por amor! Pap, quase 
morri ao v-lo assim... to feliz me senti!
 - E, no entanto, trataste-o mal e insultaste-o, segundo me 
disse! Tens uma estranha maneira de reconhecer o amor que 
recebes!
 - No podia proceder de outra maneira. - Marina estendeu-se ao 
comprido e cruzou as mos no peito. Loupin, sentado a seu lado, 
passou-lhe a mo pelo cabelo, desajeitadamente cortado por 
Mouchkov. - Se lhe bati, foi por querer bater em mim mesma! 
Poderia beij-lo sob o olhar de Jermak? Nesse momento, teria sido 
capaz de tudo! Compreendes, pap?
 - No! - reconheceu honestamente Loupin. - E pergunto a mim 
mesmo onde nos levar ainda esse teu comportamento.

 De madrugada, Marina penetrou furtivamente na residncia do 
prncipe Iepoutcha. Jermak dormia, exausto, ao lado da trtara. 
Numa outra sala, Mouchkov cochilava junto ao fogo, deitado no 
cho e enrolado numa pele, da qual estreitava uma ponta, como se 
se tratasse de um objecto dos seus sonhos... Sorria e, de vez em 
quando, resmungava. O sonho devia ser extravagante!
 Marina debruou-se sobre ele, beijou-o na testa e, depois, foi 
deitar-se no div coberto de seda oriental.
 Antes de fechar os olhos, teve o cuidado de pendurar o punhal 
curvo  cintura. Permanente defesa contra Mouchkov, que tinha 
tudo a ganhar se continuasse a ser sensato.

Captulo 7

 Alguns dias mais tarde, Mouchkov entrou na igreja, esgazeado, 
cabelo empapado em suor, e implorou, numa voz quase inumana:
 - Santo padre Oleg Vassilivitch, vem em nosso auxlio! Boris 
tem muita febre, est a delirar e no me reconhece! Est to 
quente como uma fogueira incandescente! Tem piedade!
 O pope cossaco apareceu ento, de tronco nu, envergando apenas 
as calas. Sentindo-se apanhado em falta, aplicou imediatamente 
um par de bofetadas to enrgicas na mulher que ousara segui-lo, 
que ela bateu em retirada para trs da iconostase. Do outro lado, 
surgiu Loupin, que procurou conter o pope. Trazia ainda o cabelo 
emaranhado, por se ter levantado da cama.

 - Boris vai morrer nos meus braos! - lamentava-se Mouchkov. - O 
seu esprito j vagueia pelos campos!
 - Reza! - ordenou-lhe o pope, peremptrio. - Permaneceu exposto 
ao frio durante muito tempo! Nem sequer trazia uma pele sobre os 
ombros. Cavalgava uma rena, gelaram-lhe os pulmSes! Entoemos 
juntos o cntico fnebre, meus irmos!
 - Ele no pode morrer! - gemeu Mouchkov. - Jermak j mandou vir 
os nossos melhores cirurgiSes, mas no sabem que conselho dar: 
so capazes de suturar ferimentos, mas no conhecem nada que cure 
a febre! Alexander Grigorivitch, o que  que se d aos cavalos 
em casos como este?
 - Vou procurar um remdio! - respondeu Loupin, retirando-se a 
correr. "Febre", pensava ele, sentindo as pernas trmulas. "Por 
muito infecto que seja, o pope tem razo, se o gelo lhe roeu os 
pulmSes e estes se inflamaram, assistiremos impotentes  morte de 
Marina, nos nossos braos... Marinouchka, seremos enterrados 
juntos... que farei eu sem ti neste mundo?"
 Na residncia do prncipe Iepoutcha, Jermak encontrava-se 
sentado, de ar taciturno, olhar distante. 
 Encostados  parede, dois cirurgiSes ostentavam duas ndoas 
negras na testa, prova da sua incapacidade para. "combaterem a 
febre". Jermak aplicara-lhes uma valente surra quando ousaram 
declarar: "No podemos fazer nada."
 - Algum lhe tocou? - gritou Mouchkov correndo para Jermak. Era 
a sua segunda grande preocupao quando pediu ajuda a Loupin: se 
os cirurgiSes desapertassem a camisa do doente, ficariam a saber 
que se tratava de uma rapariga. Mas, ao ver Jermak sentado  
cabeceira da cama e dois cirurgiSes cobertos de ndoas negras e 
encostados  parede, verificou que o segredo continuava por 
desvendar.
 Mouchkov debruou-se ternamente sobre Marina, que, de olhos 
arregalados, debatendo-se contra a febre, murmurava palavras 
incoerentes. Ao respirar, assobiava como se tivesse engolido uma 
tempestade de neve.
 - So os pulmSes... - sussurrou Loupin, numa voz monocrdica. - 
Deus tenha piedade de ns!
 Pousou no cho a sacola de couro contendo os remdios destinados 
aos cavalos, debruou-se sobre a filha e contemplou-a. Ela no o 
reconheceu... Os seus olhos vidrados fixavam outro mundo.
 - Saiam! Saiam todos! - ordenou Loupin,
 - Porqu - gaguejou Mouchkov.
 - Saiam! - gritou Loupin. - Quero estar s!
 Jermak levantou-se, em silncio, puxou Mouchkov pela manga e 
arrastou-o para a porta. Os dois cirurgiSes seguiram-no, 
aproveitando para se escaparem. Os hematomas inchavam a olhos 
vistos. "PulmSes..." pensavam eles. "Boris Stepanovitch no ver 
o dia de amanh...A febre rebenta com o corao e os pulmSes... 
Jermak, escolhe outro adjunto!"
 Bateram com a porta, ao fech-la. Loupin encostou um ba ao 
batente e comeou a despir a filha, verificando, emocionado, quo 
dotado de graa era este ser, nascido do seu sangue. Pousou o 
ouvido sobre o corao de Marina e ouviu um martelar patolgico. 
A sua pele branca estava quente como cozida no forno e a 
respirao assobiava como vento outonal.
 - Que lhe ests a fazer? - perguntou Mouchkov, gritando atrs da 
porta. - Se ele morrer, mato-te!

 - Eu prprio me encarregarei de o fazer! - replicou Loupin, 
desesperado.
 Esta sinistra troca de palavras deve ter arrancado Marina ao 
estado de inconscincia, pois virou a cabea de lado e a fixidez 
do seu olhar deu lugar a uma expresso sonhadora:
 - Mais uma vez a discutir - murmurou ela, muito fraca.
 Loupin sobressaltou-se, caiu de joelhos ao lado da filha e 
abraou-a, desejando absorver a febre do seu corpo.
 - Pap, tenho tanto frio... - disse Marina de sbito. O seu 
corpo escaldava mas tremia ao mesmo tempo. Loupin tapou-a com um 
cobertor e ps-se a pensar nos cavalos...
 - Preciso de gua fria e de gua quente! - exclamou ele 
apressadamente, voltando-se para a porta. - E de grandes peas de 
pano! Despachem-se!
 Loupin ouviu Mouchkov agitar-se como um diabo, dar pontaps nos 
cirurgiSes, o que imaginou pelo rudo produzido, seguindo-se 
passos precipitados...
 - Vou entrar! - advertiu Mouchkov, do outro lado da porta.
 - Se ousares faz-lo, apunhalo-te! - replicou Loupin, no seu 
papel de pai angustiado e enrgico. - Ento despacha-te!
 Nunca ningum respondeu com tanta prontido a um pedido.
 - Aqui est a gua! - gritou Mouchkov, batendo com os punhos na 
porta fechada. - Deixa-nos ver o rapaz!
 - No se aproximem! - respondeu Loupin que, tendo empurrado o 
ba, entreabriu a porta e se apoderou dos dois baldes de couro, 
um cheio de gua quente e fumegante, outro repleto de gua fria. 
Jermak dera-lhe ainda uma pilha de peas de pano grosso com o 
qual os trtaros confeccionam roupa interior.
 Para o comandante cossaco Jermak Timofeivitch, o destino 
escapava totalmente ao ser humano. Pode levar-se uma existncia 
to livre como as guias... Mas, um dia, ela deixa de obedecer  
nossa vontade... ningum consegue evitar o inelutvel fim.
 Durante todo o dia e toda a noite, Loupin permaneceu  cabeceira 
de Marina, envolvendo-a sucessivamente em panos quentes no peito 
e na cintura e em panos mergulhados em gua gelada nas coxas e 
nos ps, a fim de baixar a febre.
- Ento, como vo as coisas? - perguntou Jermak, muito calmo. Ao 
contrrio de Mouchkov, que se comportava como um louco, ele 
mostrava-se reflectido e imbudo de uma forte determinao.
-  impossvel saber - respondeu Loupin, voltando a fechar a 
porta.- Trata-se de um combate em que ningum me pode ajudar! 
Mouchkov e Jermak renovavam a gua regularmente.
  noite, certamente para acalmar a angstia, Jermak decidiu 
condenar  morte o condutor do tren, responsvel por todos os 
males, que os conduzira  emboscada armada pelos trtaros e que 
uma patrulha acabava de descobrir, escondido numa caverna  beira 
do Toura.
 Infatigveis, portanto, transportavam baldes de couro num vaivm 
incessante, enquanto em grandes fogueiras, os caldeirSes que 
habitualmente continham sopa, se encontravam cheios de gua a 
ferver. A meio da noite apareceu o pope Oleg.
 - J ter morrido? - perguntou ele a Mouchkov, sentado num 
escabelo, diante da porta fechada, aguardando ordens de Loupin. - 
J se pode benzer o corpo? - acrescentou o pope.
 - Arrasto-te pela barba at te arrancar a cabea! - vociferou 
Mouchkov. - Vai para a cama... e sozinho, por uma vez!

 O pope ergueu a mo em sinal de lamento por ouvir tais 
propsitos, esboou o sinal da cruz sobre a cabea de Mouchkov e, 
em seguida, aplicou-lhe um murro no nariz.
 - Aprende o que  o respeito, meu filho! - declarou-lhe, logo 
que o atingido se conseguiu levantar. - Preciso de ver Alexandre 
Grigorivitch! - acrescentou.
 -  ele que est a tratar de Boris Stepanovitch.
 - Mesmo assim, preciso de o ver! - Oleg Vassilivitch cerrou os 
punhos. - Ele , ou no, o sacristo?  a ti que deve obedecer? 
Se Boris tem os pulmSes atacados, seria prefervel liquid-lo 
imediatamente, em vez de o fazer sofrer!
 O que Mouchkov ousou ento fazer - se considerarmos a questo do 
ponto de vista eclesistico - nunca poder ser perdoado, nem por 
mil padre-nossos e dez mil anos de geena: esmurrou o nariz ao 
pope e expulsou-o da sala sob uma chuva de insultos. Chegou mesmo 
a persegui-lo atravs da noite glacial at  porta da igreja... 
para terminar, quando o pope penetrava pela porta que conduzia  
iconostase, ainda lhe aplicou um formidvel pontap.
 Na madrugada do dia seguinte, Loupin saiu titubeante do quarto 
em que se encontrava Marina. Parecia um velho espectro e teve de 
se apoiar em Mouchkov. Tinha os olhos vermelhos e pisados, to 
grande era o seu cansao.
 - A febre baixou... - balbuciou ele, encostando a cabea ao 
peito forte do companheiro. - E j no assobia ao respirar... 
Agora, oremos.
 - Vai l tu, velhote! - respondeu Mouchkov, embargado pela 
angstia. - Pois o pope no consentir em me ouvir.
 - No! Tu  que l vais! Eu fico junto de Marinouchka - Loupin 
afastou-se de Mouchkov. - E traz-nos a sua bno...
 Mouchkov penetrou na igreja humildemente. Oleg, o pope, acabava 
de contornar a iconostase quando ouviu passos e se imobilizou, 
olhando fixamente para Mouchkov.
 Este caiu de joelhos e baixou a cabea:
 - Poderemos vencer a doena, venervel padre! - balbuciou ele, 
embaraado. - Loupin conseguiu que a febre baixasse. Agora, 
precisamos do auxlio do Senhor: fui encarregado de pedir a tua 
bno...
 - O senhor tambm est contigo, Ivan Matveivitch! - declarou o 
pope cossaco na sua voz profunda.
 Aproximou-se e colocou-se, de pernas abertas, diante de 
Mouchkov, que se ajoelhara e lanava ao pope um olhar inquieto.
 Em seguida, Mouchkov foi atingido por uma saraivada de murros, 
no se tendo defendido, pois necessitava da bno do pope Oleg. 
Desfaleceu, desceu trs degraus da igreja rolando sobre si mesmo 
e, de cada vez, a cada pontap recebido, pensava com fervor: 
"Marinouchka, sofro por ti! Vamos! Agora nas costelas! Marina, 
cura-te! Ai! agora na nuca! Marina, amo-te..."
 Quando Oleg se cansou at mais no poder de sovar o paroquiano, 
deu-lhe a bno e chegou mesmo a erguer Mouchkov, a fim de que 
este pudesse sair da igreja bem direito. Com um olho negro, os 
lbios inchados e ndoas negras por todo o corpo, Mouchkov 
reapareceu na residncia do prncipe Iepoutcha.
 - Trago a bno, velhote - declarou ele a Loupin, com alguma 
dificuldade.

 Titubeante, penetrou no quarto em que Marina dormia, envolvida 
em panos at ao pescoo. J no parecia condenada a morrer. Pelo 
menos, foi essa a sua impresso.
 Loupin olhava-o, admirado, prometendo castigar o pope Oleg...
 - Posso... posso... beij-la? - balbuciou Mouchkov, caindo de 
joelhos ao lado de Marina.
 - Podes.
 - Obrigado, velhote. - Mouchkov debruou-se e deu um beijo nas 
plpebras descidas de Marina. Ao erguer-se, pareceu-lhe que 
Marina sorria, adormecida.

 Ainda h milagres neste mundo, como prova o facto de Marina ter 
sobrevivido a uma congesto pulmonar e ter podido abandonar o 
leito ao cabo de seis semanas.
 Mais transportada que apoiada em Mouchkov, Marina deu os 
primeiros passos e Jermak mandou preparar uma refeio festiva. 
Loupin mantivera-se permanentemente  cabeceira da filha e s 
graas  sua presena se no descobriu quem era, na realidade, o 
jovem adjunto Boris Stepanovitch.
 Antes de Marina se sentir suficientemente forte para se 
levantar, Mouchkov cortou-lhe outra vez o cabelo e, assim, nada 
mudou no aspecto exterior de Marina, exceptuando o
facto de ter perdido dez libras de peso, o que a tornava de 
aspecto ainda mais frgil.
 Mas, surgira um acontecimento novo: Oleg Vassilivitch Koulakov, 
o pope cossaco, tambm se encontrava de cama, e h trs semanas. 
Sobre a sua doena, relatava os mais terrveis sintomas. De 
facto, fora atacado impiedosamente por algum quando se 
encontrava deitado. Fora marcado nas ndegas por um ferro em 
brasa, como as vacas. O pope no vira ningum, porque estava 
bbedo e, quando sentiu a dor provocada pela queimadura j era 
demasiado tarde e o brincalho, autor da malvadez, desaparecera.

 O pope estava certo da inocncia de Mouchkov, pois ele nessa 
noite encontrava-se em companhia de Jermak, a discutir a 
necessidade de constituir novas patrulhas e de reforar as j 
existentes. Cada vez mais numerosos e ousados, os velozes 
cavaleiros de Mametkoul assaltavam, com efeito, os transportes de 
abastecimento que os Stroganov enviavam atravs dos Urales em 
direco aos postos dos cossacos.
 Loupin tratou a marca feita a ferro no corpo do pope como se 
este fosse um cavalo. Mas, como o pope no era um cavalo, a 
ferida infectou e Oleg teve de se deitar de ventre para baixo sem 
desconfiar de que o bom samaritano Loupin, que agora o besuntava 
com unguentos, era justamente o responsvel pela sua desgraa... 
abrasadora!
 - Se no estivesses aqui... - chegava ele a dizer a Alexandre 
Grigorivitch -, mesmo assim, faria de ti um dicono...

 Chegou a Primavera. O gelo estilhaava-se  superfcie do Toura 
e dissolvia-se em massas glaucas; a neve derretia, as terras 
impregnavam-se de gua, transformavam-se em vastos pntanos. Os 
caadores, novamente activos, anunciaram que um exrcito acampara 
perto do rio Tobol. E os Stroganov fizeram constar que, nesse 
mesmo ano, contavam com a conquista definitiva de Mangaseja. 
Corria o ano de 1582.

 Os cossacos aperfeioaram os seus barcos e construram novas 
jangadas. Tambm salgaram alimentos e armazenaram os sacos de 
aveia torrada enviada pelos Stroganov. Simultaneamente, 
conservaram milhares de peixes, que secaram ao sol, o que 
provocava um indescritvel fedor.
 Depois, no ms de Maio, apareceu um enviado do bispo de 
Ouspensk, que celebrou ao ar livre uma missa solene, nomeou 
Loupin dicono e aspergiu com gua benta todos os barcos e 
jangadas.
 Iniciava-se, assim, uma nova expedio. Em primeiro lugar, 
teriam de descer o Toura at ao Tobol, depois at ao Irtych e, 
por fim, at ao rio Ob, onde se situava o corao de Mangaseja, o 
paraso desconhecido em que se podia capturar  mo uma raposa 
prateada e estrangul-la. Nessa regio, abundavam os animais.
 Mas, nas margens do Tobol, esperava-os Mametkoul, com os seus 
dez mil cavaleiros.
Na elevao do Irtych encontrava-se estacionado o exrcito de 
Koutchoum, composto pelos melhores guerreiros trtaros.  volta 
de Sibir, a capital do czar siberiano, tinham-se cavado grandes 
fossos e erguido enormes muralhas. Dos confins do pas chegavam 
constantemente novos reforos de combatentes, alertados pelos 
emissrios de Koutchoum. Nenhum chefe regional deixou de 
responder ao apelo de Koutchoum; os trtaros da estepe de Baraba, 
o c Goulei Moursa, os prncipes Janbych, Bardok, Nemtch, Binei e 
Obak. Por fim, apareceu na margem do Irtych o prncipe Oumak e os 
seus cavaleiros lanceiros. 
 Goulei Moursa viera do Sul, de muito longe, a fim de ajustar 
contas antigas com Jermak. O prncipe Janbych comandava os seus 
famosos archeiros e as tropas de Oumak lanavam dardos 
incendiados. Um exrcito inteiro reunia-se para aniquilar alguns 
cossacos a p. Nas margens do Toura surgiam de vez em quando 
batedores que acompanhavam, durante parte do itinerrio, o 
estranho squito de barcaas e jangadas cossacas, desaparecendo 
em seguida. Por diversas vezes, Jermak enviou o barco de 
atiradores alemes para junto da margem, ordenando-lhes que 
disparassem algumas salvas... os cavaleiros de raa amarela, em 
pnico, regressavam velozmente para o Tobol.
 O czar Koutchoum, rodeado pelo seu exrcito e prncipes fiis, 
escutava os relatos dos cavaleiros enviados como observadores, 
considerando que estes relatos continham uma estranha 
ressonncia.
 - Um incomensurvel exrcito russo vem a descer o rio de barco! 
- anunciavam os cavaleiros. - Os barcos e as jangadas so tantos 
que nem se v a superfcie da gua!  frente, vem um barco cujas 
velas so de um vermelho sangrento... Um grande arauto, instalado 
na proa toca uma corneta dourada!... Guerreiros de arcos de prata 
lanam flechas de fogo e sempre que uma flecha  disparada 
eleva-se uma nuvem de fumo, enquanto pelo cu ressoa um trovo 
que abala homens e rvores... Que devemos fazer, Sublime Czar?
 Koutchoum reflectia. Acreditava nestas informaSes, pois os 
homens que tinham escapado s escaramuas do Inverno contavam as 
mesmas coisas. Os Russos possuam a faculdade de desencadear 
trovSes, era uma caracterstica a que teriam de se habituar! Que 
sabia Koutchoum sobre canhSes? Quem suscitava os trovSes e 
parecia comandar os cus eram os artilheiros alemes, instrudos 
nas provncias da Livnia do czar Ivan IV.

 Em meados de Maio, quando os dias j estavam mais quentes e as 
matas nas margens davam lugar s estepes verdejantes, os cossacos 
avanaram pelo rio Tobol. Contemplavam com nostalgia as grandes 
extensSes de erva que lhes recordavam as estepes de Don e do 
Volga.
 Atingiram o Tobol de estandartes desfraldados, batidos pelo 
vento. O navio da frente ostentava a bandeira de Cristo, imagem 
piedosa resultante dos milhares de pontos das bordadeiras da 
famlia Stroganov.
 Na margem, formando uma longa fila, as tropas de cavaleiros 
trtaros seguiam-nos. Viso que se tornara familiar e j no 
preocupava ningum, para alm de Mouchkov e Loupin, sempre 
inquietos com qualquer suspeita que pudesse recair sobre Marina.
 De vez em quando, alguns barcos, acostavam em geral de noite. 
Bandos de cossacos saltavam tumultuosamente para terra e faziam 
alguns prisioneiros. Estes eram interrogados por intrpretes e 
foi assim que Jermak soube sempre as ltimas novidades. Em 
seguida, os prisioneiros eram libertados.
 - Depois de ns, vir um exrcito quarenta vezes superior - 
disse ele aos prisioneiros. - Informem Koutchoum de que ns, os 
Russos, somos invencveis!
 Contudo, uma vez chegados ao Tobol, tiveram de interromper a 
digresso. Vinda da margem do rio, uma chuva de lanas e flechas 
obrigou-os a parar e, alm disso, os rpidos impediam a 
navegao. Foi necessrio puxar os barcos e as jangadas para 
terra e transport-los para l das cataratas, para ento os 
voltar a mergulhar em guas mais clementes. Mas, assim, 
renunciaram ao combate com o exrcito trtaro que, na arriba, 
espreitava os cossacos...
 Tratava-se apenas de uma parte do exrcito de Mametkoul, sob as 
ordens do prncipe Tausan.
 - Acostemos! - ordenou Jermak, depois da frota russa ter estado 
um dia inteiro ancorada no Tobol. No grande barco de Jermak 
encontrava-se uma centena de combatentes, ouvindo as suas 
instruSes. O desembarque deveria realizar-se por vagas 
sucessivas. O primeiro grupo incumbir-se-ia da mais rude tarefa e 
sofreria mais perdas.
 -  obra de um homem digno desse nome! - declarou Jermak quando 
discutiram o plano do desembarque.
- Ivan Matveivitch, encarrega-te do primeiro grupo!
 - Quando pisarmos terra firme, os outros podero ir passear! - 
completou orgulhosamente Mouchkov, olhando de soslaio para 
Marina, que continuava atrs de Jermak e o fixava com os grandes 
olhos azuis, mordendo os lbios. No barco ao lado - o 
navio-capela que compreendia um altar - Oleg Vassilivitch, o 
pope, repetia com o novo dicono um salmo particularmente 
exaltante. Era evidente que o pope se juntaria ao primeiro grupo 
no desembarque. Poder-se-ia pensar dele o que se quisesse, mas 
cobarde no era!
 - Esta noite, quatro barcos atravessaro o rio e sero 
arrastados, em silncio, para a margem oposta - ordenou Jermak - 
Com esses barcos, formem um bastio e, enquanto os trtaros 
atacarem, deslizaremos para jusante.
 Tratava-se, pois, de um comando-suicida, de uma testa de ponte 
que deveria atrair o inimigo a fim de desviar a sua ateno.
 - Aguentaremos! - disse Oleg a Mouchkov quando, no incio da 
noite, remavam to silenciosamente quanto possvel em direco  
margem. - Deus marcou-me... at agora, s tu o sabes...

 - Onde? - perguntou Mouchkov, incrdulo.
 - Na ndega esquerda! - Oleg Vassilivitch meneou a cabea, num 
gesto solene. - Loupin ajudou-me a ver, por meio de um pedao de 
espelho: a cicatriz reproduz a palavra paz! Venceremos, irmo!
- Sempre em silncio, avanaram para terra firme: quatro barcos 
carregados de oitenta cossacos e um pope.
 Mouchkov pensou em Marina, que ficara com Jermak e benzeu-se. 
Puxaram os barcos para terra e no depararam com nenhuma 
resistncia, no viram nenhum trtaro. Com os barcos, construram 
uma muralha circular. Depois, puseram sentinelas de guarda, 
enviaram sinais de luzes a Jermak por meio de um archote e, por 
fim, estenderam-se no cho, dispostos a dormir. Mouchkov 
enrolou-se numa manta e sentiu-se muito feliz por Marina no ter 
vindo.
 Encontrava-se no estado que precede o sono quando se apercebeu 
de que algum lhe puxava pelo cobertor e deslizava para junto da 
tepidez do seu corpo. Mouchkov sentiu-se to surpreendido que se 
esqueceu de gritar.
Limitou-se a avanar a mo para apertar o pescoo do demente que 
assim se introduzia a seu lado: apalpou uma pele suave, 
aveludada, dois seios, uma perna nua que pousou sobre o seu 
corpo.
 - Marinouchka... - balbuciou ele.
 - Sou tua mulher... - murmurou ela; e Ivan teve a impresso de 
que Marina chorava. - Amanh, talvez j no me seja possvel 
s-lo. Haver um amanh para ns? Importa lanar um vu de pudor 
sobre um acto de amor que, a partir da, ligou Mouchkov e Marina 
por toda a vida.
 A sua felicidade era total, embora pesasse sobre o seu 
deslumbramento uma profunda tristeza.  sua volta aguardavam os 
cavaleiros velozes, cruis, do czar siberiano Koutchoum, exrcito 
de dez mil homens, perante o qual mil cossacos de Jermak faziam 
uma triste figura.
A manh do dia seguinte seria decisiva: saber-se-ia se aqui, no 
Tobol, terminaria a conquista da Sibria, assim como o amor de 
Marina e Ivan.
 Amavam-se com uma ternura da qual nunca ningum julgaria capaz o 
selvagem Mouchkov. Sonhara com aquele momento quase durante dois 
anos e o sonho tornara-se realidade! Abraavam-se um ao outro com 
o desejo de serem trespassados pela mesma lana durante este acto 
apaixonado, j que teriam de morrer...
 A ideia constantemente acalentada por Loupin, essa evaso que os 
faria voltar para trs atravs dos Urales, desaparecendo em 
seguida na imensa Rssia, tornara-se impraticvel. Os quatro 
barcos sobre os quais se abrigavam no passariam de uma fraca 
proteco quando a vaga furiosa dos cavaleiros de raa amarela 
desabasse sobre eles! Oitenta cossacos e um pope contra quatro 
mil trtaros, talvez... O melhor seria nem pensar.
 Continuavam, pois, abraados, marido e mulher, para a 
eternidade.
 Exceptuando as sentinelas cossacas que se encontravam de guarda, 
prestes a dar o alarme quando os trtaros atacassem, todos 
dormiam de momento, mesmo Marina e Mouchkov. Oleg, o pope, 
deitara a cabea sobre a bandeira da igreja, com o grande rosto 
de barba hirsuta sobre o rosto de Cristo e, nessa noite, Deus 
aceitou a promiscuidade por se tratar do famoso Koulakov.

 Quanto a Jermak, velava pelo barco ancorado no Tobol, 
perscrutava cuidadosamente a estepe, assim como as longnquas 
fogueiras dos trtaros e, quanto mais reflectia sobre o seu plano 
de combate, mais lhe doa o corao, em particular quando pensava 
no seu amigo Mouchkov.
 - Que se deve fazer? - perguntava constantemente a si mesmo. - 
Sacrificar oitenta homens para poupar a vida de centenas de 
outros? Ou formar em linha e atacar as margens do rio correndo o 
risco de enormes perdas?
 Loupin, que se encontrava no barco-capela ancorado ao lado do 
grande barco de Jermak, trepou at ao rebordo e veio sentar-se 
junto do chefe.  sua volta, estendidos nas tbuas das jangadas e 
dos barcos, os cossacos dormiam ou, ansiosos como Jermak, 
vigiavam o inimigo  distncia. Um cossaco no  um cobarde, mas 
tambm ningum o pode impedir de pensar e, quem soubesse contar, 
no podia deixar de sentir um aperto no peito: dez mil cavaleiros 
contra mil cossacos a p! A bno dos popes no resolveria nada: 
possuir Deus uma espada destinada a decepar crnios trtaros?
 Em geral, os pais pensam agir sempre no interesse dos filhos. 
Loupin tambm, ao perguntar sem segundas intenSes:
 - Onde est Boris Stepanovitch?
 - No sei - respondeu Jermak, taciturno. - Quando falei com a 
tripulao vi-o ao p da vela, mas j l no est!
 - Deve ter partido para terra, na companhia de Mouchkov... - 
balbuciou Loupin, desalentado. - Jermak Timofeivitch, podes 
estar certo de que est com eles...
 - Impossvel, vi-os partir, pois encontrava-me no cimo de um dos 
barcos! Boris no estava l!
 - Ento, seguiu-os depois...
 - No falta nenhuma barcaa...
 Loupin pousou as mos sobre o corao, que parecia saltar-lhe do 
peito:
 - Atravessou o Tobol a nado, Jermak Timofeivitch, Boris  um 
bom nadador... disse-me uma vez... Muitas vezes, em Novo 
Orpotchkov, nadava at aos bancos de areia, para apanhar salmSes 
 mo!
 - Mand-lo-ei chicotear! - respondeu Jermak, ofegante. - Recebeu 
ordens de ficar junto de mim! No tolero desobedincias!
 - Bem podes mandar chicotear o seu corpo mutilado - replicou 
Loupin, soluando. - Amanh, que restar deles? Sabers dizer-me?
 Jermak no respondeu. Os seus lbios crisparam-se: "Mouchkov e 
Boris... vou perder os dois..." pensava ele, e cerrou os punhos 
com tanta fora que as falanges estalaram. "Loupin tem razo: o 
malandro atravessou o Tobol a nado para se juntar ao amigo 
Mouchkov. Trata-se simultaneamente de insubordinao e coragem. 
Que dizer?"
 - Vai para a tua barcaa, velhote - aconselhou Jermak, 
pensativo. - Amanh, ters muitas oraSes a rezar... Talvez 
altere os meus planos. Diz aos artilheiros alemes que estejam 
prontos: talvez ainda esta noite tenham de ir a terra. Se 
ganharmos, s poder ser com o trovo dos cus, como os trtaros 
chamam aos canhSes!

 Aliviado, Loupin sentiu subitamente vontade de beijar Jermak, 
to grato se sentia o seu corao de pai. Mas conteve-se, trepou 
at ao rebordo do barco e desceu para a barcaa que funcionava 
como local sagrado, apressando-se a transmitir a mensagem aos 
artilheiros alemes e livnios.
 Quanto a Jermak, num barquinho muito pequeno, remou sozinho at 
 margem e acostou no local em que se encontravam reunidos e 
aguardando os oitenta candidatos ao suicdio. Queria conferenciar 
mais uma vez, antes do amanhecer, com Mouchkov.
 Para comear, foi assaltado por duas sentinelas cossacas, que o 
derrubaram. Quando se aperceberam do erro cometido, arrepelaram 
os cabelos, mas Jermak felicitou-os e partiu sozinho para o 
pequeno forte constitudo pelos barcos justapostos.
 No lhe foi difcil encontrar Mouchkov, bastou-lhe dirigir-se 
para o ponto donde vinha o poderoso ressonar do pope Oleg 
Vassilivitch. Tendo avistado, com um esgar trocista, o rosto do 
pope contra a santa imagem do Salvador, descobriu Mouchkov alguns 
passos adiante, enrolado no seu cobertor.
 Jermak deteve-se, ento, considerando e encarou o amigo, na mais 
penosa confuso. Junto de Ivan, debaixo da mesma manta, 
encontrava-se Boris Stepanovitch, ambos nus. E estreitamente 
enlaados. Jermak no distinguia pormenores, apenas o tronco nu 
de Mouchkov e, abraado a ele, como um cachorro adormecido, o 
louro Boris, cuja cabea repousava no seu ombro. De resto, deste 
ltimo, Jermak apenas via as costas nuas, brancas, atravs da 
penumbra.
 Mudo, literalmente possudo por tal viso, Jermak devorava com 
os olhos os dois rapazes. No se pronunciou, no os destapou, no 
pegou no chicote que trazia sempre  cintura, e cujas tiras de 
couro terminavam em garras de ao, sentiu-se simplesmente 
acossado, como perante um sentimento de luto indescritvel em 
relao ao amigo, capaz de tais desvios: um cossaco fazendo amor 
com um rapaz... parecia-lhe de tal modo absurdo que Jermak se 
esqueceu de reagir com toda a sua crueldade pessoal.
 "Deix-los-ei morrer em combate", limitou-se a pensar, "morrer 
honradamente. Custar-me-ia enforcar Mouchkov e Boris, mas tambm 
no irei em seu auxlio quando os trtaros os atacarem. Ivan 
Matveivitch, como podes proceder assim?"
 Voltou atrs, passou perto de Oleg e apertou-lhe o nariz. O 
pope, incapaz de respirar, sobressaltou-se e, recordando-se do 
incidente nocturno que lhe valera uma marca de ferro em brasa, 
tentou debater-se, mas Jermak pegou-lhe a tempo nos pulsos e 
estendeu-o no cho.
 - Sou eu, Oleg Vassilivitch - murmurou ele, muito baixinho.
 - Jermak! - O pope acalmara-se. - Que se passa? Mudaste de 
ideias?
 - Aconselho-te a regressares ao rio - sussurrou Jermak -, porque 
aqui morrers.
 - E os outros?
 Jermak calou-se, o que constitua resposta suficiente.
 O pope meneou a cabea.
 - Sou sacerdote - disse -, como poderia abandon-los? Combatem 
sob a bandeira do Senhor. Jermak Timofeivitch, por quem me 
tomas?
 - Perderei, ento, trs amigos - respondeu Jermak, angustiado. - 
No sei que fazer.
 - Trs amigos? - repetiu pope, erguendo-se.
 Ao longe, a oriente, surgiram os primeiros alvores. Era de 
madrugada.

 - Serei um lobo solitrio, Oleg Vassilivitch, mortfero e 
cruel. Deus te guarde! - Jermak aprumou-se, lanou mais um olhar 
a Mouchkov e Boris e mordeu o lbio inferior. A pele nua dos dois 
rapazes brilhava na escurido. "Que desfaatez!" pensava ele, 
amargurado. "Tm de morrer..."
 Dirigiu-se para a margem do rio, sentou-se no bote e remou em 
direco ao grande barco do chefe. Loupin aguardava-o.
 - Viste Boris?
 - Est com Mouchkov! - respondeu Jermak, num tom duro. - E com 
Mouchkov ficar! - acrescentou.
 - Sempre  verdade que atravessou o rio a nado?
 - , tal era a pressa de se juntar ao amigo Ivan!
 Agora, o corao de Jermak batia descompassado: apoderara-se 
dele uma raiva surda. Lamentava no ter abatido de imediato os 
dois cmplices.
 - E... vais deix-los morrer? - balbuciou Loupin.
 - Vai-te embora para a tua barcaa de imagens sagradas! - gritou 
Jermak, atingindo o paroxismo do sofrimento. - s dicono e 
mdico de cavalos, mas no s cossaco! Deixa-me em paz, velho!
 Pouco depois, os artilheiros alemes desembarcavam com as trs 
peas de artilharia, que montaram em terra, reunindo balas e 
barris de plvora e carregando os canhSes pela boca. Em seguida, 
acenderam fogueiras para os bota-fogo, sentaram-se junto dos 
barris e comeram peixe grelhado mas frio, para ganhar foras.
 No horizonte, a noite desvanecia-se aos poucos, surgiram zonas 
claras no cu, o dia deslizou pela estepe verdejante e os 
primeiros alvores permitiram avistar o acampamento dos trtaros.
Tendas contra tendas, feitas de peles curtidas e esticadas ao 
alto, um mar tumultuoso de cavalos, nuvens de fumo elevando-se de 
centenas de fogueiras, uma floresta de lanas... O prncipe 
Tausan, o comandante-chefe deste exrcito, reunia os cavaleiros, 
enquanto Mametkoul aguar dava mais ao longe,  beira do Tobol. 
Foi ento que os cossacos descobriram outra coisa: os trtaros 
no s se encontravam estacionados  sua frente, como tambm 
lateralmente se avistavam aglomerados de tendas, que comeavam a 
desenhar-se nas brumas matinais. 
 O plano de Jermak, que consistia em desviar os trtaros e, em 
seguida, desembarcar mais adiante, tornara-se impraticvel. To 
longe quanto se podia ver, os cavaleiros de Koutchoum aguardavam, 
ao longo do rio Tobol.
- Devemos retirar? - perguntou um dos adjuntos de Jermak.
 Nos barcos, encontravam-se os outros popes, entoavam-se coros de 
igreja. Loupin, o novo dicono, mantinha-se em frente do altar e 
rezava uma orao com tanto fervor que as lgrimas lhe deslizavam 
pelas faces enrugadas. - Retirar? - repetiu Jermak perante os 
homens da sua centria.- Essa palavra existe, irmos? Vamos, em 
frente! Cantando - e mil vozes se elevaram ao mesmo tempo, 
criando uma espcie de furaco - os cossacos desembarcaram na 
margem do Tobol. Em longas filas de vrias linhas, os cavaleiros 
do prncipe Tausan lanaram-se ao seu encontro.

Captulo 8


 Mouchkov foi o primeiro a acordar porque, perto dele, o pope 
Oleg cravava no cho, tossindo muito alto, o estandarte de 
Cristo. Mouchkov puxou energicamente pelo cobertor e tapou as 
costas nuas de Marina.
 - Bom dia, respeitvel padre - cumprimentou ele -, logo de manh 
to ruidoso?
 - A aveia torrada mata-me! - vociferou o pope. - Trago os 
intestinos inchados como odres! Vamos, cossacos, de p, chegou o 
dia da vitria! Aleluia!
 Na desordem do despertar geral, ningum viu Marina, que se 
vestiu rapidamente debaixo do cobertor de Mouchkov. Quando se 
levantou, voltara a ser o esbelto adjunto Boris Stepanovitch. 
Mouchkov ainda vagueava  sua volta, de tronco nu, rosto 
brilhante da felicidade que vivera durante a noite, da realizao 
dos seus sonhos, e esta alegria era mais forte do que a iminncia 
da morte.
 - L esto eles, os trtaros! - gritou ele. - Mantenham o 
sangue-frio, irmos, deixem-nos aproximar o suficiente e 
desencadearemos um ataque to cerrado que julgaro que a terra 
est a explodir! Calma, meus amigos, calma!
 Mas, subitamente, deixaram de estar sozinhos. Os camaradas 
surgiam de todos os lados, arrastando armas pelas margens do rio, 
trazendo as barcaas para terra firme e barricando-se atrs 
dessas grandes embarcaSes de tbuas que, erguidas umas contra as 
outras, formavam uma barreira que nenhum cavaleiro conseguiria 
transpor. A tctica dos Stroganov, que consistia em conquistar a 
Sibria, no a cavalo, mas de barco, revelava-se extremamente 
astuciosa.
 Assim, um milhar de homens arrastaram atravs da Sibria as suas 
fortalezas de madeira - supremo esforo, nico no gnero!
 De todos os lados surgiam ordens. Os atiradores experimentavam 
as armas de fogo, os popes, um por cem homens, erguiam as cruzes 
espetadas no cimo dos piques, os porta-estandartes desfraldavam 
auriflamas e imagens sagradas. Entre duas barcaas erguidas ao 
alto, mantinham-se perfeitamente calmos os artilheiros alemes e 
livnios, prontos para utilizarem as suas peas de artilharia.
 Arvorando uma expresso sinistra, Jermak penetrou no pequeno 
bastio formado por barcos em que Mouchkov e Marina tinham 
passado a noite. Oleg Vassilivitch, o pope, trocara a cruz 
contra uma pistola de cavaleiro e um punhal de lmina curva. 
Mouchkov e Marina, ajoelhados atrs de um barco, vigiavam os 
trtaros.
 - Agradeo-te por teres vindo em meu auxlio, Jermak 
Timofeivitch! - disse Mouchkov, quando Jermak lhe acenou para 
conversarem longe dos outros.
 - Como  que Boris Stepanovitch veio aqui parar? - perguntou 
Jermak, sem dar mostras de ter ouvido os agradecimentos.
 - Apareceu de repente.
 - Quando?
 - De manh, quando o pope nos acordou, j se encontrava de p no 
acampamento... - mentiu Mouchkov, aparentando um ar inocente. - 
Perguntei a mim mesmo o que estarias tu a preparar, enviando-me 
assim o teu adjunto? Mas agora j sei: mudaste de ideias, no 
queres condenar  morte um velho amigo.

 Jermak conservava-se em silncio. "Que se passa com Ivan 
Matveivitch?..." pensava ele, contristado. "Mente-me, trai o 
melhor amigo, partilha o mesmo cobertor com um rapazola! Se no 
se tratasse de Mouchkov, cortava-lhe o pescoo com um golpe de 
sabre! Esfalfmo-nos durante doze anos atravs da Rssia, do 
Volga ao mar Negro, das estepes do povo Negai s pastagens dos 
moscovitas. O czar condenou-nos  morte, fomos perseguidos como 
feras e conseguimos sempre escapar."
 "Ivan Matveivitch, d graas ao Senhor se morreres nesta 
batalha, poupa-me o dever de matar o meu melhor amigo..."
 Era um dia claro de Maio, sem nuvens, uma cintilante manh de 
Primavera. A erva da estepe brilhava, muito verde mas, para l 
dessa extenso que estreitava cada vez mais, s havia cavalos e 
cabeas gritando improprios.
 Os trtaros avanavam.
 Os artilheiros abandonaram a sua impassibilidade e prepararam-se 
para lanar fogo s peas. Os atiradores apontaram para o inimigo 
e, a seu lado, os soldados de infantaria espetaram as lanas de 
travs no solo, formando assim uma barreira acerada na qual se 
viriam empalar os cavaleiros asiticos.
 O prncipe Tausan cavalgava na fila da frente.
 - Por Al e pelo seu profeta! - gritara ele, dando o sinal do 
ataque. Como Koutchoum, era muulmano, mas os seus cavaleiros - a 
quem pedia que morressem pelo profeta - pensavam de modo 
diferente. Vindos dos confins da sia, sucessores do grande 
Gengisc, filhos dos longos rios de vagas prateadas e do deserto, 
das estepes infindas e das florestas silenciosas, em que lhes 
poderia interessar Al? Aniquilar os Russos, cortar-lhes o 
pescoo, apoderarem-se das suas armas... s isso contava. O que 
, ento, um profeta?
 Jermak permitiu que os cavaleiros asiticos avanassem at se 
encontrarem ao alcance das armas. Ergueu ento o seu sabre bem 
alto e os artilheiros lanaram fogo s peas. Imaginem o 
espectculo de um cu puro, de um sol radioso, de um azul 
infinito no qual, subitamente, explodem raios e trovSes... Foi o 
que aconteceu. Estrondos fantsticos, enormes explosSes encheram 
a atmosfera, ergueram-se fumos e nevoeiros e, depois, a mo 
celeste abateu-se sobre as filas de cavaleiros inimigos e abriu 
trs brechas terrveis... seguidas de uma saraivada crepitante 
que matava redondamente homens e cavalos.
 Os atiradores de armas de fogo encontravam-se distribudos por 
quatro grupos e, depois do ltimo homem ter disparado, os 
bacamartes do primeiro grupo j estavam novamente prontos para 
atirar, semeando a morte nas fileiras trtaras.
 Hoje em dia, falar-se-ia de uma linha de tiro... mas, em 1582, 
os trtaros pensaram apenas na interveno de uma fora 
supraterrestre!
 A trovoada, a chuva de ao, era de mais para os peque nos 
cavaleiros asiticos. Deram meia volta nas suas montadas e 
fugiram a galope pela estepe adiante. S um pequeno grupo de 
cerca de duzentos cavaleiros se manteve ao lado do prncipe 
Tausan. Era a guarda montada pessoal de Koutchoum, que viera 
reforar o confronto.
 Quanto aos artilheiros alemes, continuavam a carregar as peas 
com os seus gestos rpidos e o seu domnio absoluto, apontando de 
novo os canhSes.
 Jermak, que continuava perto de Mouchkov e Marina, aplicou uma 
palmada nas costas de Marina:
 - Metade de cada formao ao assalto! - gritou ele.
 -  frente, os besteiros V, corre, filho da me.

 Marina preparava-se para transmitir as ordens de Jermak, quando 
Mouchkov a reteve:
 - Eu encarrego-me disso! - declarou ele.
 - Foi a Boris Stepanovitch que dei ordens! - vociferou Jermak. - 
Ele sabe correr!
 - Eu sou mais veloz, Jermak!
 - Deixa-o! - Jermak deu uma palmada no brao de Mouchkov com 
tanta violncia que este sentiu os dedos paralisados. Largou 
Marina, que se afastou, correndo, acompanhada por uma chuva de 
flechas lanadas pelos cavaleiros de Tausan.
 - Tens medo de que lhe acontea alguma coisa, no ? - rugiu 
Jermak, apertando o pescoo de Mouchkov com as duas mos. - Podia 
ser atingido por uma flecha, o querido! Quanto a ti, corre em 
direco oposta! Corre para os trtaros e trata de ser atingido 
mortalmente!
 Com os olhos a sair das rbitas, sufocado e horrorizado com o 
aspecto do rosto de Jermak, desfeito pelo dio, Mouchkov encarou 
o amigo, mas depois afastou-se no sentido da muralha constituda 
pelos barcos. Instintivamente, pegou no punhal curvo, enquanto 
Jermak tambm retirava o seu da cintura - e mais depressa do que 
Mouchkov. 
 - Qual de ns dois sobreviver, Ivan Matveivitch?
 Os olhos de Jermak lanavam chispas e Mouchkov pensou, 
horrorizado: "A queda no solo gelado desarranjou-lhe o juzo, j 
no  Jermak, o meu amigo,  um animal que se assemelha a Jermak! 
Deus nos ajude! Como poderemos conquistar Mangaseja com ele neste 
estado?"
 - Ests louco, Jermak! - balbuciou Mouchkov.
Uma nova salva de artilharia interrompeu-o. Jermak apenas viu que 
Mouchkov mexera os lbios. Nesse momento, Ivan Matveivitch, 
empunhando o sabre, avanou para ele, prestes a atacar.
 - Depois no digam que um pope s serve para rezar e distribuir 
bnos!
 Oleg, habituado  violncia dos seus cossacos, no procurou 
saber o que se passava entre os dois contendores. Usando de toda 
a sua fora, assentou o pau da bandeira na cabea de Jermak e 
aplicou um formidvel pontap no ventre de Mouchkov. Quando os 
dois homens caram por terra, desfalecidos, soltou um grunhido de 
satisfao e regressou para junto dos artilheiros, gritando na 
sua voz de baixo:
 - Pela vitria do Salvador... em frente!
 Era o que Jermak teria ordenado...
 Foi assim que o prncipe Tausan e sessenta e nove dos seus 
cavaleiros se constituram prisioneiros dos cossacos. Extenuados, 
deixaram-se escorregar das selas e aguardaram o golpe mortal. Mas 
ningum lhes tocou, o que era uma novidade para os trtaros.
 - Os prisioneiros so nossos aliados - decretava Jermak antes do 
combate. - Propagaro a nossa glria por todo o pas!
 Guerra psicolgica - chamar-se-ia nos nossos dias.
 Nessa manh, os cossacos apoderaram-se, pois, de todo o squito 
do prncipe, apenas dezanove cavalos, embora secretamente 
esperassem mais; mas, por outro lado, entraram na posse de muitas 
armas, tendas, todo um rebanho de carneiros, pipas de mel, ch e 
at um harm de campanha contendo dezassete encantadoras jovens 
da Monglia, de olhos fogosos.

 - Confiscado! - declarou o pope Oleg, o primeiro a chegar ao 
local, farejando a presena deste sedutor tesouro como o camelo 
fareja gua no deserto. - Que o fogo do cu aniquile quem lhes 
tocar! Alexandre Grigorivitch, abre os olhos!
 Loupin, pai feliz que vira regressar do combate a sua Marina bem 
viva, encarregou-se de colocar duas sentinelas diante da tenda 
das mulheres e colocou-se a si mesmo no centro desta assembleia 
de jovens criaturas, intimidadas mas ruidosas, que lanavam 
olhares intrigados. E Loupin perguntava a si mesmo se o pope 
resistiria a tanto trabalho...
 Jermak e Mouchkov, estendidos no fundo de um barco, recobraram 
os sentidos depois de ganha a batalha. As tropas cossacas j se 
tinham lanado ao assalto dos acampamentos trtaros e 
entregavam-se  pilhagem.
 Os dois adversrios olharam-se em silncio. Tiveram ambos o 
mesmo pensamento: obteve-se uma grande vitria sem a nossa 
presena! Ns, os condutores dos cossacos! Quando os outros 
souberem, matam-se a rir!
 - Jermak Timofeivitch... - articulou Mouchkov, hesitante. - Vou 
matar o pope!
 - Vamos ficar calados, Ivan Matveivitch - respondeu Jermak, com 
a voz embargada. - J soubemos calar-nos por outras razSes...
 Uma hora mais tarde, Jermak concedia uma audincia ao prncipe 
Tausan, seu prisioneiro. Espetados em lanas, assavam-se os 
primeiros cabritos; os religiosos celebravam missas de aco de 
graas; s o pope dos cossacos no comparecera  festa. 
Encontrava-se deitado num div, na tenda das mulheres, rodeado 
por dezassete exticas, .esbeltas e ruidosas mongis.
 Por que se dir que s se alcana o paraso depois da morte?

  noite - Mouchkov fora enviado com um destacamento para 
escolher o novo local de embarque - Jermak levantou-se para ir  
procura do seu adjunto Boris Stepanovitch. Tomara uma deciso... 
sentia-se mais preso ao seu velho amigo, que conhecia desde 
sempre, do que a este rapazelho louro e atraente das margens do 
Volga.
 Encontrou Marina no campo de batalha, onde ainda havia feridos. 
Ningum se preocupava com eles. Comearam por gritar, depois 
passaram a gemer e, agora, silenciosos, resignados, aguardavam o 
destino. Marina sentara-se no meio deles, na sela de um cavalo, e 
aplicava um penso num trtaro, cuja perna se encontrava 
dilacerada. Reconhecido e ao mesmo tempo surpreendido, o asitico 
observava o caritativo cossaco.
 - Andas  procura de outros homens? - inquiriu Jermak, 
grosseiro, dirigindo-se a Boris. - J no te basta um cossaco? 
Agora precisas de um trtaro?
 Deu um pontap no ferido, que rebolou pelo cho, detendo-se 
junto de um cavalo morto que se encontrava mais atrs. Ali ficou, 
todo dobrado. Marina no disse uma palavra; calmamente, ps no 
cho o pano de algodo com que tencionava envolver a perna do 
ferido, retirou da cintura o punhal curvo e, tambm com muita 
calma, pousou-o nos joelhos, atravessado. Os olhos de Jermak 
pestanejavam.
 - Pretendes lutar comigo? - perguntou ele, numa voz 
perigosamente suave. - Tu, filho da me, ousas provocar-me?
 - Uma vez, chamaste-me irmo. - Marina encarou Jermak de frente. 
- Ignoro como fala Jermak aos seus irmos, mas espero o pior!

 - Ainda bem que assim , grande safado! - gritou Jermak. - O 
tribunal dos cossacos est reunido e o tribunal
sou eu! Ests condenado  morte!
 - Compreendo. E posso saber por que razo? - perguntou Marina, 
perfeitamente tranquila.
 "No tem medo", pensou Jermak, aflito. "Sabe que vai morrer j 
de seguida e continua sentado como se estivesse  espera de um 
pedao de cabrito assado! Que sangue-frio! Oh, sacripanta, porque 
mantns relaSes imorais com Mouchkov?"
 - Amas Mouchkov? - articulou Jermak, com extrema dificuldade. S 
o facto de falar do assunto sem rodeios equivalia a uma 
condenao  morte...
 E Marina respondeu numa voz lmpida:
 - Sim, amo Ivan Matveivitch...
 - Ousas dizer-mo? - vociferou Jermak. Remexeu no punhal, mas 
Marina tambm ergueu uma lmina afiada.
 - Vi-os aos dois! Esta noite! Estavam deitados, nus, debaixo do 
mesmo cobertor!
 -  verdade - respondeu Marina, sem hesitaSes. - Foi a primeira 
vez mas, de futuro, ser sempre assim... 
 - Pois eu diria que foi a ltima vez! - gritou Jermak, que j 
no se dominava. - No permitirei que desvies o meu amigo 
Mouchkov!
 Ergueu o punhal, ou antes, tentou faz-lo, pois, nesse mesmo 
momento, uma flecha veio penetrar subitamente no msculo do 
antebrao. Jermak largou o punhal e deu uma volta sobre si mesmo 
com a rapidez de um raio, mas no avistou nenhum arqueiro...
 Em toda a volta, s havia feridos que apenas pensavam em 
sobreviver e no tinham veleidades de atirador.
 - Nem isto te salvar! - ameaou Jermak, tentando retirar a 
flecha do brao. A dor tornava-se intolervel, s um cirurgio 
seria capaz de o salvar. E se a ponta estivesse envenenada? - 
Mandar-te-ei afogar no Tobol, sob o olhar de Mouchkov!
 - Pela simples razo de o amar?
 - Filho da puta! - Jermak tremia de raiva. - No h homossexuais 
entre os meus cossacos!
 Marina ergueu-se lentamente do assento improvisado.
Olhava para a flecha espetada no brao de Jermak; sabia que 
algures, ali perto, se encontrava escondido o pai e que, 
portanto, nada lhe poderia acontecer. Nem agora, nem nunca, se 
Jermak tivesse corao...
 "Chegou a hora, pai", pensava ela, olhando para trs.
"J esperava, mas no hoje,  certo... pois tencionava confessar 
tudo a Jermak depois de conquistarmos Sibir e Mangaseja se abrir 
 nossa frente..."
 - Que queres tu dizer ao falar de amor entre homens, Jermak 
Timofeivitch? - perguntou ela, em voz alta.
- De que acusas Mouchkov?
 - Estavas deitado com ele, todo nu! Debaixo do mesmo cobertor! - 
gritou Jermak.
 Tentou debruar-se para pegar no punhal com a mo esquerda mas, 
com um pontap, Marina afastou a arma para longe.
 - No! No como homem! - proferiu ela, tranquilamente. - Olha 
para mim, Jermak. Sou um homem?
 E Marina desapertou bruscamente a camisa cossaca.

 Loupin encontrava-se deitado atrs de um cavalo morto. Abafou um 
grito e gemeu interiormente: "Que ests a fazer, minha filha? 
Isto vai acabar mal..." Inspirou profundamente e apontou o arco 
ao corao de Jermak.
 Este, de olhos esgazeados, fixava o adjunto Boris Stepanovitch. 
 luz do entardecer, entre o reflexo vermelho do sol que 
transformava a estepe num tapete de prpura, como nas margens do 
Don antes do crepsculo, e to admiravelmente que o corao se 
lhe apertava, dois seios perfeitos brilhavam  sua frente, 
cintilando na sua pele acetinada.
 - Quem s tu? - perguntou Jermak, numa voz abafada. A flecha 
queimava-lhe a carne, mas a viso da rapariga acalmava todos os 
sofrimentos.
 - Marina Alexandrovna - respondeu ela, tapando o peito. - Depois 
de conquistarmos Sibir, passarei a chamar-me Mouchkov. - Em 
seguida, voltou-se, pegou no punhal curvo e estendeu-o a Jermak. 
- E agora, se quiseres, mata-me!
 Como matar tanta beleza? Quem levantaria a mo para enterrar um 
punhal entre seios to inocentes? Mesmo para Jermak, clebre pela 
crueldade, tornava-se impossvel punir Marina por ser uma 
rapariga.
 - Regressa ao acampamento - ordenou ele, com a voz embargada, 
tentando acalmar com a mo vlida os tremores do brao ferido; os 
nervos comeavam a reagir  presena da flecha.
 - E que acontecer a Mouchkov? - perguntou Marina.
 Embainhou novamente o punhal na cintura, recuperou o famoso bon 
vermelho que se encontrava em cima do cavalo morto e enterrou-o 
nos cabelos louros.
 No muito longe, agachado entre cadveres de cavalos, Loupin 
confundia-se com a erva da estepe. Os gemidos dos feridos 
tornavam-se cada vez mais fracos. Morriam e ningum se ocupava 
deles.
 Jermak no respondeu  pergunta de Marina, mas encostou-se a 
ela, pois as dores j se faziam sentir nos msculos das pernas.
 - Vamos  procura de Loupin! - disse ele, dando
alguns passos, hesitantes. - S ele ser capaz de me
libertar desta flecha!
 - Que acontecer a Mouchkov? - insistiu Marina.
 - Pensarei no caso...
 - No  resposta, Jermak.
 - Que queres que te diga?
 - Que  teu amigo e continuar a s-lo.
 - Traiu uma velha lei cossaca, trazendo uma mulher para uma 
expedio guerreira!
 - Tornei-me "seu esplio" quando incendiaram Novo Orpotchkov!
 - Nunca mo disse, mentiu-me durante dois anos! - Jermak 
respirava com dificuldade. Caminhava cada vez mais lentamente, 
arrastando os ps pela erva da estepe. "Se a ponta da flecha 
estiver envenenada", pensava ele, "no atingirei o acampamento! E 
Loupin nada poder fazer contra o veneno. Que faro os meus 
cossacos? Mouchkov ser capaz de os conduzir a Mangaseja?  duro 
e corajoso, mas saber mostrar-se um chefe, um verdadeiro 
guerreiro? No se conquista a Sibria s pela fora, o crebro 
tambm  preciso..."
 - Mentiu para me proteger! - insistiu Marina. Afastou o brao de 
Jermak apoiado no seu ombro e recuou dois passos. Sem apoio, 
Jermak vacilou e mal conseguiu evitar dobrar os joelhos. - Ser 
um crime?
 - Um cossaco...

 - Um cossaco! Um cossaco! No haver nada de vlido neste mundo 
para alm de Deus e dos Cossacos, enquanto o resto s existe para 
ser destrudo? No sers um ser humano, Jermak Timofeivitch?
 - Vem ajudar-me! - ordenou-lhe Jermak, rangendo os dentes.
 - No!
 Ele olhou-a fixamente, como se no conseguisse compreender que 
algum pudesse dizer-lhe "no". Marina continuava  sua frente, 
de pernas afastadas, mos nas ancas, como um verdadeiro cossaco, 
tal como sempre fora Boris Stepanovitch.
 - Passarei sem ti, que diabo! - gritou de sbito Jermak. E, 
cerrando os dentes, afastou-se, titubeando. Mas sabia 
perfeitamente que, alguns passos adiante, as suas foras 
chegariam ao fim. As fogueiras do acampamento pareciam-lhe 
inacessveis. As vozes sonoras dos cossacos chegavam at ele como 
ecos de uma tempestade longnqua, e a brisa muito leve do 
entardecer, que espalhava o fumo dos cabritos assados, causava o 
efeito de um furaco ameaador. "Se estas sensaSes se devem ao 
veneno, estou perdido", pensava Jermak. "E os meus mil cossacos 
perdi dos esto... perdidos para sempre: popes, caadores, 
intrpretes, representantes dos Stroganov. E, sobretudo, o czar 
ter perdido para sempre a Sibria... pois, quem mais ser capaz 
de a conquistar?"
 Imobilizou-se.
 - Deixa-me sozinho, Boris - pediu ele, com a voz embargada. - 
Vai! Deixa morrer o teu chefe...
 - J uma vez te salvei a vida - respondeu Marina, impvida. - 
Mas desta vez fao um preo!
 - Desaparece! - vociferou Jermak.
 Vindo do rio, um pequeno grupo de cossacos avanava em direco 
a eles. Montavam os cavalos apreendidos aos trtaros e pareciam 
muito satisfeitos por se encontrarem finalmente, instalados nos 
seus companheiros de sempre! Assim, cantavam em altos gritos e as 
suas vozes estridentes ressoavam atravs da estepe.  frente do 
grupo galopava Mouchkov que, como era evidente, preferia uma 
cavalgada fraterna s delcias do Cu e  felicidade eterna, to 
louvadas pelos popes.
 - Ali vem Mouchkov! - declarou Marina tranquilamente.
 Loupin encolheu-se ainda mais no seu esconderijo; dir-se-ia um 
morto entre mortos.
 Jermak reuniu todas as suas foras para se manter de p e fazer 
boa figura. Voltou-se lentamente para observar os cossacos. 
Mouchkov no podia ser confundido com nenhum outro... A sua voz 
sonora repercutia e o seu corpo vigoroso dominava os 
companheiros.
 - Continuo a ser Boris Stepanovitch... - disse Marina, 
peremptria. - Quanto a Ivan Matveivitch, continua a ser teu 
amigo e teu representante. Nada mudar enquanto no tivermos 
conquistado a Sibria e no formos casados pelo pope
 - No aceito ordens de mulheres! - gritou Jermak, com rudeza.
 -  uma splica, Jermak Timofeivitch, suplico-te que me 
ouas... e ajoelharia  tua frente se no fosse o meu uniforme de 
cossaco! Pensa na Sibria... Recebeste a mais elevada misso 
jamais confiada a um ser humano!
 Tero estas palavras atingido o corao de Jermak? A verdade  
que se voltou para Marina, estendendo para ela o seu brao vlido 
e murmurando:
 - Ajuda-me!

 - E continuo a ser Boris Stepanovitch?
 - Continuas.
 - E Mouchkov?
 - Tentarei esquecer.
 Ela avanou para ele, agarrou-o pelo tronco e, suavemente, 
empreendeu uma longa marcha atravs da estepe, arrastando-o, por 
vezes mesmo, transportando-o. Acreditava na lealdade de Jermak e 
no notara o tom introduzido na ltima frase tentarei esquecer. 
Tentar... uma porta aberta a todas as traiSes.
 Mouchkov e os seus cavaleiros cavalgavam na escurido e passaram 
a pouca distncia sem os ver. Cantavam a plenos pulmSes, 
permitindo que os cavalos galopassem, e pareciam to felizes que 
no prestavam ateno ao que se passava  sua volta. 
 Loupin perseguia a pouca distncia, com mil precauSes, a filha 
e Jermak. Quando se aproximaram do acampamento e os cossacos, 
gesticulando entusiasticamente, rodearam o chefe e Marina, 
acabando por levar Jermak aos ombros, Loupin comeou a correr por 
sua vez mas, por prudncia, fez um grande desvio e penetrou no 
acampamento pelo lado oposto. Surgiu, ento, na sumptuosa tenda 
do harm e expulsou o pope do div de seda.
 - Parece-me que Jermak est ferido! - gritava Loupin, 
arrepelando os cabelos com o talento de um actor consumado. - 
Est a ser transportado para o acampamento! Acabo de os ver. 
Padre, levanta-te, paramenta-te abenoa-o!
 O pope, esgotado, e que, deitado de costas, rosnava como um 
javali, insultando as ruidosas danarinas mongis, proferiu um 
brutal improprio, saltou do div e comeou a paramentar-se. 
Acabava de vestir o pluvial, capa bordada que lhe envolvia os 
ombros, quando entraram seis cossacos, transportando o chefe. As 
belas mongis fugiram para um canto da tenda, sempre a palrar.
 - Eu no disse? - gritava Loupin, desesperado, mas na realidade, 
cada vez mais velhaco. - Jermak est ferido!
 A fechar o cortejo, Mouchkov e Marina entraram por sua vez na 
tenda.
 - Foi certamente uma flecha perdida - explicou Ivan 
Matveivitch. - Loupin, procura retir-la!
 Os cossacos estenderam Jermak no div, espreitando com 
concupiscncia as belas mongis seminuas.
 O brao de Jermak tremia sem parar. A flecha devia ter 
atravessado um nervo. Loupin debruou-se sobre ele, examinou o 
msculo do antebrao e remexeu ligeiramente a flecha de trs para 
a frente. Jermak rangeu os dentes.
 - Consegues retir-la? - perguntou ele, articulando as palavras 
com dificuldade.
 - A ponta tem barbela,  preciso praticar uma inciso!
 - E o veneno?
 - Se a ponta estivesse envenenada no estarias agora aqui 
deitado! O veneno dos trtaros comea por paralisar os pulmSes e, 
depois, passa-se tudo muito rapidamente.
 Jermak sossegou. Viveria. Um ferimento cura-se depressa, como 
bem testemunhavam todas as cicatrizes visveis no seu corpo; a 
expedio atravs da Sibria prosseguiria at Sibir, capital de 
Koutchoum.

 Jermak inclinou a cabea para o lado e viu Marina, de p junto 
de Mouchkov, envergando o uniforme cossaco, muito sujo, e no 
pde deixar de pensar na pele branca que o tecido grosseiro 
cobria, nos seios firmes que to fugazmente entrevira... 
imaginava-a liberta das calas de cavaleiro, demasiado largas, e 
das botas... Nua, totalmente nua!
 - Queres que te adormea? - perguntou Mouchkov, preparando o 
punho.
 - Sou alguma menina? - resmungou Jermak.
 - Loupin ter de penetrar profundamente no msculo do teu brao, 
Jermak!
 - J suportei muitas dores - replicou Jermak, taciturno, mas s 
Marina compreendeu o sentido exacto das suas palavras. - Que 
significa um golpe em comparao com o resto?
 Loupin manejou cuidadosamente uma pequena faca bem afiada, 
conseguiu extrair a ponta da flecha e deixou que a ferida 
sangrasse.
 - Assim, todo o veneno escorrer, pois o corpo purifica-se 
sozinho.
 O pope Oleg que, para reconfortar Jermak, lhe apontara uma cruz, 
sentiu-se gratificado com um fortssimo pontap. Do exterior, 
chegava um rumor confuso de vozes. Correra a notcia de que 
Jermak fora ferido por um trtaro moribundo e os cossacos 
preparavam-se para percorrer o campo de batalha, j deserto, para 
acabar com qualquer ferido que encontrassem.
 Mudo de horror, Loupin continuava sentado junto de Jermak no 
div de seda oriental. "A culpa foi toda minha", pensava ele. 
"Foi por minha causa que Jermak veio para terra, em busca de 
Marina... e que encontrou nos braos do amigo Mouchkov... Ao 
pretender afast-la do perigo, aticei o fogo do Inferno..."
 Depois de deixar sangrar abundantemente a ferida, Loupin aplicou 
um garrote no antebrao. Meia hora mais tarde, retirou-o e 
preparou um penso para a chaga.
 - s um cirurgio competente, Loupin. - disse-lhe Jermak, 
enfraquecido pela perda de sangue. - J s dicono mas com 
certeza sers um dia bispo da Sibria!
 - Aleluia! - resmungou o pope Oleg. - C por mim, fundarei um 
mosteiro!
 - Para senhoras da Monglia?
 - Est escrito: Ama o prximo! Jermak Timofeivitch, cumpro 
estritamente estas palavras.
 - Tragam aguardente! - gritou Jermak, erguendo-se e fazendo 
sinal a Marina para que se aproximasse. Deliberadamente, roou os 
seios da jovem... Mouchkov, que surpreendeu o gesto, sentiu-se 
coberto de suores.
 Jermak olhou para ele e sorriu... Foi o mais cruel dos sorrisos 
que Mouchkov jamais vira nos lbios do amigo.

 A vida prosseguiu assim durante mais alguns dias, uma vida de 
patuscadas, de alegria e de trabalho fcil. 
 Aperfeioaram as instalaSes do acampamento; patrulhas de 
cavaleiros, montados em animais apreendidos aos trtaros, desciam 
o Tobol, indo ao encontro dos postos avanados do poderoso 
exrcito de Mametkoul. Mas, estes no desarmavam. Esperavam os 
assaltantes nos seus acampamentos entrincheirados.

 Enterraram-se solenemente os mortos do lado cossaco, entre os 
quais um intrprete, perda que no foi comentada. Depois, as 
tripulaSes transportaram os barcos e as jangadas para as margens 
do Tobol, lanando-as  gua para l das quedas semeadas de 
recifes contra os quais a frota se despedaaria. Mouchkov 
descobrira o local ideal, uma encosta arenosa pela qual as 
embarcaSes deslizavam facilmente at atingirem a gua.
 Logo no dia seguinte ao da batalha, Jermak recebeu o seu 
prisioneiro, o prncipe Tausan e os seus cavaleiros. Juntos, 
saborearam os borregos e beberam aguardente russa, com excepo 
do prncipe que, sendo muulmano, no bebia lcool. Em 
substituio serviram-lhe um koumisst bem forte e Jermak 
convidou-o a escolher uma das dezassete beldades do seu harm. 
Tausan escolheu a alegre Monja, agradecendo efusivamente a Jermak 
o facto deste ter acrescentado a este gesto a ddiva de uma 
grande tenda de couro.
- Somos homens, eu e tu, Tausan - declarou Jermak com um sorriso 
trocista -, e a vida sem mulheres  um castigo! De resto, no s 
meu inimigo, portanto, no te posso tratar como se o fosses! Luto 
contra Koutchoum, s contra ele! E ele maltratava-os a todos para 
continuar a viver a sua maldita existncia! paga o reinado com o 
vosso sangue!
 Era uma velha tctica, que j dera provas junto de Iepoutcha e 
dos seus homens:
 - Venham ao corao dos vossos amigos russos! Ns 
libertar-vos-emos! Mas, se no querem a liberdade, 
cortar-vos-emos as cabeas! - Ser assim to difcil decidir?
 Jermak tambm se entregou a uma demonstrao convincente. Mandou 
alinhar trinta dos seus atiradores de elite livnios que, depois 
de carregarem as armas, fuzilaram trinta borregos a uma distncia 
nunca atingida por uma flecha.
 -  este nosso poder que nunca ningum poder vencer! - explicou 
Jermak a Tausan, assustado. - Temos a plvora nas mos!
 O prncipe Tausan escondeu o rosto entre as mos. "Perderemos as 
nossas terras", pensou ele, com um aperto no corao. "Os Russos 
apropriar-se-o da Sibria. Tornar-nos-emos escravos nas nossas 
cidades e aldeias. Esto a comear novos tempos, tempos de raios 
e trovSes e de fogo escaldante, mortal."
 - Se quiseres, podes voltar a cavalo para junto de Koutchoum, ou 
de Mametkoul - retomou Jermak, depois de feita a exposio. - 
Somos apenas uma vanguarda! Depois de ns viro tantos russos do 
lado dos Urales, que os vossos rios no podero conter todos os 
nossos barcos! E traro com eles o poder dos trovSes! Procura 
Koutchoum e diz-lhe que se renda! No quero derramar sangue se 
no for obrigado...
 O prncipe Tausan sentia-se acabrunhado com o que via e ouvia.
 Passados trs dias, partiu a cavalo com os sobreviventes do seu 
exrcito, desceu o Tobol, fixou o ponto exacto
da margem em que os barcos e as jangadas esperavam para largar e, 
depois, cavalgou para junto de Mametkoul.
- s um sbio! - disse, nesse dia, Mouchkov a Jermak. - Vo 
borrar-se de medo!
- Tambm outros tero medo, Ivan Matveivitch - replicou Jermak, 
fixando Mouchkov com um olhar penetrante. - No te aconselhei que 
morresses naquela batalha?
- No me foi possvel, apesar da boa vontade... - Mouchkov 
sorriu, incomodado.- De qualquer modo, deixemos de falar no 
assunto, Jermak Timofeivitch! 
- No se trata de Boris Stepanovitch... falemos, agora, de Marina 
Alexandrovna!

Dissera-o sem pensar! Mas, se Jermak esperava que Mouchkov 
empalidecesse de medo, enganou-se. Mouchkov encarou o amigo 
tranquilamente.
- Marina contou-me tudo - disse por fim Mouchkov, quando o 
silncio entre os dois se tornou insuportvel. - Mas soube-o a 
partir do momento em que, depois de Loupin te ter extrado a 
flecha do brao, roaste os seios de Marina... Lembras-te?
 Respirava ruidosamente e procurava surpreender um leve sinal de 
sentimento no rosto de Jermak. Porm o seu olhar permanecia frio 
e toldado por um brilho mortfero.
 O olhar de uma serpente, pensou Mouchkov.
- Temos de falar sobre este assunto.
- E o que h para dizer? - perguntou Jermak num tom ameaador.
 - Ela no pode continuar a ser o teu adjunto! 
- Porque no? O que  que mudou? O meu valente adjunto chama-se 
Boris Stepanovitch!
- Agora trata-se de uma mulher, tambm para ti, Jermak. No 
podemos mentir.
 - s tu que o dizes? Quem foi que mentiu durante dois anos?
- Tentei mais de cem vezes que Marina regressasse  sua aldeia, 
mas ela no foi ...
- Talvez j estivesse muito habituada  minha companhia, hem? - 
perguntou Jermak, trocista.- Sabe-se l o que uma mulher tem 
dentro da cabea! Acariciam um, enquanto pensam noutro!
 - No  o caso de Marinouchka!
 - Tens a certeza?
 Jermak deu uma gargalhada brutal. Mouchkov enfurecera-se.
 - Tambm te contou como se me apresentou? Levantou a cabea e 
disse-me: "Olha!, apalpa-me e v que eu no sou um homem!" E, 
quando a agarrei, suspirou e revirou os olhos, sorrindo. No 
estava com certeza a pensar em ti!
 - Agarraste-a? - perguntou Mouchkov, furioso.
 - Com as duas mos! - Jermak ergueu as mos, formando uma 
convexidade com as palmas. - Eram feitos por medida para estas 
mos... e, ainda para mais, rijos e aveludados...
 - Devia espancar-te, Jermak - declarou Mouchkov, ofegante. - E  
o que vou fazer!
 - No estou a mentir! - gritou Jermak. - Tinha Marinouchka nos 
braos quando a maldita flecha me atingiu! Pensa bem, imbecil, se 
tivesse o peito livre, a flecha atingir-me-ia no brao? Era 
impossvel, pois eu e Marinouchka encontrvamo-nos peito contra 
peito!
 - No lhe chames Marinouchka! - resmungou Mouchkov.
 Sentia a cabea a escaldar e o corpo percorrido por ondas de 
calor.
 -  minha mulher!
 - Debaixo de um cobertor fedorento! Sobre a erva da estepe!  
maneira dos ratos silvestres! Ela merecia um palcio... e no 
palcio de Koutchoum, em Sibir, hei-de lev-la nos braos e 
deito-a num div dourado! E Oleg Vassilivitch casar-nos-...
 - Ela preferir morrer! - replicou Mouchkov, espantado por ainda 
se encontrar em estado de poder falar.

 - Ela era o "teu esplio", como tu prprio disseste, j que a 
retiraste do incndio de Novo Orpotchkov! - Jermak voltou-se. 
Encontravam-se na margem do Tobol e, l mais abaixo, viam os 
barcos e as jangadas presos com amarras e guardados por cossacos. 
A pouca distncia, encontrava-se uma pequena canoa, ainda em 
terra, de quilha para o ar. - H quanto tempo nos conhecemos, 
Ivan Matveivitch? - perguntou Jermak.
 - H doze ou quinze anos, no sei bem - respondeu Mouchkov.
 Seguiu Jermak, que se dirigia para a canoa. Este, pelo caminho, 
meteu a mo no bolso e retirou trs dados de osso cinzelado, 
Mouchkov encolheu os ombros, escandalizado.
 - Sempre nos comportmos como amigos e, quando o esplio era 
suficientemente abundante e satisfatrio para os dois, que 
fazamos? Diz-me, Ivan Matveivitch? - Jermak lanou os dados 
sobre o fundo do barco. - Alguma vez discutimos por causa de um 
esplio?
 - Marina no  um vaso de ouro nem uma pea de seda!
 Mouchkov arrebatou os dados com a mo, entusiasmado.
 - Jogmos por trs vezes a posse daquela princesa dos Negai, 
lembras-te, Ivan Matveivitch? Foi junto ao mar Cspio... e tu, 
co, ganhaste sempre! Insurgi-me contra a sorte? Esplio 
honestamente apreendido - lucro honestamente obtido! Mouchkov, 
que  feito da tua honra de cossaco?
 - Marina no  um objecto, nem uma mulher que se joga aos dados! 
- gritou Ivan. - Amo-a,  a minha vida!
 - Foi por isso que te aconselhei que morresses naquela batalha!
 Calaram-se e encostaram-se  canoa, de olhar fixo para alm do 
Tobol, sobre o qual cintilava o sol de Maio.
Alguns barcos carregados de cossacos rompiam, aqui e alm, o 
esplendor das vagas; os soldados de Jermak pescavam  rede. Havia 
tantos peixes que se poderiam pescar  mo.
 - Mouchkov, parece-te que devemos renunciar  conquista da 
Sibria, s porque nos queremos matar um ao outro? - perguntou, 
por fim, Jermak. - Parece-te que, por causa de uma mulher, a 
Rssia deva perder a Sibria para sempre?
 - Porque me fazes essas perguntas? Quem  que quer apropriar-se 
de Marina?
 - Quem  que pretende possu-la sem partilha, quando, segundo a 
nossa lei,  ao comandante que deve caber a melhor fatia do 
esplio?
 - H muito tempo que Marina deixou de ser um esplio! - 
vociferou Mouchkov.
 - Mas foi-o e, nessa altura, enganaste-me!
 Era evidente que a discusso estava a aquecer. A melhor soluo 
consistia em desembainhar os sabres e em se lanarem um ao outro. 
O mais forte tem sempre razo...  um princpio fatal, mas 
indestrutvel.
 Contudo, Jermak e Mouchkov recuaram perante essa sada. Ambos 
conheciam perfeitamente a maneira de combater do outro...
 - Dez mil rublos! - sugeriu Jermak, passado um momento.
 Mouchkov sobressaltou-se:
 - Ests louco, Jermak Timofeivitch!
 - Dez mil rublos! - repetiu Jermak alguns instantes depois.
- Ser-te-o contados, segundo promessas escritas por mim, perante 
os Stroganov, em Perm!
 - No h riqueza no mundo que possa comprar Marina! - respondeu 
Mouchkov, com firmeza.
 - Acrescentaremos ainda mil peles de zibelina e duas mil peles 
de raposa preta!
 - Podes oferecer-me Mangaseja, o cu e as estrelas, Marina no 
est  venda!
 - E mais mil raposas brancas e mais mil castores!

 - Se Deus me prometesse a felicidade do paraso, no a trocaria 
por um instante passado na companhia de Marina, mesmo no mais 
desconfortvel dos tugrios.
 - Um instante e um tugrio! - Jermak observava Mouchkov, de 
cabea inclinada. "Tem os olhos frios de uma vbora ", pensou de 
novo Mouchkov. - Podes ter ambas as coisas, Ivan Matveivitch: 
pensa bem...
 Jermak agachou-se, apanhou os dados e introduziu-os no bolso. Em 
seguida, fazendo-os tilintar dentro da algibeira, desceu em 
direco ao rio.
 Foi o pope Oleg que indicou a Mouchkov o caminho que este devia 
tomar. O pope podia ter os seus defeitos, ser um porco entre os 
porcos e um constante insulto ao Senhor, mas respeitava deveras a 
amizade. Ora, Mouchkov era seu amigo, embora se tivessem sovado 
conscienciosamente muitas vezes. Uma coisa no impede a outra!
 As confissSes que os cossacos lhe faziam eram, sem excepo, 
ignbeis relatos, mas acontece que, na vspera da grande partida 
dos cossacos para enfrentarem as tropas de Mametkoul, dois 
cossacos lhe perguntaram se poderiam ser antecipadamente 
absolvidos, pois iam ser obrigados a matar um homem.
 Oleg apurou o ouvido e disse, solene:
 - Falem, meus filhos, libertem-se do fardo que oprime o vosso 
corao e o Senhor purificar-vos-!
 - Pois bem - declarou um dos homens. - Jermak ordenou-nos que 
matssemos um homem.
 - De que maneira? - perguntou o pope.
 - Podemos escolher. O que importa  que o matemos!
 - Simplesmente,  um cossaco como ns - gaguejou o segundo 
penitente.
 - Vejam s! - Oleg Vassilivitch debruou-se sobre o homem que 
se encontrava ajoelhado. - Jermak ordenou que matassem um 
camarada?
 - Sim.
 - E quem  ele?
 Ao ouvirem estas palavras, os dois aclitos permaneceram mudos. 
O pope ameaou-os com todas as penas do Inferno, esmurrou-lhes o 
nariz at sangrar, mas eles limitavam-se a repetir:
 - Padre, d-nos a absolvio prvia?
 - Nunca! - vociferou Oleg. - Saiam daqui!
 - Jermak prometeu-nos dois mil rublos...
 O pope reflectiu, renunciou ao correctivo que se preparava para 
lhes administrar e apontou para o cho com o indicador. Os dois 
penitentes caram logo de joelhos.
 -  verdade? - perguntou ele suavemente.
 - Como poderamos mentir-te, padre? Estamos dispostos a pagar 
quinhentos rublos pela absolvio...
 - Estamos no mercado? Pensam que esto a comprar banha de 
borrego? - Oleg cruzou as enormes mos. - Seiscentos rublos...
 - s um padre generoso...
 - E quando ter lugar o acto?
 - Esta noite.
 - E Jermak est mesmo disposto a pagar?
 A pergunta justificava-se. Oleg conhecia Jermak h muito tempo. 
Meditou mais um pouco. No era muito frequente Jermak servir-se 
de cmplices - um assassino ainda passa... mas que faa o 
trabalho sozinho! Um cmplice  sempre um inimigo para o futuro.

 - Voltem quando estiverem na posse dos seiscentos rublos - disse 
calmamente o pope. - At l, tenho mais que fazer do que pensar 
em vs, filhos da me!
 Mais tarde, falou no caso a Loupin, pois a histria intrigava-o:
 - Jermak quer matar um homem - disse ele -, e paga dois mil 
rublos pelo trabalho. Compreendes isto, Alexandre Grigorivitch? 
Dois mil rublos por um cossaco! Com esta quantia, manda-se 
assassinar um prncipe!
 - Jermak deve ter as suas razSes - respondeu Loupin. Subitamente 
doeu-lhe o corao, uma dor que era medo, uma angstia atroz.
 A pretexto de que o aguardava uma tarefa urgente, pois no dia 
seguinte iniciar-se-ia a grande expedio pelo rio, apoderou-se 
de um cavalo e galopou a toda a brida em direco ao Tobol. 
Loupin encontrou Mouchkov perto do rio; Marina estava junto dele 
e descalara as botas, chapinhando na gua da corrente.
 - Tinha de ser! - gritou Loupin, saltando do cavalo ainda antes 
de o imobilizar. - No olhem para mim com esses olhos de r 
espantada. Escolham os melhores cavalos
que encontrarem e fujam para os Urales!
 -  assim que grita sempre que pensa nos trtaros - disse 
Mouchkov, com bonomia. - Velhote, derrotaremos Mametkoul para l 
do horizonte...
 - Mametkoul! s estpido a esse ponto, Ivan Matveivitch? No se 
trata disso! - Loupin apertou violentamente Marina contra o 
peito. - Ele quer matar-te, Mouchkov!
 Mouchkov no respondeu, mas olhou fixamente para Loupin e, 
quando compreendeu o que ele queria dizer, ouviu Marina exclamar:
 - Jermak!
 - Ofereceu dois mil rublos pela tua morte, Ivan, e vai ser esta 
noite!
 - O meu amigo Jermak Timofeivitch? - balbuciou Mouchkov. - 
Cavalgmos doze anos lado a lado...
 - Os assassinos confessaram-se a Oleg Vassilivitch! - gritou 
Loupin, desesperado. - despachem-se! Precisam de bons cavalos!
 - Acreditei nele - murmurou Mouchkov -, era todo o meu universo, 
pai e irmo ao mesmo tempo... - e, subitamente, Mouchkov comeou 
a chorar como uma criana. - S o tinha a ele; os meus pais 
abandonaram-me ainda menino e fui criado por um campons que me 
acolheu... depois conheci Jermak, que me recrutou para o exrcito 
cossaco... ele no pode, agora...
 Os soluos sufocavam-no.
 - Tero de cavalgar durante toda a noite! - insistiu Loupin, 
impassvel, beijando os olhos fechados de Marina. - Quanto a mim, 
segu-los-ei para cobrir a vossa fuga! No se preocupem comigo! 
E, acima de tudo, no regressem ao acampamento.
 Com o auxlio das primeiras sombras do crepsculo, a jusante do 
ancoradouro dos barcos, atravessaram o Tobol com os cavalos a 
nado. Atingiram uma enseada isolada, onde a gua baixara e onde 
Mouchkov lanou um ltimo olhar aos barcos e jangadas, s 
fogueiras e s tendas, aos cavalos e auriflamas...

 Ouviam-se tocar os sinos de uma capela, os da capela flutuante, 
apelando para a orao da noite. Mouchkov fechou os olhos e 
benzeu-se, depois deu meia volta no cavalo e, juntamente com 
Marina, penetrou a galope na escurido da estepe.
 At ao fim do Angelus, Jermak no se preocupou com a ausncia do 
seu adjunto. O facto de Mouchkov no se encontrar presente 
durante as oraSes nada tinha de surpreendente, visto que devia 
ocupar-se da frota que aguardava no ancoradouro a hora da 
partida. Os navios continham j grandes quantidades de vveres. 
Os rebanhos do prncipe Tausan foram sacrificados at ao ltimo 
borrego e esquartejados para poderem ser distribudos pelos 
cossacos, como provisSes.
 A fim de no levantar suspeitas, Alexandre Grigorivitch, Loupin 
permaneceu no acampamento, ajudou os cossacos a reunir o 
equipamento e, em seguida, juntou-se ao pope Oleg, na capela 
ancorada no Tobol. O pope passeava de um lado para o outro, de 
expresso carregada, pensando no melhor meio de ocultar ao 
prncipe Tausan algumas das beldades Mongis. Talvez nos caixotes 
que continham os objectos necessrios  celebrao da missa? Mas 
elas sufocariam irremediavelmente, e no era esse o objectivo da 
operao.
 - O crente deve saber renunciar! - proclamou, por fim, o 
contristado pope. - No h outra soluo...
 - Em Sibir, Koutchoum possui um harm cem vezes mais numeroso, 
padre! - observou Loupin. - Deve ter escolhido as mais belas 
raparigas das diversas regiSes do seu reino, esperemos!
 Para j, todos presumiam que os prisioneiros libertados e 
Tausan, o seu chefe, teriam espalhado por toda a parte que s a 
fuga resultaria perante atiradores de armas de fogo e 
artilheiros.
 Na primeira fila dos homens ajoelhados encontrava-se, orando, 
Jermak Timofeivitch. Parecia absorvido pela palavra divina e 
mantinha a cabea baixa, mas as suas oraSes no apelavam para a 
intercesso dos santos. J tero assassinado Mouchkov? No ser 
fcil surpreend-lo! Desde que os meus dois homens sejam bem 
sucedidos... e sem testemunhas! Sabia que os assassinos se 
calariam, no por causa dos dois mil rublos, pois Jermak jamais 
tivera a inteno de os recompensar, mas porque no sobreviveriam 
ao acto mais do que o tempo necessrio para lhe darem conta do 
seu cumprimento. Enquanto o coro dos cossacos se elevava aos 
cus, Jermak pensava em Marina. Durante algum tempo, 
lamentar-se-, mas dar-lhe-ei mais presentes do que a czarina 
recebe de Ivan. Por conta dos Stroganov, naturalmente. E, se 
resistir aos presentes, ser violada. Aquela que for amada por 
Jermak, no o esquecer!  um tipo que sabe acariciar e, ao mesmo 
tempo, apoderar-se com mo de ferro daquilo que deseja. As 
mulheres so animais que gostam de ser dominados! Como Jermak 
conhecia mal Marina!
 Por diversas vezes, o pope Oleg, fixando a nuca inclinada de 
Jermak, sentiu vontade de lhe gritar: "Corre, maldito, vai salvar 
o teu amigo!" Mas, na sua alma, trava-se um obscuro combate: 
tambm desejava obter seiscentos rublos. Calou-se e consolou-se 
ao pensar que Jermak, quando se descobrisse o seu segredo, no 
poderia recuar e mand-lo matar a ele, Oleg Vassilivitch... 
Claro que, neste caso, a sua opa preta no seria uma armadura de 
ferro.

- Levaram-me o meu dicono! - declarou Oleg na sua potente voz de 
baixo.- Como Cossaco que sou, j vi muitas coisas neste mundo, 
mas nada que se parea com isto! Quem pode querer mal a um velho 
como Loupin? Tal infmia  inadmissvel! Merece todos os 
tormentos do Inferno! 
- Ando  procura de Boris Stepanovitch - disse Jermak, com a voz 
embargada pela emoo.- A esse, tambm ningum o viu! 
 O pope olhou de soslaio para Jermak e acariciou a longa barba.
 - Ests preocupado, Jermak? - perguntou ele, subitamente atento.
 - Preciso desse rapaz! - vociferou Jermak.
 - Aqueles que esperam so muitas vezes atormentados pelo Diabo - 
suspirou o pope, sentencioso. - Onde est Loupin? Talvez com 
Mouchkov, que tambm desapareceu...
 - O qu? tambm no sabem onde se encontra Ivan Matveivitch? - 
perguntou Jermak fingindo-se descontrado, embora o corao lhe 
saltasse no peito. "Deve querer dizer que j est", pensou. "E 
Marina estaria com ele?"
 - De qualquer modo, trata-se de uma noite infernal, Jermak 
Timofeivitch! - Observou o pope. - Criaturas de Deus que se 
evaporam como gotas de orvalho - acrescentou, insidioso. - 
Aguardemos... talvez que...?
 De madrugada, tornou-se evidente que Mouchkov, Marina e Loupin 
tinham desaparecido. No se descobriram rastos de nenhum deles 
nas margens do rio, nem no acampamento, nem na estepe 
circundante. Os dois cossacos encarregados por Jermak do 
assassnio de Mouchkov vieram, muito contristados, informar o 
chefe de que no o encontraram. Tudo indicava que teria fugido.
 - Qual dos dois no teve tento na lngua? - gritou Jermak. As 
veias das tmporas incharam-lhe, assumiu um aspecto terrvel, os 
seus olhos lanavam chispas demenciais. - Quem o ter advertido, 
hem?
 Os dois cossacos lembraram-se da confisso, mas o pope no podia 
saber de nada, pois no tinham dito o nome. Encolheram os ombros 
e responderam:
 - Ningum sabe de nada, Jermak!
 - E Boris Stepanovitch? - rugiu Jermak, fora de si.
 Esta pergunta tambm ficou sem resposta. Como poderiam eles 
saber onde se teria metido o rapazelho? 
 Jermak expulsou os dois homens da tenda e partiu em busca de 
Oleg. Encontrou o pope em galante companhia, instalado no div de 
seda do harm, acariciando duas palradoras aves mongis.
 - Alexandre Grigorivitch Loupin encontra-se aqui? - perguntou 
Jermak, com dureza.
 O pope abanou a cabea:
 - Deve ter sido morto e imediatamente enterrado! Ou talvez tenha 
tido um mau encontro? Com trtaros nmadas, nunca se sabe!... 
estava to habituado a ele, Jermak! Uma alma to boa... - Afastou 
as duas mongis demasiado despidas e limpou os olhos. Parecia 
verdadeiramente acabrunhado. - E onde est Mouchkov?
 - Desapareceu!
 - E Boris Stepanovitch?
 - Tambm!
 - Devem ter sido surpreendidos por uma horda de cavaleiros de 
Mametkoul, por Santo Estefnio! O pope cossaco ergueu-se de um 
pulo e a sua voz tonitruante proclamou:
 - Esmurrarei todo o trtaro que surja no meu caminho! 
Atravessarei a Sibria para vingar os meus amigos, nem que, para 
isso, tenha de renunciar s minhas vestes sacerdotais!

 - Mais devagar, padre! - Jermak olhava em frente, mas suas mos, 
crispadas, abriam-se e fechavam-se ao ritmo dos espasmos. - No 
tero muito simplesmente fugido juntos?
 - Fugido? - Oleg arregalou os olhos. - E por que fugiria o meu 
dicono? Para escapar a quem? E Mouchkov...
 - Condenei-o  morte... - articulou Jermak, lentamente.
 - O qu? Para sempre... men! - O pope deixou-se cair no div de 
seda. - O mundo andar de pernas para o ar, Jermak?
 - Mouchkov traiu-me!
 - Quem poder acreditar?
 - Toda a gente, pois sou eu que o digo! - gritou Jermak. - No 
te basta, a ti? Sers tu mais clarividente do que eu, filho da 
puta?
 Oleg Vassilivitch considerou prudente engolir o insulto, em vez 
de lhe recordar que no se trata um pope de forma to 
irreverente. Limitou-se a olhar atentamente para o comandante dos 
cossacos, que entrava e saa da grande tenda, mais parecendo uma 
fera.
 - Admitamos que Mouchkov  um traidor - retomou o pope, 
instantes depois. - Mas o que  que Boris Stepanovitch tem a ver 
com o caso?
 - s cego, hem? - Jermak deteve-se bruscamente. - Esse garoto  
o namorado de Mouchkov!
 Oleg riu, trocista:
 - No me venhas com histrias dessas sobre Mouchkov!
 - Vi-os com os meus olhos! - Jermak encolheu os ombros. "No 
posso dizer a verdade", pensou. "Resta-me acusar Ivan 
Matveivitch de prticas anormais!" - Tens dvidas? - 
acrescentou.
 - Se tu o dizes, com certeza que no! - O pope ergueu os olhos 
para o tecto da tenda. - Resigno-me a aceitar que o meu querido 
amigo Alexandre Grigorivitch serviu de intermedirio!
 -  isso mesmo! - gritou Jermak.
 Os destinos humanos encontram-se inexplicavelmente enredados... 
O pope cruzou as enormes mos:
 - E ento, partiram! Para onde?
 - Voltaram para a Rssia, evidentemente! No ests a pensar que 
nos levam a dianteira em direco a Koutchoum?
 - Que posso eu pensar depois de tantas desilusSes? - respondeu 
Oleg, prudente. - Apanh-los-s, Jermak Timofeivitch.
 - Organizarei uma caada apertada como se fossem raposas 
malficas! A Rssia no ser demasiado vasta para os ocultar!
 - Queres voltar para trs? - gaguejou o pope. - Queres renunciar 
 Sibria por causa de Mouchkov?
  nossa frente, estende-se Sibir e, mais para l, Mangaseja... e 
depois... sabes quantas maravilhas contm ainda este mundo por 
descobrir?
 - No! Prosseguiremos o nosso caminho, mas enviarei os melhores 
cavaleiros  sua procura!
 - E se os fugitivos forem mais rpidos do que eles? 
 - Um dia, virei de novo  Sibria! - Jermak ofegava. - E 
encontr-los-ei! A vida de um homem pode ser longa se perseguir 
um sonho ou uma vingana! O sonho... Sibir, realiz-lo-ei para 
mim! O resto da minha vida bastar para cumprir a vingana!
 O pope, contristado, encolheu os ombros:

 - Para matares trs indivduos, queres renunciar a seres Senhor 
da Sibria?
 "Trata-se de um juramento", pensou o pope, "um juramento mortal 
e, quem conhecer Jermak, sabe que ele o cumprir."
 Jermak fixava agora o pope:
 - Sim, matar! - O seu olhar atravessava Oleg como se fosse gelo: 
- Sero enterrados at ao pescoo num formigueiro e ficarei 
sentado ao p deles, para os ver devorados migalha aps migalha. 
E quando chorarem, gritarem, implorarem, pegarei na minha flauta 
para tocar as rias pastoris do Don, e sentir-me-ei feliz!
 Olhava intensamente o pope, aguardando uma resposta, mas Oleg 
parecia paralisado pela viso que Jermak lhe fornecera da sua 
vingana.
 - De madrugada, prosseguiremos! - retomou Jermak, beijando a 
orla da opa do pope, antes de sair da tenda.
 Quanto a Oleg Vassilivitch, pensava que acabara de ter uma 
conversa com o Diabo, a qual poderia pr a sua alma em perigo.
 Pouco tempo depois, seis cossacos e dez cavalos de carga subiam 
o Tobol, em busca de um vau para se poderem lanar em perseguio 
de Mouchkov, Loupin e Marina.

 De ouvido atento, os dois fugitivos cavalgaram durante toda a 
noite e mudaram de cavalos de madrugada - o que consistiu em 
selar os cavalos de carga, confiando aos seus animais cansados 
bagagens leves. Parecia-lhes constantemente ouvir ao longe o 
galope do cavalo de Loupin...
 - J est velho - recordou Marina quando Mouchkov props que 
retomassem a caminhada -, cavalgar durante toda a noite  de mais 
para ele!
 - Talvez nem sequer tenha partido - respondeu Mouchkov, 
saltitando de impacincia. - Ele disse-me que cavalgssemos o 
mais que pudssemos, atravs do mundo... e que, um dia, nos 
encontraria! Um dia... no  necessariamente hoje, Marinouchka...
 - Ele no nos abandonar...
 - Oleg Vassilivitch deve t-lo impedido de partir... - Mouchkov 
debruou-se sobre Marina e pegou-lhe no rosto, para o beijar. - 
Comeaste por fugir do teu pai e, agora, no podes passar sem 
ele!
 - Porque te tenho a ti, Ivanouchka - respondeu ela, ternamente, 
pegando-lhe na mo e beijando-a na palma antes de a passar pelo 
seu prprio rosto. - Agora, tu s, verdadeiramente aquele que eu 
queria que fosses! Mas a presena do meu pai continua a 
parecer-me necessria. - Marina sorriu com tristeza. - Sabes 
quantas vezes veio em meu auxlio nestes dois ltimos anos? Que 
teria acontecido se ele no me tivesse acompanhado nas nossas 
peregrinaSes? Precisaremos de cavalgar to depressa que ele no 
nos possa encontrar?
 - H muito que Jermak lanou os seus homens em nossa 
perseguio.
 - Tens medo deles?
 - S tenho medo de ti. Por favor, monta! - insistiu Mouchkov 
quando Marina lhe largou a mo, afastando-se. Em redor, estava 
tudo calmo, nem sequer se ouviam chiar os ratos da estepe. - 
Temos pela frente a travessia do inferno. Teremos de chegar ao 
pas de Perm antes do Inverno.

 A aurora comeava a despontar. Retomaram a cavalgada e atingiram 
um troo do rio que lhes permitia seguir ao longo da margem. 
Atravessaram uma pequena colnia ostaca. 
Ao v-los mulheres e crianas fugiam em todas as direcSes, 
procurando abrigo em tendas miserveis, enquanto os homens os 
observavam, pensativos, interrogando-se sobre a presena destes 
dois cossacos no seu territrio. Que viriam fazer? Exigir um 
tributo? Parecia-lhes pouco provvel. Nestes casos, os cossacos 
surgiam em to elevado nmero que se tornava impossvel opor-lhes 
qualquer resistncia.
 - Desembainhemos os sabres e atravessemos o acampamento com 
segurana. Devemos fazer barulho - disse Mouchkov, pegando no 
sabre cossaco que trazia pendurado na sela. - S se mantero 
tranquilos se virem que somos ns os mais ousados!
 Nenhuma lana os atingiu pelas costas, nem a mais pequena 
flecha; os homens de raa amarela no se mexeram, felizes por 
verificar que os dois cavaleiros se limitavam a gritar. 
Aguardaram mesmo o seu eventual regresso mas, como tal no 
aconteceu, retomaram as suas ocupaSes.
 Quatro horas mais tarde, um terceiro cavaleiro estrangeiro, 
seguido de dois cavalos de carga, atravessou o mesmo acampamento. 
O homem, um velhote de cabelos brancos, parou e debruou-se sobre 
a sela, num gesto que traduzia o seu cansao. Parecia manter-se 
de p com dificuldade.
 - Dois homens? - perguntou ele no idioma iacuto, do qual 
aprendera algumas palavras pelo caminho que conduzia ao Tobol.
 - Sim! - Os ostacos apontavam para oeste. Dois... e mais dois 
cavalos sem sela!
 O velho esboou um gesto de agradecimento e prosseguiu a 
cavalgada.
 "Vou no seu rasto", dizia ele para consigo, feliz.
 "O velho lobo ainda est em forma..."
 Cinco horas mais tarde, as coisas passaram-se com menos 
moderao.
 Seis cossacos, seguidos de dez cavalos de carga, apareceram na 
mesma colnia de ostacos, espancaram os habitantes, pilharam as 
miserveis tendas, incendiaram-nas e s ento perguntaram:
 - Passaram trs homens pelo vosso acampamento?
 Os ostacos responderam afirmativamente, apontando com zelo a 
direco tomada pelos viajantes:
 - Por ali! - repetiam, de brao estendido para a estepe, 
exactamente no sentido inverso ao que os trs homens tomaram.
 Os seis cossacos agradeceram, zurzindo mais uma vez os ostacos, 
e depois, reuniram-se, concluindo que era muito estranho Mouchkov 
no se dirigir em linha recta para os Urales. Mas fora certamente 
assim: um homem zurzido por um cossaco diz sempre a verdade.
 Quando compreenderam que tinham sido enganados, tinham-se 
passado quatro horas. Praguejando, regressaram ao rio e juraram 
espancar os ostacos at ficarem com os olhos redondos.
 Mouchkov e Marina levavam uma jornada de avano aos seis 
cossacos. Doze horas... mas o que so doze horas na imensa Rssia 
e entre os perigos dos Urales?


 Entretanto, no Tobol, a grande frota de Jermak navegava ao 
encontro dos exrcitos de Mametkoul. Nas proximidades de Sibir 
aguardava Koutchoum, o czar Siberiano, com a sua guarda. Catorze 
prncipes e seus guerreiros tinham vindo em seu auxlio. Por 
detrs deles, o vazio, o inexplorado, a terra desconhecida, 
gigantesca, feita de florestas e pntanos, tundras, cursos de 
gua to amplos que no se via a margem oposta. Por este mundo 
ignorado estendiam-se lagos nos quais se podia remar durante dias 
e dias sem nunca encontrar terra, e o solo era to vasto que a 
se poderia instalar metade da humanidade.
 Ser possvel conquistar um pas assim apenas com algumas 
espingardas e trs canhSes? E ainda,  verdade, com estandartes e 
popes que, em cada local conquistado, enterravam uma cruz? Ou 
ainda com mercadores que comeavam imediatamente a negociar? 
Alguma vez se vira um mundo novo onde se tenham dado os primeiros 
passos com tanta determinao?
 Jermak Timofeivitch no tinha por onde escolher.
 Com o abastecimento fornecido pelos Stroganov, que percorrera o 
Touro e o Tobol, chegaram at eles as ltimas decisSes do czar: 
"Ordeno que Jermak e os seus homens regressem imediatamente ao 
pas de Perm, a fim de serem punidos pelos crimes cometidos nas 
margens do Don e do Volga. Sero enforcados sem apelo."
 Oleg lera o veredicto em voz alta logo que a notcia da 
condenao geral atingira a frota, no Tobol.
 - Fomos, portanto, condenados! - concluiu ele, passando a 
mensagem a Jermak. - Nem poderia ser de outro modo, o czar nunca 
perdoa!
 - Perdoar! - respondeu Jermak rudemente. - Coloco-lhe a Sibria 
aos ps. Nunca um bandido ofereceu to belo presente ao seu amo. 
Em frente, Oleg Vassilivitch! Penetremos no novo mundo!
 Abrigado pela grande vela inchada, de olhos semicerrados, Jermak 
observou as margens. Dos dois lados do rio, os velozes cavaleiros 
de Mametkoul acompanhavam os navios e enviavam-lhes uma chuva de 
flechas sempre que uma jangada ou uma embarcao se aproximava:
 - Terei de regressar  Rssia antes de envelhecer... Ainda me 
falta matar Mouchkov!

Captulo 9

 No terceiro dia de fuga, Loupin juntou-se  sua querida filha. 
Chegara a pensar nunca mais a ver. Durante as ltimas cem vertas, 
limitara-se a agarrar-se  sela, de mos crispadas nas rdeas ou 
na crina do cavalo. Doam-lhe todos os ossos do corpo. O corpo 
ardia-lhe por dentro, a paisagem vacilava ou diminua  sua 
volta, mas ele mantinha-se na sela, sabendo que no conseguiria 
voltar a montar se se apeasse.
 Porm, a distncia que o separava dos seis cossacos enviados em 
sua perseguio tambm ia diminuindo, pois estes ousaram o que 
nem Mouchkov nem Loupin se permitiram: apropriavam-se, em cada 
aldeia que atravessavam, de cavalos descansados, espancavam os 
seus proprietrios e alimentavam-se de tudo o que podiam, o que 
lhes valeu avanar mais rapidamente do que os trs infelizes 
fugitivos, montados em cavalos exaustos, magros e cambaleantes.

 Entretanto, Mouchkov e Marina tinham atingido um dos pequenos 
acampamentos fortificados, erigidos no Inverno anterior numa das 
margens do Toura. Os cavalos hesitavam como cegos antes de 
avanarem. Eram trs cabanas construdas com toros de madeira, 
rodeadas por grandes paliadas de madeira: apeadeiro, recinto de 
compra e venda, estalagem para caadores e - como no podia 
deixar de ser - parquia rural, dirigida por um jovem pope que 
muito se esforava por pregar aos ostacos e trtaros e por 
ensinar a histria de Jesus Cristo, cujas imagens de cores vivas 
mostrava, enquanto prometia a vida eterna - problema ao qual os 
indgenas conferiam um sentido muito diferente do da Igreja. Mas 
o santo homem baptizava com zelo, muito surpreendido com a boa 
vontade das novas ovelhas.
 O pope nunca desconfiou de que os ostacos viam na asperso com 
gua benta um meio de se imortalizarem, comprimindo-se em massa 
compacta  sua volta, tendo em mira esse objectivo inconfessado. 
E quando, por acaso, entre os que no tinham sido baptizados, 
nove homens e mulheres morreram por ocasio do degelo, enquanto 
os baptizados sobreviveram, a nova crena foi unanimemente 
considerada como um poder mgico.
 Mouchkov foi o primeiro a transpor, sozinho, a porta aberta na 
paliada, a fim de saber quem se encontraria agora no pequeno 
forte. Os caadores tinham sado, os homens dos Stroganov no os 
conheciam e encararam-no distraidamente: no se fazem negcios 
com um cossaco, a no ser que se queira perder.
 O pope, pelo contrrio, recebeu cordialmente o prudente 
Mouchkov.
 - No sers, por acaso, Ivan Matveivitch? - perguntou o pope, 
abrindo os braos. - Tu, o melhor amigo de Jermak, que fazes 
aqui, irmo? No me digas que foste o nico sobrevivente?
 - H ainda mais algum  porta do acampamento: Boris 
Stepanovitch - respondeu Mouchkov.
 - O adjunto? Aquele jovem alegre e prazenteiro? Como  possvel?
 - Fomos encarregados de uma misso secreta junto dos Stroganov - 
respondeu Mouchkov que, por vezes, tinha boas ideias. - Jermak 
est bem. Obtivemos uma grande vitria e o exrcito navega agora 
pelo Tobol em direco ao rio Irtych e, da, partir para Sibir! 
No  uma boa notcia, venervel padre?
 - Vem aos meus braos! - O pope estava comovido.
- Aqui as coisas tambm progridem, o cristianismo  um blsamo 
para os pagos.
 Mouchkov saiu do recinto e acenou a Marina, que se apeara e 
conduzia pelas rdeas os cavalos cansados.
 -  um bom apeadeiro! - declarou Mouchkov. - Vi por aqui belos 
cavalos, pertencentes  Igreja e, como a Igreja deve ajudar os 
homens, os cavalos pertencem-nos, evidentemente! Mudemos, pois, 
de montada, e prossigamos o nosso caminho!
 - Preciso absolutamente de dormir, Ivanouchka - disse Marina, 
encostando-se a um dos cavalos, cujas patas tremiam. Os olhos de 
Marina teimavam em fechar-se, tinha o rosto sujo da poeira da 
estepe, encovado e como que sumido: um rosto de criana doente. - 
Duas a trs horas de sono...  possvel?
 - Temos andado bem! - respondeu Mouchkov.

Depois, abraando Marina pela cintura, arrastou-a para o 
acampamento entrincheirado. O pope correu ao seu encontro, beijou 
trs vezes as faces poeirentas de Marina, declarou mais uma vez 
que se sentia feliz por ter como hspedes os melhores amigos de 
Jermak, e nem sequer se lembrou de que lhe poderiam roubar os 
cavalos...
 Na choupana que servia de local de reunio, de quarto de cama e 
de capela, encontrava-se uma mulher ostaca em frente da lareira 
de pedra solta, apurando um guisado de couves. Era a primeira 
baptizada da regio. Uma viva, cujo marido fora atacado pelos 
cossacos quando estes construram o acampamento.
 - Contem ento... - sugeriu o pope depois de Mouchkov e Marina 
terem comido papas de cereais e bebido cerveja obtida a partir da 
fermentao de gro de trigo. - Como tem passado Oleg 
Vassilivitch?
 - Dentro de vinte anos, haver na Sibria um exrcito 
inteiramente constitudo por rebentos do Koulakov! - exclamou 
Mouchkov com alegria, ao qual a cerveja bebida em jejum 
restitura a inconscincia do seu passado cossaco. Por instantes 
ignorou Marina, e permitiu uma reflexo que se referia s 
incrveis dimensSes do membro viril de Oleg, que fazia chorar as 
mulheres s de o verem! Foi preciso um pontap de Marina, por 
debaixo da mesa, para que ele prosseguisse, envergonhado, 
olhando-a de soslaio:
 - Respeitvel padre, temos connosco um adolescente que ainda 
ignora estas coisas... Que boa que est a sopa!
 Depois da orao da noite, na qual tomaram parte alguns ostacos 
famlicos, que traziam vveres ao pope e vinham pedir a bno - 
por causa da vida eterna -, fecharam a porta da paliada e toda a 
gente foi dormir.
 Marina adormeceu imediatamente. Mouchkov deitou-se ao lado dela 
e procurou pegar-lhe na mo por debaixo do cobertor. Marina 
espreguiou-se mas no abriu os olhos, nem mesmo quando o pope 
comeou a ressonar. Mouchkov apalpou-lhe ento os seios, 
experimentou um sentimento de felicidade sem par e adormeceu, por 
sua vez.
 Durante a noite, foram acordados pelo rudo de pancadas na porta 
de entrada, enquanto uma voz rouca repetia incansavelmente:
 - Abram! Dormem com os ouvidos tapados? Abram!
 O jovem pope foi o primeiro a despertar; saiu, espreitou por uma 
fenda da paliada e reconheceu o homem velho e exausto que se 
encontrava no exterior: Alexandre Grigorivitch Loupin.
 - Sucedem-se os prodgios! - exclamou o pope, abrindo o pesado 
batente. Abraou Loupin e arrastou-o para dentro do acampamento 
entrincheirado. - Ah! A sombra de Oleg Vassilivitch! Tambm 
foste encarregado de uma misso secreta na Rssia? Talvez junto 
do bispo Ouspensk?
 - Ento os outros encontram-se em tua casa, padre?
 Loupin cambaleava ao dirigir-se para a tenda do pope. "Mais dez 
passos...", pensava, "e desmaio! J no sinto os ossos..."
 - Esto a dormir. - O pope apontava para os dois corpos 
adormecidos no cho. - Queres que os acorde?
 - No, no, deixa-os descansar. - Loupin cambaleou mais um pouco 
ao aproximar-se dos dois adormecidos e deixou-se cair junto 
deles. Depois, aceitou o copo de cerveja que o pope lhe oferecia 
e bebeu-o, olhando para a filha adormecida. Marina parecia uma 
criana em busca de refgio junto do enorme Mouchkov. Contudo, 
quanta energia encerrava este frgil ser!
 "Encontrei-a", pensava Loupin, no auge da alegria, limpando a 
boca com as costas da mo. " minha de novo..."
 Nenhuma vida se vive em vo, mas so muitos os que ignoram este 
facto.

 Em seguida, estirou-se ao comprido, suspirou e adormeceu 
imediatamente.
 Dos seis cossacos enviados em sua perseguio separavam-nos 
ainda quatro horas de cavalgada.

 O carrilho do pequeno campanrio acordou-os, pela manh. O pope 
puxava pela correia de couro presa ao sino. Este balanava no 
cimo da tenda feita de madeira, uma espcie de cubculo 
construdo de um dos lados.
 Loupin foi o primeiro a levantar-se, suspirando baixinho, pois o 
sono no eliminara o cansao armazenado nos seus ossos. Coxeou em 
direco  lareira de pedras cimentadas e serviu-se de ch 
quente, numa tigela de barro. A mulher ostaca, novamente 
presente, confeccionava uma papa de aveia e, tal como na vspera, 
observava os cossacos com um ar hostil. 
 Ento Mouchkov acordou, sentou-se e gritou:
 - No ser possvel dar uma sova naquele tocador de sinos? - 
Esta pergunta acordou Marina, cujo primeiro olhar se dirigiu a 
Loupin, sentado  lareira, sorvendo o ch em pequenos goles.
 - Pap... - gaguejou ela. Mas, logo de seguida, numa voz mais 
segura e abrindo os braos, exclamou:
- Velhote, encontraste-nos! Ivan, ele juntou-se-nos!
 - Quem? - perguntou Mouchkov, ainda mal acordado. - Quem  que 
se nos juntou? - Esta palavra reanimou imediatamente toda a sua 
agressividade. - Marinouchka, esconde-te! Eu defender-te-ei!
 Acabava de desembainhar a arma quando reconheceu Loupin, que 
continuava a beber ch serenamente.
 A mulher ostaca distribua a papa fumegante pelas gamelas.
 - Alexandre Grigorivitch! - exclamou Mouchkov, boquiaberto. 
Marina sentiu, ento, vontade de abraar o pai, mas conteve-se e 
baixou os braos. "Sou Boris Stepanovitch", disse para consigo 
mesma, bruscamente.
 "Sou um rapaz! No posso lanar-me nos braos de outro homem!"
 - Como te sentes, velhote? - murmurou ela, apoiando a mo no seu 
corao palpitante.
 - J no sinto os ossos - respondeu ele, enquanto a mulher 
ostaca pousava uma gamela  sua frente, fixando-o com um olhar 
feroz, que significava claramente: "Gostaria de cuspir nesta 
papa, de cuspir um veneno mortal!"
 O pequeno sino continuava a tocar, os religiosos so dotados de 
muita pacincia, mas quem teria respondido ao apelo? Os caadores 
percorriam as florestas. As lojas dos Stroganov ainda se 
encontravam desertas. Quem viria, ento, comerciar to cedo?
 Mouchkov e Marina sentaram-se  mesa, mas no comeram. O 
encontro com Loupin fizera-os esquecer a fome. O pope, no canto 
mais afastado da sala, largara a corda do sino, de couro 
entranado, e, depois de cuspir no cho, olhava atravs de uma 
seteira para a grande porta da cerca, na esperana de que algum 
viesse iniciar solenemente o dia de trabalho com uma orao. Mas 
ningum apareceu.

 - Quando parti a cavalo, ainda reinava o silncio - esclareceu 
Loupin, numa voz contida. - Se no me engano, devemos levar sete 
horas de avano. Galopei como poucos cavaleiros ousam fazer, mas 
agora precisamos de cavalos descansados, pois os cavalos de que 
dispomos no chegaro aos Urales!
 - Mas j temos cavalos  nossa disposio! - murmurou Mouchkov. 
O pope, de p diante do pequeno altar que consistia em quatro 
cones de estilo ingnuo e comovente, rezava com fervor. - 
Cavalos que pertencem  Igreja...
 - Ivan Matveivitch! - exclamou Loupin, num tom de censura.
 - Que prefere, velhote, roubar ou morrer?
 - Mais uma dessas perguntas diablicas  maneira dos cossacos!
 - Pensa na nossa situao, Loupin!
 - Poderamos tentar chegar a um acordo com o pope.
 - A Igreja alguma vez deu o que quer que seja de boa vontade? 
Alguma vez troca bom contra mau?
 Loupin suspirou e olhou para Marina com ternura:
 - Encarreguem-se de tudo - aconselhou, em voz baixa -, eu no 
verei nada. Vendo bem, agora sou um dicono. Quando partiremos?
 - Mas no um verdadeiro dicono, velhote! - corrigiu Mouchkov, 
com um sorriso aberto.
 - Sou, sim! Ordenado e ungido pelo bispo em pessoa! - replicou 
Loupin em voz alta. Sentia-se ferido quando algum aludia s 
circunstncias particulares da sua ordenao. - Quando partimos?
 - Imediatamente - respondeu Marina. - ser possvel?
 Loupin fez um gesto de assentimento. Por todo o corpo, sentia 
dores, caimbras musculares, ardor nos ossos inflamados. "Tero de 
me transportar para o meu cavalo", pensava ele, "mas, uma vez a 
cavalo, suportarei a viagem! Que significam algumas dores quando 
se trata de ver chegar a minha filha, s e salva, ao outro lado 
dos Urales? No pas de Perm, poderei enfim deixar-me cair do 
cavalo e, quando estiver estendido no cho, beij-lo-ei! Santa 
Rssia!" "Em que  que os cossacos ainda nos podero interessar?" 
O governador clarista de Perm enforcar todos os que lhe caiam 
nas mos!  um ucasse de Moscovo: "Perseguir todos os Cossacos 
como se fossem lobos!" E raras vezes o czar ter sido to 
prontamente obedecido.
 -  preciso mudar de roupa! - declarou Loupin de repente.
 - O qu? - Mouchkov comps a camisa e entalou os polegares no 
cinturo. - No mudei de identidade, continuo a ser Mouchkov, o 
cossaco!
 - Como cossaco, sers imediatamente atacado no pas de Perm! - 
retorquiu Loupin em voz alta. - J te esqueceste?
 - Maldito mundo! - Mouchkov suspirou e pousou a colher. - 
Conquistamos a Sibria em nome do czar, fazemos dele o prncipe 
mais rico do mundo... graas a ns a Rssia ser invencvel... 
mas ele condena-nos  morte!
 O pope terminara a orao matinal. Aproximou-se da mesa, 
sentou-se, fixou os trs hspedes com um ar um tanto vexado e 
mergulhou a colher na papa.
 - Comer sem ter rezado! - observou ele, num tom reprovador. - 
Irmo Loupin, esperava que me ajudasses a evitar tal pecado!
 - Tive uma conversa muito sria com estes dois cossacos... - 
Loupin tossiu, enquanto Mouchkov esboava um sorriso. - Eles iro 
a Ouspensk, mas eu no... e encarreguei-os de transmitir uma 
mensagem ao bispo.
 - In dulci jubilo! - declarou o pope, comovido.
 No desconfiava que, alguns minutos mais tarde, no lhe 
restariam motivos de satisfao.

 - Assim seja - respondeu Loupin, lanando um olhar  filha e a 
Mouchkov, para se certificar de que estavam prontos. Ento, 
ergueu-se e encaminhou-se, a coxear, para a porta:
 - Como est o tempo?
 - Vai estar um dia de sol e quente, irmo...
 - Deus  misericordioso...
 Loupin fez meno de abandonar a choupana rapidamente. Fechou a 
porta atrs de si e dirigiu-se, coxeando, para a loja que acabava 
de abrir. Pelo caminho, retirou do bolso um anel de ouro que o 
pope Koulakov lhe oferecera.
 - Em troca deste anel, d-me umas calas e uma camisa de 
campons! - pediu ele, pousando o anel em cima do balco. -  
para um homem esbelto... um pouco mais alto do que eu, mas muito 
mais estreito de ombros.
 - Em troca deste anel, velho? - perguntou o representante dos 
Stroganov. Examinou o anel, ergueu-o contra a luz do dia e piscou 
os olhos. - No vale muito...
 - Vale o suficiente para vos abrir o crnio, se me enganarem - 
respondeu Loupin tranquilamente. - Para que precisam os Stroganov 
de enganar um velho? Vamos, umas calas, uma camisa e, para 
completar, umas botas resistentes e fortes, ou vo para o Diabo!
 Nunca se deve falar durante muito tempo com gente grosseira, 
sobretudo num deserto onde ningum vem em nosso auxlio, no caso 
de sermos atacados. O anel era valioso... o velho sabia-o... o 
homem de servio dos Stroganov ps-se a pensar mais honestamente 
e procurou nos armrios e no material de reserva o que Loupin lhe 
pedira.
 Entretanto, as coisas passavam-se menos pacificamente na tenda 
do pope. Mouchkov despira o fato cossaco e conservava apenas uma 
camisa de linho muito curta, que lhe cobria o ventre; assim, a 
mulher ostaca observava-o intensamente e o pope esquecera-se de 
comer a papa de aveia, que arrefecia na gamela de barro.
 - Ests louco, Mouchkov? - gaguejou ele. - Queres violar uma 
serva, na igreja?  minha vista?
 - Que queres tu que eu faa da tua ovelha e dos seus olhares de 
travs? - inquiriu grosseiramente Mouchkov.
- Tu  que me podes ajudar, padre!
 - Ivan Matveivitch! - balbuciou o pope, horrorizado.
 Ergueu-se de um pulo, recuou at  parede e apontou a cruz que 
trazia ao peito, como para esconjurar o Diabo.
 Mouchkov olhava-o, pensativo, enquanto media mentalmente a opa 
do padre, pensando que talvez lhe ficasse apertada no peito e nas 
ancas, mas lhe assentaria bem em comprimento. S os ombros, os 
ombros largos de Ivan constituiriam um problema...
 - Despe-te! - ordenou Mouchkov.
 O jovem pope ergueu a cruz, na mo trmula:
 - Arreda, Satans! - gritou ele, furioso. - No me toques, 
porco! Boris Stepanovitch, tu ests armado, chama-o  razo!
 - Padre, acontece que Mouchkov precisa da sua opa - respondeu 
tranquilamente Marina. - S que ele no se exprime com clareza.
 - Mas ele no pode usar a indumentria de um sacerdote! S um 
homem ordenado...

 - Despe-te, e depressa! - vociferou Mouchkov, arrancando a cruz 
das mos do pope. Este tremia como varas verdes mas, quando 
Mouchkov lhe aplicou uma bofetada, desapertou a batina, despiu-a, 
de lgrimas nos olhos e disse, dirigindo-se a Mouchkov:
 - Que se passa contigo, Ivan Matveivitch? Ah! Como a Sibria 
vos modificou. Ento no partiram  conquista de Mangaseja 
empunhando os estandartes sagrados?
 - E regressaremos  Rssia envergando uma batina sagrada! - 
gracejou Mouchkov. - No  um pressgio?
 Entretanto, sempre a vociferar, tentava em vo abotoar a batina 
no pescoo, mas esta ficava-lhe terrivelmente apertada, no dando 
sinais de esperana.
 - Ora! - exclamou Marina. - Teremos de explicar que no  a 
primeira vez que um religioso engorda num pas conquistado!
 A porta abriu-se bruscamente... Loupin precipitou-se para a 
filha, trazendo debaixo do brao o fato de campons. Estancou ao 
ver Mouchkov vestido de pope. Na verdade, acabava de perguntar a 
si mesmo: "Que fazer dele, como encontrar uma fatiota que sirva a 
Mouchkov?" E ele ali estava, disfarado dentro da inesperada 
indumentria, sorrindo para Loupin. Quanto ao pope, reduzidamente 
vestido, encolhera-se ao canto da lareira.
 A mulher ostaca, de p junto ao forno de pedras, ofegava. Dois 
russos, de sexo  mostra e nenhuma violao, constitua uma 
experincia extraordinria!
 - Impossvel! - declarou Loupin, uma vez passado o primeiro 
choque. - Mouchkov, despe-te imediatamente, feres o meu corao 
de homem piedoso consagrado ao servio do Senhor!
 - Se no fosses pai de quem ns sabemos... apanhavas uma sova! - 
gritou Mouchkov, ofegante. - Cavalgarei at ao pas de Perm com 
esta batina e quem se rir de mim ver o seu prprio crnio aberto 
ao meio! Aleluia!
 Mouchkov olhou de soslaio para Marina e viu que esta se ria, o 
que o tranquilizou.
 "Talvez tenha feito de mim um cossaco diferente dos outros", 
pensou, "a verdade, no entanto,  que se tornou uma mulher 
cossaca! Ah! Que vida iremos viver, Marinouchka! No precisaremos 
de mendigar, como artfices famlicos, quando chegarmos ao pas 
de Perm!"
 - Eu ocupo-me dos cavalos! - disse ele. - Alexandre 
Grigorivitch, consola o teu irmo em Cristo...
 Como a choupana se compunha de uma nica diviso, o pope e a 
mulher ostaca tiveram direito a uma surpresa ainda maior. 
Marina despiu-se para envergar o traje de campons e, quando 
deixou cair as vestes cossacas, mostrando que era uma rapariga 
dotada de todas as belezas que uma natureza benevolente pode 
dispensar, o jovem pope desviou o olhar e desfaleceu:
 - Boris Stepanovitch - balbuciou - estou inconsolvel - A mulher 
ostaca soltou um guincho e saiu a correr.
 - A Sibria est cheia de prodgios! - declarou Loupin num tom 
convincente. - Irmo, no ouviste dizer que em Mangaseja se vem 
homens com a boca no cimo da cabea? repara agora no que 
aconteceu a Boris Stepanovitch! Teremos de partir o mais depressa 
possvel ao encontro do bispo de Ouspensk!

 Ajudou Marina a vestir-se, pegou-lhe na mo e saiu com ela da 
cabana. L fora encontraram Mouchkov, que selara os bem 
alimentados cavalos pertencentes ao clero, e dois empregados dos 
Stroganov, que ele se apressara a sovar e se afadigavam agora a 
carregar os cavalos de mercadorias. Agiam em silncio, de olhos 
esbugalhados, pois nunca tinham visto um sacerdote to grosseiro: 
at mesmo Oleg Vassilivitch recitava alguns versculos das 
Sagradas Escrituras antes de atacar. s nove horas da manh 
estava tudo pronto. Loupin, Marina e Mouchkov, montados em 
vigorosos cavalos, abandonaram o acampamento fortificado e 
construdo por ordem dos Stroganov. O jovem pope, de p  entrada 
da cabana, amaldioava-os ruidosamente, enquanto os homens dos 
Stroganov se comprometiam a enviar uma mensagem para Oriol.
 Mas no conseguiram faz-lo to depressa quanto supunham.
 Quatro horas mais tarde, os seis cossacos que perseguiam os 
fugitivos entravam pela porta, aberta de par em par. No 
hesitaram em esmagar quem se lhes apresentava pela frente e, 
depois de apeados, invadiram aos pares o interior das cabanas.
 - Louvado seja o Senhor! - rugiram os dois intrusos no interior 
da tenda do pope. Este, ajoelhado em frente do altar, vira-se 
obrigado, no possuindo nada de melhor, a vestir as calas de 
Mouchkov.
 - Viram passar por aqui Mouchkov, Loupin e Boris Stepanovitch?
 - Com certeza - respondeu o pope num tom sinistro -, e que o 
Diabo lhes siga os passos.
 - Ah! As calas de Ivan Matveivitch! - exclamou um dos cossacos 
estendendo a mo. - Estou a reconhec-las!
 - E em cima da mesa, o bon vermelho de Boris!
 Arrancaram o pope s suas oraSes e arrastaram-no para fora da 
cabana. O pope gritava, suplicava e acabou por chorar.
 Entretanto, os restantes cossacos interrogavam os empregados dos 
Stroganov, aproveitando para surripiar da cabana dos caadores 
algumas preciosas peles de zibelina e para saborear uma pipa de 
aguardente de reserva.
 - Patifes! Gritava o chefe da expedio punitiva. - Que lhes 
fizeste? Porque esto aqui as suas roupas?
 - Roubaram-me - gemeu o padre. - Sim, roubaram-me a batina, os 
cavalos, uma cruz... que Deus os castigue!
 - Afinal, Mouchkov continua a ser um verdadeiro cossaco! - 
concluiu o cossaco encarregado da misso por Jermak, cheio de um 
secreto orgulho. - H quanto tempo partiram?
 - H quatro horas.
 - Nesse caso, alcan-los-emos! - correram para os cavalos ainda 
fumegantes e saltaram para as selas de um pulo, habilidade em que 
os Cossacos so exmios. - Precisamos de os capturar antes dos 
Urales. Ho+! Ho+!
 Manejavam os chicotes soltando gritos estridentes e partiram a 
galope atravs do grande porto, como um peloto infernal que 
tivesse vindo perturbar esta pequena e pacfica colnia...
 "Antes dos Urales!" Sabiam que no deviam aventurar-se pelo pas 
de Perm - eram ordens de Jermak - mas cada um deles receberia mil 
rublos se levassem a Jermak Timofeivitch as cabeas de Mouchkov, 
Loupin e Boris.
 E, desta vez, Jermak estava decidido a pagar.


 Os fugitivos faziam em sentido inverso o caminho percorrido no 
Inverno precedente ao longo do Toura. Encontravam por toda a 
parte marcas deixadas por Jermak e pelos seus homens: barcos 
danificados, jangadas apodrecidas, acampamentos provisrios 
construdos quando passavam a noite nas margens do rio e dos 
quais apenas restavam as muralhas de pedra solta. Chegaram mesmo 
a encontrar vestgios de fogueiras, das quais restavam troncos de 
rvores meio consumidos. Nostlgico, Mouchkov detinha-se, por 
vezes, olhando fixamente os testemunhos da marcha em direco  
Sibria, aventura insigne de um milhar de cossacos, de 
sacerdotes, de mercadores, de caadores, que ficariam conhecidos 
na histria mundial como exemplo nico.
 Quando se afastaram do Toura, para seguirem ao longo do rochoso 
Tagil, quando atingiram o Charavlia, para cujas margens haviam 
rebocado as pesadas embarcaSes durante dias e dias, Loupin e os 
seus filhos refugiaram-se novamente nas grutas para passar a 
noite, grutas que tinham descoberto por essa poca nos macios 
rochosos e cujas entradas alongaram. Tambm a, encontraram 
utenslios esquecidos, resto de cordame. 
 Por trs vezes, dormiram em acampamentos fortificados; 
cruzaram-se com colunas de reabastecimento, presentemente 
enviados pelos Stroganov atravs dos Urales, enquanto Mouchkov se 
familiarizava cada vez mais com o seu papel de pope, embora a 
batina no lhe assentasse muito bem.
 Perante o descontentamento de Loupin, que falava de conduta 
blasfema em relao ao Senhor, Mouchkov abenoava os 
palafreneiros dos Stroganov que, com sentimentos mitigados e, 
muitas vezes amedrontados, se viam obrigados a penetrar na 
Sibria desconhecida.
O comrcio com as regiSes j conquistadas implantara-se 
rapidamente: as actividades de um Stroganov nunca paravam. Antes 
dos habitantes das zonas ocupadas retomarem flego e se 
aperceberem de que tinham sido derrotados, j os empregados dos 
Stroganov se estabeleciam em feitorias, nas quais se dedicavam  
troca e compra de mercadorias. No havia tempo para criticar os 
novos patrSes... Estes traziam dinheiro e novas mercadorias e, 
feitas as contas, quando se pode viver, comer, ter um tecto sob o 
qual se acolher e conceber filhos tranquilamente, pouco importa 
que o senhor de todas as coisas se chame Koutchoum ou Ivan.
 Um dia, ao cair da noite, Mouchkov, Marina e Loupin detiveram-se 
no fundo de uma fenda, cujas elevadas paredes rochosas deixavam 
passar um carreiro.
Alguns tempos atrs, Jermak e o seu bando tinham acampado ali e 
Mouchkov recordava o esconderijo onde abandonara um barril de 
carne salgada.
 O barril ainda l estava, mas algum o arrombara para consumir o 
contedo.
 - E agora, que faremos? - perguntou Loupin um pouco mais tarde. 
A noite estava clara, quente e calma, uma noite para amantes e 
Mouchkov perguntava a si mesmo como fazer compreender a um pai 
que poderia dormir mais adiante, em outra cavidade da rocha, 
pois, com tal tempo, os apaixonados... Mas Loupin tinha o sono 
leve e acordava sempre que Mouchkov, debaixo do cobertor, se 
atrevia a acariciar Marina. Ento, Loupin soerguia-se e clamava: 
"Ivan Matveivitch, no te esqueas de que agora usas uma batina 
sacerdotal!"
 - Que queres dizer com esse "que faremos", velhote? - perguntou 
por sua vez Mouchkov. - Tens calor? H uma gruta mais adiante que 
me parece mais fresca.
 Loupin olhou-o de alto a baixo e Mouchkov baixou a cabea.

 - Quis dizer o seguinte: que faremos quando tivermos atingido o 
Tchousovaia? Construiremos uma jangada para descer a corrente? 
Iramos mais depressa e pouparamos esforos.
 Mouchkov pensou em todas as misrias sofridas quando subiram o 
rio a remos e meneou a cabea:
 - Agora tenho um cavalo! Nunca mais na vida quero ouvir falar de 
jangadas ou de barcos! Iremos a cavalo.
 - No! - Mouchkov teve a coragem de contrariar Marina e 
surpreendeu-se por ela aceitar sem refilar. - Deixa-me, pelo 
menos, uma recordao da minha vida de cossaco, o meu cavalo!
 Em breve puderam verificar quo alegre pode ser a vida de um 
cossaco. Subitamente, junto ao seu refgio, ouviu-se um grande 
tropel de cavalos. Mouchkov e Loupin pegaram imediatamente nas 
armas. Um dos condutores da coluna de abastecimento com que se 
tinham cruzado na vspera, e que Mouchkov deixara partir rumo  
Sibria com a sua bno, penetrou na gruta; trazia um profundo 
ferimento na testa.
 - Os cossacos! - gritou ele. - e aproximam-se! Fugi, depois de 
ter sido atacado por eles. Perguntaram, se vos tinha encontrado. 
Falaram de um pope chamado Mouchkov. Sois vs, padre?
 - Sou! - exclamou Mouchkov. - Abenoado sejas por teres vindo 
at ns! Prossegue o teu caminho e diz aos Stroganov que enviem 
trs grandes srios a Ouspensk!
 O piedoso mensageiro benzeu-se e apressou-se a desaparecer antes 
de ser visto pelos cossacos.
 - Eu sabia que Jermak nos perseguiria - confessou Loupin. -  
to capaz de odiar como uma mulher enganada!
 - Nunca pensei que nos alcanassem.
 Mouchkov preparou plvora e chumbo que retirou dos alforges e 
deu uma parte a Loupin, o que obrigou Marina a perguntar-lhe:
 - E eu?
 - Tu ficas aqui na gruta! - respondeu Mouchkov.
 - Porque dizes tolices! - gritou ela.
 -  uma ordem! - reforou Loupin.
 Marina voltou-se para o pai e este sentiu fugir a autoridade ao 
enfrentar os seus olhos azuis. Subitamente, compreendeu Mouchkov, 
que se queixava de se enternecer perante o olhar de Marina.
 Marina desembainhou o punhal que usava  cinta e estendeu a mo 
a Loupin:
 - Ser o nosso ltimo combate - disse ela, convicta.
- Mais adiante encontra-se o pas de Perm, onde nos espera uma 
nova existncia! Ento, no hei-de fazer nada para que possamos 
viver? Mouchkov! - prosseguiu, solene. - Trouxeste-me para a 
Sibria como esplio, hoje sou eu que te levo como esplio para a 
Rssia! Que tens a dizer?
 - Nada, Marinouchka - respondeu Mouchkov, entregando-lhe plvora 
E CHUMBO E AVANANDO PARA A ENTRADA DA GRUTA, ENQUANTO MARINA 
APAGAVA AS BRASAS DA FOGUEIRA.
 - S UM VERDADEIRO FANTOCHE NAS SUAS MOS! - RESMUNGOU LOUPIN NA 
ESCURIDO DA NOITE.
 MOUCHKOV CALOU-SE. "QUE RESPONDER?", PENSOU. TODOS OS HOMENS 
APAIXONADOS SE COMPORTAM COMO BURROS,  O QUE TORNA ESTE ESTADO 
TO DELICIOSO.

 O COMBATE FOI BREVE E A VITRIA RAPIDAMENTE OBTIDA. QUANDO SE 
TRATA DE SALVAR A PELE, NINGUM PENSA EM RESPEITAR AS REGRAS DE 
UM COMBATE LEAL.

 EM TODO O CASO, OS SEIS COSSACOS, PENETRARAM A CAVALO NA 
EMBOSCADA ARMADA POR MOUCHKOV E LOUPIN. FORAM ABATIDOS NO FUNDO 
DO CAMINHO, ENTRE AS MURALHAS DOS ROCHEDOS, SEM SEQUER TEREM 
VISTO OS ADVERSRIOS, SEM PODEREM DEFENDER-SE, SEM TEREM TIDO 
TEMPO DE COMPREENDER O QUE SE PASSAVA.
 OUVIRAM-SE TIROS. OS TRS CAVALEIROS QUE VINHAM  FRENTE CARAM 
DAS SELAS. O CU ESTAVA LIMPO, A VISIBILIDADE ERA BOA. COMO 
MOUCHKOV E LOUPIN POSSUAM CADA UM DELES DUAS PISTOLAS, OS DOIS 
COSSACOS QUE SE SEGUIAM ABATERAM-SE IGUALMENTE NO SOLO ROCHOSO, 
SEM UM GRITO, DE TAL MODO AS BALAS PARTIRAM CERTEIRAS.
 O LTIMO COSSACO TEVE MENOS SORTE: O CAVALO, ASSUSTADO COM OS 
TIROS, EMPINOU-SE E O CAVALEIRO PERDEU AS ESTRIBEIRAS. AINDA 
TENTOU DESEMBAINHAR O SABRE, AO ERGUER-SE DE UM PULO, MAS 
MOUCHKOV J SE ENCONTRAVA  SUA FRENTE E A SUA APARIǦO, VESTIDO 
DE POPE, PARALISOU O COSSACO POR ALGUNS SEGUNDOS. IVAN 
MATVEIVITCH DISFARADO DE POPE! MUITO SE RIRIA JERMAK! 
 ESTES SEGUNDOS FORAM DECISIVOS:
 - S TU, PAVEL IVANOVITCH KHROMOV. OUSAS, ENTO, PERSEGUIR UM 
VELHO AMIGO DO DON?
 EM SEGUIDA, MOUCHKOV ESFACELOU O CRNIO DO COSSACO. POR DETRS 
DOS ROCHEDOS, SURGIU LOUPIN; VINDO DO OUTRO LADO, APROXIMOU-SE 
MARINA, DE PUNHAL CURVO NA MO.
 - ACABOU-SE! - DECLAROU MOUCHKOV, ENCOSTANDO-SE  ESCARPA 
ROCHOSA. - ERA KHROMOV! BRINQUEI COM ELE NA AREIA DAS MARGENS DO 
DON. DEUS ME PERDOE, MAS QUE PODERIA EU FAZER?
 DEIXOU CAIR O SABRE, OCULTOU O ROSTO ENTRE AS MOS E CHOROU.
 MAIS TARDE, ENTERRARAM OS SEIS COSSACOS DENTRO DE UMA DAS 
GRUTAS, CUJA ENTRADA TAPARAM COM PEDRAS, TAREFA QUE LHES CUSTOU 
UMA NOITE DE TRABALHO. COMO FICAVAM COM OS CAVALOS, LOUPIN ACABOU 
POR DIZER PARA OS SEUS BOTSES: "SERIA UMA TOLICE SERVIRMO-NOS DE 
UMA JANGADA. AFINAL, J NO TEMOS DE QUEM FUGIR. ACABOU-SE, MEUS 
FILHOS, SOMOS LIVRES!"

CAPTULO 10

 A LIBERDADE  UMA COISA ESTRANHA. TODOS NOS ESFORAMOS POR A 
ALCANAR, POR A CONSERVAR, POR A DEFENDER... MAS, QUANDO A 
POSSUMOS, ELA MOSTRA-SE TO RETICENTE COMO UMA FREIRA. LOUPIN, 
MARINA E MOUCHKOV VIVERAM DE IMEDIATO ESTA EXPERINCIA.
 ENQUANTO ATRAVESSAVAM OS URALES, A CAVALO, TRANSPONDO COM 
DIFICULDADE OS VALES E LADEANDO PRECIPCIOS, IMAGINAVAM A VIDA EM 
LIBERDADE DE UMA MANEIRA MUITO DIFERENTE DA QUE SE LHES AFIGUROU 
LOGO QUE ENTRARAM NO PAS DE PERM.
 DEIXANDO ATRS DE SI O TCHOUSOVAIA, ESSE RIO DE NOME SINISTRO 
QUE FORA PARA ELES A PORTA DA SIBRIA, APRESENTARA-SE-LHES, A 
OESTE, A NOVA COLNIA FUNDADA PELOS STROGANOV, FLORESCENTE 
FEITORIA COMERCIAL QUE JERMAK MANDARA RODEAR, UM ANO ANTES, POR 
UMA MURALHA CIRCULAR DE PEDRA. RECEBERAM ENTO DESAGRADVEIS 
NOTCIAS TRANSMITIDAS POR UM MENSAGEIRO QUE J TINHAM ENCONTRADO 
NOS URALES E QUE RETOMAVA O CAMINHO DA SIBRIA.
 - EM PLENO VERO, TEM SOPRADO UM VENTO MUITO FRIO! - INFORMOU O 
VIAJANTE, AO CONTEMPLAR A SOTAINA DE POPE, SINGULARMENTE ROTA E 
GASTA, QUE MOUCHKOV ENVERGAVA.
- NO SEI DONDE VENS, PADRE, POIS S NOS VIMOS NOS URALES, MAS O 
QUE J ENTO ME SURPREENDEU FOI O FACTO DE NO USARES BARBA COMO 
OS OUTROS POPES.

 - ESTAVA CHEIA DE PIOLHOS. - RESPONDEU MOUCHKOV, ANTES QUE 
LOUPIN TIVESSE TEMPO DE FALAR. - PIOLHOS MONGIS! PARECE-TE QUE 
OS DEVIA TRANSPORTAR PARA A RSSIA?
 - VAI CONTAR ESSA HISTRIA AOS OFICIAIS DO CZAR! - O 
PALAFRENEIRO BEIJOU A CRUZ QUE MOUCHKOV TRAZIA AO PEITO E 
OBSERVOU-O DE ALTO A BAIXO, UM TANTO INCRDULO. - DIZEM QUE O 
PAS EST CHEIO DE FALSOS SACERDOTES, QUE ANDAM DE TERRA EM TERRA 
A PREGAR E A ROUBAR! OS SOLDADOS PRENDEM-NOS E OS QUE NO FOREM 
VERDADEIRAMENTE CONHECEDORES DA RELIGIO - UM POPE VERDADEIRO 
ASSISTE AOS INTERROGATRIOS - SO ENVIADOS PARA AS MASMORRAS! OS 
MAIS VIS SO TORTURADOS E ARRANCAM-LHES OS OLHOS! PADRE, TOMA BEM 
CONTA DE TI!
 "ESTAMOS EM MAUS LENIS!", PENSOU MOUCHKOV QUANDO O MERCADOR SE 
AFASTOU.
 - QUE APRENDESTE COM OLEG VASSILIVITCH? - PERGUNTOU EM SEGUIDA, 
DIRIGINDO-SE A LOUPIN.
 - APRENDI A PROFERIR IMPROPRIOS, A BEBER E A CONVIVER COM 
PROSTITUTAS! - RESPONDEU LOUPIN. -  QUANTO BASTA PARA QUEM NO 
QUISER SABER MUITO!
 MOUCHKOV OLHOU PARA A SUA INDUMENTRIA. A SOTAINA ESTAVA SUJA, 
ROTA E PUDA PELO CONTACTO COM A SELA. QUANDO O SOL INCIDIA NO 
SEU TRASEIRO, VIA-SE-LHE A PELE ATRAVS DOS FIOS DO TECIDO.
 - PRECISO DE ROUPA NOVA - CONCLUIU.
 - MAS COMO OBT-LA? A MAIS PEQUENA COMPRA, A MAIS SIMPLES 
TENTATIVA DE TROCA E ALERTAREMOS OS SOLDADOS! - EXCLAMOU MARINA. 
- OUVIRAM BEM? A POPULAǦO COLABORA NA DESCOBERTA DOS FALSOS 
POPES!
 - QUE SOLUǦO NOS RESTA, ENTO? - PERGUNTOU MOUCHKOV, ABRINDO OS 
BRAOS. - TEREMOS DE ROUBAR A ROUPA DE QUE NECESSITAMOS! NO 
TENHO SEMPRE DITO QUE "MAIS VALE TIRAR DO QUE PEDIR?"
 - IVAN MATVEIVITCH! - CRITICOU MARINA, NUM TOM SEVERO. - ESTS 
A FALAR COMO UM HOMEM DECIDIDO A GANHAR A VIDA TRABALHANDO, COMO 
ME PROMETESTE?
 - LOUPIN! ELA EST NOVAMENTE A TENTAR ENTERNECER-ME! - DECLAROU 
MOUCHKOV, DESOLADO. - CONHECE ALGUMA MANEIRA DE NOS 
DESEMBARAARMOS?
 - PARTIREI  FRENTE PARA ESTUDAR AS POSSIBILIDADES - RESPONDEU 
LOUPIN. - ASSIM, SOZINHO, NO ME FAREI NOTAR. TENTAREI OBTER 
ALGUMAS PEAS DE ROUPA NA PRXIMA ALDEIA. - FITOU PREOCUPADO 
MOUCHKOV E, EM SEGUIDA, DESVIOU O OLHAR PARA MARINA. - GRANDE 
LIBERDADE! - EXCLAMOU. - NA SIBRIA, JERMAK QUER MATAR-TE, NA 
RSSIA, O CZAR QUER MATAR-TE POR SERES COSSACO E, NO PAS DE PERM 
PRENDER-TE-O POR SERES UM FALSO POPE! FAAS O QUE FIZERES, IVAN 
MATVEIVITCH, SERS SEMPRE ACUSADO! DIFICILMENTE ENCONTRAREMOS UM 
LOCAL TRANQUILO!
 - EM MOSCOVO... - COMEOU MARINA, HESITANTE, POIS SABIA QUE 
MOUCHKOV ERA UM HOMEM MAIS LIVRE DO QUE UM PSSARO... - QUALQUER 
UM PODIA ABAT-LO E SER RECOMPENSADO PELO ASSASSNIO! EM MOSCOVO 
- REPETIU -, NINGUM NOS PERGUNTAR QUEM SOMOS...
 DISSERA-O OLHANDO DE FRENTE PARA MOUCHKOV.
 MOSCOVO! LOUPIN FIXAVA UM PONTO LONGNQUO. FLORESTAS, PLANCIES 
PEDREGOSAS, A TRAVESSIA DO KAMA ONDE, PARA QUALQUER HOMEM, 
COMEAVA A LIBERDADE... EXCEPTO PARA MOUCHKOV.
 - SABES ONDE FICA MOSCOVO, MINHA FILHA, E QUANTAS VERSTS NOS 
SEPARA DESSA CIDADE? MILHARES DE VERSTS!

 - TENS MEDO, PAP? - MARINA ABRAOU MOUCHKOV PELA CINTURA E 
ENCOSTOU-SE A ELE, ENQUANTO LHE ACARICIAVA O CABELO. TAMBM ELE, 
DE AR AUSENTE, FIXAVA O HORIZONTE, ENQUANTO LHE TREMIAM OS 
LBIOS:
 - FOMOS  SIBRIA - DISSE ELE -, E VOLTMOS DA SIBRIA PARA A 
RSSIA... ALCANAREMOS MOSCOVO... E TUDO O QUE QUISERMOS NESTE 
MUNDO PORQUE NOS AMAMOS.

 ALEXANDRE GRIGORIVITCH PARTIU, POIS, A CAVALO, SOZINHO COMO 
COMBINADO, DO TCHOUSOVAIA PARA O PAS DE PERM E INFORMOU-SE SOBRE 
O ESTADO DE ESPRITO DA POPULAǦO. ESTA VIVIA TRANQUILA, 
GOVERNADA PELOS STROGANOV; NO ERA LIVRE, POIS O PAS FORA 
CONQUISTADO E OCUPADO PELOS RUSSOS, MAS TINHAM QUE COMER E A 
AGRICULTURA PROSPERAVA. OS STROGANOV TRAAVAM ESTRADAS QUE NO 
FICAVAM SUBMERSAS PELA LAMA, DUAS VEZES POR ANO, NO OUTONO E NA 
PRIMAVERA. NAS FEITORIAS, PAGAVAM RAZOAVELMENTE AS PELES, OS 
SALINEIROS DAVAM TRABALHO MESMO QUELES QUE, DEVIDO  SUA 
ESTUPIDEZ, NO PODERIAM SENO ERRAR PELOS CAMINHOS. ALDEIAS 
FORTIFICADAS PROTEGIAM OS HABITANTES DAS INCURSSES DOS VOGULOS E 
DOS ANTIGOS SENHORES NACIONALISTAS. EM SUMA, NO PAS DE PERM A 
VIDA ERA SUPORTVEL.
 AT AO DIA EM QUE SURGIRAM OS SOLDADOS DO CZAR...
 OS STROGANOV ADIARAM TANTO QUANTO POSSVEL ESTA INVASO MILITAR. 
O AV ANIKA, RAPOSA ASTUTA, PROMETERA A IVAN IV ASSEGURAR A 
MANUTENǦO DA ORDEM PBLICA. DO MESMO MODO, OS IRMOS JACOB, 
GREGOR E SIMEO CONSEGUIRAM PERSUADIR O CZAR DE QUE A PRESENA 
DOS MILITARES S AUMENTARIA O CLIMA DE INQUIETAǦO. MAS 
PRESENTEMENTE ERAM OS JOVENS STROGANOV, NIKITA E MXIMO, QUE 
GOVERNAVAM O PAS, SOBRE O KAMA. ORA, IVAN, NA LONGNQUA CIDADE 
DE MOSCOVO, MOSTRAVA-SE HESITANTE QUANTO A ESTES SENHORES, QUE 
REINAVAM NAS SUAS PRPRIAS TERRAS. A NOTCIA DA CHEGADA DE JERMAK 
 SIBRIA E O FACTO DESTE TER DERROTADO POR DUAS VEZES AS TROPAS 
DE KOUTCHOUM, FOI PARA O CZAR UMA ESPCIE DE SINAL.
 - ESTO A TORNAR-SE DEMASIADO PODEROSOS, ESSES STROGANOV - 
CONFESSOU ELE, TACITURNO, AO SEU CONFIDENTE BORIS GODOUNOV.
 IVAN, QUANTO MAIS ENVELHECIA, MAIS CRUEL SE TORNAVA. J NO 
TINHA AMIGOS NEM, DE RESTO, NINGUM AMBICIONAVA O TTULO. SER 
AMIGO DE IVAN IV SIGNIFICAVA VIVER SOB A AMEAA DA FORCA... TENDO 
COMO PERSPECTIVAS A CEGUEIRA, A LNGUA ARRANCADA, A CASTRAǦO... 
ACSES ESTAS QUE SE PODIAM CONSIDERAR, CONTUDO, TESTEMUNHOS DE 
APREO POR PARTE DO SOBERANO.
 APENAS DOIS BOIARDOS VIVIAM AINDA NA ESFERA DO CZAR: O GORDO 
BORIS GODOUNOV, QUE AGUARDAVA A HORA DA MORTE DO CZAR, E O 
PRNCIPE CHOUISKY, O ESPRITO ABERTO, O ELEGANTE INTRIGUISTA, EM 
QUEM GODOUNOV ALIMENTAVA A IDEIA DE QUE PODERIA SER O FUTURO 
CZAR, ENQUANTO PREPARAVA EM SEGREDO AS BASES DO SEU PODER 
PESSOAL.
 EM MOSCOVO, REINAVA O MEDO. TODOS OS DIAS HAVIA UMA EXECUǦO. 
NAS IGREJAS, OS CRENTES REZAVAM E ENTOAVAM CNTICOS PELA 
PRESERVAǦO DAS SUAS VIDAS, NA VERDADEIRA ACEPǦO DO TERMO, E 
QUANDO O CZAR ENVIOU PARA O EXLIO, E DEPOIS MANDOU ASSASSINAR O 
METROPOLITA DE MOSCOVO, A IGREJA COMPREENDEU POR SUA VEZ QUE, SE 
DEUS PARECIA ESTAR LONGE, IVAN ERA OMNIPRESENTE E PARECIA 
PREFERVEL HONRAR O CZAR EM VEZ DE CRISTO QUE, SEM DVIDA, AMAVA 
OS MRTIRES, MAS NO OS PROTEGIA.
 - ENVIAREMOS TROPAS PARA O PAS DE PERM - DECLAROU IVAN QUE H 
MUITO ERA CONHECIDO POR O TERRVEL. - BORIS GODOUNOV, QUE RAZO 
APRESENTAREMOS PARA ESTA OCUPAǦO?

 - OUVI DIZER - RESPONDEU GODOUNOV, PENSATIVO - QUE PRECISAMENTE 
NO PAS DE PERM VAGUEIAM MUITOS FALSOS POPES POR CIDADES E 
ALDEIAS, PEDINDO ESMOLAS PARA IGREJAS E CONVENTOS QUE NO 
EXISTEM. E, DESTE MODO, ENRIQUECEM. OS STROGANOV SO COMERCIANTES 
ASTUTOS, BONS CRISTOS, PATRSES SEVEROS, MAS NO PODEM OCUPAR-SE 
DE TUDO. PRESENTEMENTE, A SUA ATENǦO EST VOLTADA PARA A 
SIBRIA... NO NOS DEVE SURPREENDER QUE O PAS SE RESSINTA. O 
GOSSOUDAR ENVIAR TROPAS PARA PROTEGER OS STROGANOV NAS MARGENS 
DO KAMA. ACEITARO COM CERTEZA ESTE PRESENTE DO CZAR.
 IVAN APROVOU, MENEANDO A CABEA. ENCONTRAVA-SE SENTADO NUMA 
POLTRONA FORRADA A PELE DE ZIBELINA. UMA CAPA ENVOLVIA-LHE A 
SILHUETA DESCARNADA, O BARRETE BORDADO A PROLAS E OURO 
ENCOBRIA-LHE O CABELO BRANCO E RALO.
A BARBA GRISALHA MAL CHEGAVA PARA COBRIR O PEITO MAGRO. TINHA 
SEMPRE FRIO, MESMO EM PLENO VERO, E AS JOVENS QUE O PRNCIPE 
CHOUISKY METIA NA SUA CAMA ERAM INCAPAZES DE O AQUECER. IVAN 
EXPULSAVA-AS E, NO DIA SEGUINTE, MOSTRAVA-SE AINDA MAIS 
RABUGENTO.
 HOMEM ENVELHECIDO E AZEDO, CRUEL, QUE SE SENTIA PERTO DO FIM MAS 
QUE NO SE RESIGNAVA A MORRER, POIS TEMIA O JULGAMENTO DE DEUS. 
CONTUDO, NOS LTIMOS ANOS, REZAVA MAIS DO QUE REINAVA E MANDAVA 
CONSTRUIR IGREJAS UMAS APS OUTRAS. "RAPOSA MATREIRA, ESTE 
GODOUNOV", PENSAVA, NESSE MOMENTO, O CZAR. "QUE FAR ELE QUANDO 
EU MORRER?
ASSASSINAR O PRETENDENTE AO TRONO, ESSE INDOLENTE, PARA OCUPAR O 
SEU LUGAR? OU CHOUISKY, ESSA PERSONAGEM GELATINOSA, MANDAR MATAR 
TODOS OS OUTROS? TANTOS RATOS  MINHA VOLTA! DEUS, DEIXA-ME VIVER 
PARA ENGRANDECER A RSSIA, TORNANDO-A INVENCVEL! EXIGE SANGUE E 
VIDAS HUMANAS, MAS O QUE  GRANDE, NA RSSIA, NO FOI CONSTRUDO 
COM SANGUE?"
 E, ENTO, AS TROPAS DO CZAR CAVALGARAM PARA LESTE DURANTE 
SEMANAS A FIO, A FIM DE PRESTAR AUXLIO, CHAMEMO-LHE ASSIM, AOS 
STROGANOV. NIKITA E MXIMO SERIAM INCAPAZES DE SE DEFENDER E O 
VELHO SIMEO, NO SEU MOSTEIRO, REGRESSARA  INFNCIA, PRONTO A 
ENVEREDAR PELO CAMINHO DO CU.
 ENQUANTO JERMAK E O SEU MILHAR DE HOMENS SE BATIAM NO TOBOL 
CONTRA OS CAVALEIROS DE MAMETKOUL, OS SOLDADOS RUSSOS OCUPARAM O 
PAS DE PERM, CONSTRURAM PEQUENAS FORTALEZAS E INICIARAM A 
PERSEGUIǦO AOS FALSOS POPES, AOS BANDIDOS, LADRSES E VAGABUNDOS. 
EXECUTARAM TAMBM ALGUNS CHEFES VOGULOS E UDMURTES E A NOTCIA, 
AO PROPAGAR-SE, TROUXE DE NOVO A PAZ.
 NAS IGREJAS, COMEOU-SE A REZAR SECRETAMENTE PELOS STROGANOV, E 
NO PELO CZAR. OS SENHORES REGIONAIS VINHAM DISFARADOS AT KAMA 
PARA IMPLORAR AOS STROGANOV E OBTER AJUDA CONTRA OS DEMNIOS DO 
CZAR.
 - A SIBRIA! - SUSPIRAVA MXIMO STROGANOV, O COMERCIANTE QUE 
DEIXAVA NIKITA, O ESTRATEGO, EXPLICAR A SITUAǦO AOS VISITANTES, 
APOIADO EM MUITAS CARTAS GEOGRFICAS:
 - O NOSSO FUTURO EST PARA L DOS URALES E O VOSSO TAMBM, 
IRMOS! O PODER DO CZAR S PARAR NAS MONTANHAS: MAS A SIBRIA 
SER NOSSA, CONFIEM EM NS!


 MOUCHKOV E MARINA, QUE ENCONTRARAM ABRIGO NUMA CAVERNA  BEIRA 
DO TCHOUSOVAIA, NO BENEFICIAVAM DESTAS PALAVRAS ENCORAJADOURAS. 
O PAI LOUPIN METERA-SE A CAMINHO H DOIS DIAS E ELES NO SABIAM 
SE AINDA SE ENCONTRARIA VIVO, OU SE TERIA SIDO RAPTADO, ATACADO 
OU AINDA QUEM SABE, ASSASSINADO. AO TERCEIRO DIA, APODEROU-SE 
DELES A INQUIETAǦO. PERMANECERAM DURANTE HORAS E HORAS OCULTOS 
POR UM ROCHEDO, AGUARDANDO O VELHO, DE OLHAR ATENTO AO VALE E 
PERSCRUTANDO O CAMINHO PELO QUAL ELE DEVERIA REGRESSAR. A 
ANGSTIA TORNARA-SE MAIS FORTE DO QUE O AMOR. NOS DOIS PRIMEIROS 
DIAS E NAS DUAS PRIMEIRAS NOITES QUE PASSARAM SOZINHOS, O DESEJO 
APODERARA-SE DELES. ABANDONARAM-SE TOTALMENTE  FELICIDADE, E 
MOUCHKOV, QUE AT ENTO AMALDIOAVA NOVO ORPOTCHKOV, POR TER 
COMEADO NESSA ALDEIA EM CHAMAS TODA A SUA DESGRAA, 
CONSIDERAVA-A AGORA UM LOCAL ABENOADO.
 TODAVIA, URGIA TER EM CONTA AS CONTINGNCIAS MATERIAIS. ASSIM, 
DE VEZ EM QUANDO, MOUCHKOV ARRASTAVA-SE PARA FORA DA CAVERNA E 
TRATAVA DE ALIMENTAR OS CAVALOS, O QUE NO ERA FCIL, POIS A ERVA 
ERA RIJA E A GUA DO TCHOUSOVAIA NO BASTAVA PARA LHES MATAR A 
SEDE. AO QUARTO DIA, MOUCHKOV TEVE DE SE ENTREGAR A UMA 
VERDADEIRA EXPEDIǦO PARA CONSEGUIR OBTER FORRAGEM. LEVOU CONSIGO 
QUATRO CAVALOS, ASSALTOU  MANEIRA DOS COSSACOS UM CAMPONS DO 
VALE E CARREGOU OS CAVALOS DE FORRAGEM, DEPOIS DE TER AMARRADO O 
CAMPONS, A MULHER E UM CRIADO A UMA VIGA DA SUA CHOUPANA. EM 
SEGUIDA, REGRESSOU AO SEU REFGIO NO PEDREGOSO TCHOUSOVAIA, 
ASSOBIANDO ALEGREMENTE. 
 DEPOIS DESTE INCIDENTE, DEVE TER REINADO UMA GRANDE AGITAǦO POR 
TODO O VALE. UM POPE ATACARA UM CAMPONS E ROUBARA FORRAGEM, 
CARNE E AVEIA, GRITANDO: "MALDITOS SEJAM SE OUSAREM PROFERIR UMA 
PALAVRA!" UM FACTO NOVO QUE RECORDAVA ESTRANHAMENTE A PASSAGEM DE 
JERMAK POR ESTA REGIO...
 AO ENTARDECER DO QUINTO DIA, APARECEU LOUPIN, CANSADO, 
CAMBALEANDO EM CIMA DO CAVALO, COBERTO DE P. MOUCHKOV PEGOU-LHE 
AO COLO COMO SE FOSSE UMA CRIANA E TRANSPORTOU O VELHO PARA 
DENTRO DA CAVERNA. MARINA OFERECEU-LHE UMA INFUSO SIMPLES, QUE 
ELE BEBEU, ESFREGOU-LHE A TESTA E MASSAJOU-LHE O PEITO. S ALGUNS 
MOMENTOS DEPOIS LOUPIN CONSEGUIU ARTICULAR ALGUMAS PALAVRAS.
 - TROUXE-TE UM FATO DE CAMPONS, IVAN MATVEIVITCH - MURMUROU 
ELE, OFEGANTE, DE OLHAR EXAUSTO. - GRAAS A DEUS, CONSEGUI 
OBT-LO! AS TROPAS DO CZAR ESTO A PASSAR A REGIO A PENTE FINO 
PARA ENCONTRAREM UM FALSO POPE QUE ATACOU UM CAMPONS E O 
ESPANCOU, DEPOIS DE TER VIOLADO A MULHER E A FILHA!
 - ESTRANGUL-LOS-EI A TODOS! - RUGIU MOUCHKOV, ERGUENDO-SE DE UM 
SALTO. - AH! COMO SO MENTIROSOS! ABENOEI O CAMPONS E NEM OLHEI 
PARA A MULHER E, QUANTO  FILHA, NO HAVIA NENHUMA! MARINOUCHKA, 
SOU ALGUM BRUTO?
 - AGORA, J NO - RESPONDEU ELA, MUITO CALMA. - ACREDITO EM TI, 
IVANOUCHKA...
 - ELA ACREDITA EM MIM! - EXCLAMOU MOUCHKOV RADIANTE. - OUVISTE, 
VELHOTE? E TU?
 - ENTO SEMPRE FOSTE TU! - CONCLUIU LOUPIN, FECHANDO OS OLHOS DE 
EXAUSTO. - MARINA, PORQUE DEIXASTE ESTE IDIOTA SAIR SOZINHO?
 - OS CAVALOS TINHAM FOME, PAI, PRECISVAMOS DE OS ALIMENTAR.
 - POR ESSES MEIOS?.
 - DEVIA TER MENDIGADO AT ENCHER A CAMISA DE FENO? - GRITOU 
MOUCHKOV. - O MUNDO  MALVADO, VELHOTE, NO SER PIOR POR MINHA 
CAUSA.
 -  VERDADE QUE PODEMOS PENSAR ASSIM - RECONHECEU LOUPIN, QUE 
EXTENUADO, ADORMECEU QUASE IMEDIATAMENTE. - VESTE O FATO DE 
CAMPONS, MEU FILHO - AINDA TEVE TEMPO DE SUSSURRAR.

 DURANTE A NOITE, QUEIMARAM A BATINA DE POPE E TUDO O QUE PUDESSE 
RECORDAR OS COSSACOS. AS BOTAS FORAM AS LTIMAS SACRIFICADAS, 
FEDIAM HORRIVELMENTE AO CONSUMIREM-SE EM CHAMAS.
 - QUANTOS ANOS CAVALGUEI COM ELAS... QUANTO SUOR DE CAVALO AINDA 
ESCORRE POR AQUELAS BOTAS... - COMENTOU MOUCHKOV, MUITO TRISTE, 
OBSERVANDO O LUME. - AS BOTAS CONTORCIAM-SE POR EFEITO DO CALOR, 
COMO SE QUISESSEM FUGIR. - VIRAM O MAR NEGRO, AS ESTEPES DOS 
NOGAIS, AS FLORESTAS DA SIBRIA... E AGORA ARDEM... MOUCHKOV J 
NO EXISTE.
 - EXISTE UM NOVO MOUCHKOV IVANOVITCH - RETOMOU MARINA COM 
TERNURA, DANDO-LHE UM BEIJO NA NUCA. - UM MOUCHKOV MUITO MELHOR.
 - SIM, UM MOUCHKOV QUE SER ARTFICE, QUE TER DE SE CURVAR PARA 
CONSEGUIR EMPREGO! MARINOUCHKA, SEREI CAPAZ DE SUPORTAR?
 - ESTOU CONTIGO, IVAN MATVEIVITCH!
 - E QUE CONTAREI EU, UM DIA, AOS NOSSOS FILHOS? NUNCA VERO AS 
ESTEPES DO DON? NEM AS MANADAS DE CAVALOS DO VOLGA? NEM OS 
CEREJAIS DAS NOSSAS ALDEIAS? NUNCA OUVIRO CHIAR OS RATOS DA 
ESTEPE NA PRIMAVERA? MEUS FILHOS!
 MOUCHKOV APOIOU A CABEA NAS MOS, DE OLHAR FIXO NAS CHAMAS. 
MARINA COMPREENDIA-O MAS MANTINHA-SE EM SILNCIO, DEIXANDO-O 
ENTREGUE AO SEU DESGOSTO, S DESPEDIDAS DO PASSADO. "TEREI DE O 
AMAR COMO NUNCA UMA MULHER AMOU UM HOMEM", PENSOU ELA SENTANDO-SE 
JUNTO DE MOUCHKOV. "SEREI, PARA ELE, UM PAS NOVO, FAREI COM QUE 
ESQUEA A LTIMA DAS RECORDASES."
 NO DIA SEGUINTE DE MANH, TRANSPORTARA, O PAI LOUPIN, ESGOTADO, 
PARA CIMA DO CAVALO, PRENDERAM OS CAVALOS UNS AOS OUTROS POR MEIO 
DE GRANDES CORREIAS E DESCERAM LENTAMENTE AT AO FUNDO DO VALE. 
NO SEU TRAJE DE CAMPONS, MOUCHKOV PARECIA SINGULARMENTE 
ESTRANHO.
 ESTE BRILHANTE CAVALEIRO COSSACO, ENVERGANDO UMA AMPLA CAMISA, 
APERTADA NA CINTURA POR UMA SIMPLES CORDA, APRESENTAVA-SE AGORA 
COMO UM KULAK IGUAL A QUALQUER OUTRO.
 - APETECE-ME CUSPIR NO MEU PRPRIO ROSTO! - EXCLAMOU ELE AO 
MIRAR-SE NAS GUAS LMPIDAS DO TCHOUSOVAIA.
 - AMO-TE - RESPONDEU-LHE MARINA, SORRINDO. OS GRANDES OLHOS 
AZUIS TRANSBORDAVAM DE TERNURA, ENQUANTO O ACARICIAVA COM O 
OLHAR. ELE SENTIA-O NA PELE... - O RESTO POUCO IMPORTA...

 NA ALDEIA DE LASSINEVKA ENCONTRARAM-SE COM OS PRIMEIROS SOLDADOS 
DO CZAR.
 OS SOLDADOS OBSERVAVAM MOUCHKOV, O VELHO E O BONITO ADOLESCENTE 
LOURO, CONTARAM OS CAVALOS QUE TRAZIAM EM FILA E CONFISCARAM TUDO 
EM NOME DO CZAR.
 NO DIA SEGUINTE LIBERTARAM-Nos, mas atriburam-lhes cavalos 
cambaios e cansados e, quando Mouchkov se queixou ao oficial, 
obteve como resposta uma bofetada. Pela primeira vez na vida, no 
retribuiu a afronta, pela primeira vez na vida, deixou-se 
arrastar sob uma chuva de chicotadas, sem lanar imediatamente 
uma operao de represlias.
 Montou o cavalo manco, suspirou, olhou para Marina e Loupin, que 
baixaram a cabea, e perguntou-lhes, em voz baixa:
 - O que  uma vida livre?  isto, velhote? Ah! Quando sonho com 
a liberdade das margens do Don...
 - Estarmos vivos, foi o que ganhmos, meu filho - respondeu 
Loupin. - Agora podem tentar viver a vida o melhor possvel.
 - Eu e Marina, sozinhos?
 - Nunca estaro sozinhos, h milhares de pessoas como vs. 
Mouchkov, ainda tens muito que fazer antes de seres velho como 
eu.

 Lentamente, saram da aldeia. Que vergonha para um cossaco, 
montar um cavalo como aquele! Mouchkov mordia o lbio inferior:
 - Teremos de encontrar novamente uma igreja, provida de cavalos 
bem alimentados... - murmurou em voz surda.
 - Acabou-se, Ivan Matveivitch! - respondeu Marina. - Isso foi 
no passado!
 - Nunca mais chegaremos a Moscovo com estes animais!
 - Nesse caso, trabalharemos pelo caminho para podermos comprar 
bons cavalos! - props Loupin. - O Outono j paira na atmosfera 
e, dentro de quinze dias, sentiremos o odor do Inverno. Todas as 
novas aldeias construdas pelos Stroganov necessitaro de 
lareiras: pensem nisso! Agora, temos tempo.
 Penetraram a cavalo no pas de Perm, apearam-se em aldeias, 
trabalharam para assegurar o po de cada dia. Caaram raposas e 
esquilos, cujas peles vendiam nas feitorias dos Stroganov, onde 
as mais variadas peles se acumulavam.
 Chegou o Outono, acompanhado, como sempre, por fortes chuvadas, 
que deixam os campos saturados de humidade. Mouchkov partia  
caa de castores, em pequenos cursos de gua distantes. Quando 
uivou o vento dos primeiros gelos e a terra endureceu, quando 
caram os primeiros nevSes e por toda a parte constou que, na 
longnqua Sibria, Jermak Timofeivitch conquistara a capital, 
Sibir, quando Mouchkov chorou de alegria e nostalgia ao pensar 
nos seus cossacos e Marina o consolou com toda a seduo do seu 
corpo tpido, macio e branco, o pai Loupin negociou com os 
empregados dos Stroganov, aps muitas discussSes encarniadas, 
injrias e imprecaSes de ambas as partes, um pacote de peles de 
castores e raposas contra trs cavalos e um tren. Rodeado por 
sinos e campainhas, o velho aproximou-se dos filhos, muito ufano 
na sua trica. Abraou Marina e, batendo com os punhos no peito 
do genro, sempre tristonho, disse:
 - Aqui tens, Ivan Matveivitch, esta preciosa trica! Com 
cavalo. So gordos como um bispo e um slido tren de patins 
ferrados! Ganhaste tudo isto!
 - Eu? - perguntou Mouchkov, surpreendido.
 - Quem foi, ento, que caou belos castores, que caou raposas? 
Quem percorreu as florestas, de dia e de noite e espiou os 
animais  beira do rio? Quem trabalhou como uma besta de carga?
 - A minha primeira trica! - Mouchkov dava voltas ao tren, 
beijava os focinhos dos cavalos, abraava-os pelo pescoo. - E 
tudo isto por ter trabalhado! - gritava ele, sentando-se na 
trica. - Nada disto foi roubado,  inacreditvel!
 Pegou nas rdeas, deu um estalido com a lngua e partiu na sua 
trica para dar uma volta pela aldeia. As campainhas tocavam, em 
arco de crculo sobre a sua cabea, os cavalos ostentavam 
pequenos tufos de plumas vermelhas e levantavam os cascos do cho 
como numa parada. O corao de Mouchkov estoirava de felicidade. 
Comeou a cantar em voz alta, de rosto ruborescido pela emoo e, 
por fim, parou diante de Marina e Loupin.
 O pai e a filha estavam de mos dadas  beira do caminho e, ao 
saltar do tren, Mouchkov pensou: "Fiz bem em me submeter a esta 
femeazinha!"


 A 18 de Maro de 1584, num dia morno precursor da Primavera, 
demasiado quente para Moscovo, o czar Ivan IV sentou-se diante do 
tabuleiro de xadrez, em companhia de um dos seus familiares, o 
boiardo Bogdan Bielski.
 A pouca distncia, Boris Godounov recebia embaixadores. Quanto 
ao prncipe Chouisky, vivia dias tranquilos nos seus domnios 
para l de Moscovo, estabelecendo contactos com duvidosos 
boiardos que aliciava e reunia  sua volta, contra Godounov.
 Aps um Inverno clemente, a vida em Moscovo desabrochava como 
uma flor sob o efeito do orvalho matinal. Esse dia de Primavera 
encaminhava os citadinos para as margens do rio Moscova, para as 
florestas e jardins dos mosteiros, onde se podia passear e, ao 
mesmo tempo, ser abenoado.
 O czar olhava fixamente o tabuleiro de xadrez, no qual Bielski 
acabava naquele momento de arriscar uma jogada audaciosa. 
Contudo, a partida ainda no estava perdida, nem o poderia estar, 
pois Bielski sabia exactamente quando podia derrotar o czar ao 
jogo, ou quando se revelava mais sensato deix-lo ganhar. Hoje, 
por exemplo...
 Ivan IV estava plido, o rosto encovado, os olhos incandescentes 
brilhando nas rbitas profundas; os seus lbios pareciam ainda 
mais finos do que habitualmente.

 Pousou as mos agitadas por um leve tremor no rebordo do 
tabuleiro e meditou um pouco:
 - No me provoques, Bogdan - advertiu numa voz surda. - Este 
vento quente fatiga-me...
 - Nada est perdido, gossoudar - respondeu Bielski, 
inclinando-se. - Foi apenas um pio. O que  um pio?
 Ivan ergueu os olhos; o seu olhar agudo penetrou no boiardo como 
uma lana.
 - Perdi muitos piSes, no  verdade? - perguntou ele, 
acabrunhado. - E tambm muitos boiardos, soldados, oficiais, 
amigos. Limpei a Rssia! Purifiquei-a! Mas os ratos 
multiplicam-se de novo e as almas so imortais, tanto as boas 
como as ms! J viste almas, Bogdan?
 - No, Gossoudar - respondeu Bielski numa voz rouca, olhando 
atentamente para o czar. Ivan mudara.
 O seu rosto desagregava-se como se a carne se desprendesse dos 
ossos.
 - Pois eu vi! - declarou ele, sinistro. - Todas as noites me 
procuram, aproximam-se do meu leito e gritam:
"Ivan! Ivan! Porque nos mataste? Olha para ns, no ramos teus 
amigos? Rejeitaste os melhores e conservaste os lobos que 
espreitam a tua morte!" Em seguida, vm sentar-se  minha 
cabeceira e choram. E eu acordo sobressaltado, levanto-me, e 
rezo, rezo, suplico a Deus que me perdoe. Por que no conheces 
nada disto tu, co?
 Com um safano, varreu as peas do tabuleiro de xadrez. Pelo 
rosto plido espalhou-se um suor frio; o seu peito arquejava a um 
ritmo acelerado.
 - Bogdan! Tu tambm me traste!  minha volta, s h hienas, 
abutres que querem alimentar-se da minha carne! Godounov, 
Chouisky, Romanov... Porque ser que Deus no vem em meu auxlio? 
No serei eu um humilde servidor?

 O czar quis levantar-se, mas as pernas no lhe obedeceram. Caiu 
para a frente, apoiando o peito na mesa. Um horrvel estertor 
escapava-se-lhe da boca aberta, tinha os olhos esgazeados...
 - Um mdico! - ofegava o czar. - Bogdan, vai buscar o mdico! 
Sufoco! Deus est a estrangular-me!
 Caiu ao cho, arrancou a roupa que lhe cobria o peito e pousou 
em Bielski um olhar fixo repleto de dio. Mesmo agora, nos 
ltimos instantes, prevalecia a crueldade:
 - Malditos sejam todos! - murmurou, ofegante. - Deus, meu Deus, 
afasta de mim estas almas, que esto de novo  minha volta... 
Reza por mim...
 O prncipe Bielski no se mexeu. Permanecia de p diante de Ivan 
IV, moribundo, e aguardava o seu fim, de mos crispadas.
 S quando o corpo do czar se relaxou e os olhos de guia se 
extinguiram, Bielski correu para a porta e chamou pelo mdico em 
altos gritos.
 Um sentimento de horror e de libertao propagou-se como um 
incndio por todo o Kremlin. Boris Godounov, ajoelhado ao lado do 
defunto czar, orava com fervor. A caminho das terras do prncipe 
Chouisky, partiram emissrios a cavalo, a toda a brida, a fim de 
lhe transmitirem a notcia.
 A ltima czarina, Maria, filha de Teodoro Nagoi, detestada por 
Ivan, por no ser efectivamente capaz de a amar, cobriu-se com um 
vu preto h muito preparado e dirigiu-se para a ala oposta do 
palcio, a Igreja da Ressurreio. Os sinos do Kremlin comearam 
a repicar, alertando os campanrios de todo o pas.
 - Morreu o czar! Que Deus seja clemente! De joelhos, povo, reza 
pela sua alma!
 Sobre Moscovo, pairava o ressoar de centenas de sinos. Os 
habitantes saram para a rua, encheram as praas e dirigiram-se 
depois para a grande praa do Kremlin, onde caram de joelhos.
 - Morreu o czar! Era cruel entre os mais cruis, mas que sabemos 
ns da crueldade do seu sucessor? Foi um pai terrvel. Mas era o 
pai da Rssia... Rezem, rezem, rezem...
 Entre os milhares de indivduos ajoelhados no cho diante do 
Kremlin, rodeados pelo repicar dos sinos e por cnticos 
religiosos, encontravam-se tambm Alexandre Grigorivitch Loupin, 
Mouchkov e Marina. Estavam lado a lado, no cho de terra batida, 
precisamente no local onde Ivan IV mandara, um dia, torturar trs 
mil membros do exrcito permanente. Persignaram-se, de olhar 
erguido para as cpulas de ouro das igrejas, que brilhavam sob a 
muralha do Kremlin, iluminadas pelo sol primaveril.
 - Morreu o czar - murmurou Mouchkov, em voz baixa. - Os cossacos 
sero finalmente agraciados?
 - Que tens tu com isso, Ivan Matveivitch? - perguntou Loupin. - 
No s, h vrios anos, o melhor artfice construtor de fogSes em 
toda a cidade de Moscovo?
 - Apesar de tudo, seria um prazer para mim, velhote. - Mouchkov 
voltou a cabea para Marina, ajoelhada a seu lado, posio 
difcil, pois encontrava-se grvida. Porm, mantinha o seu rosto 
infantil, enquadrado por longos cabelos louros que, neste 
momento, trazia enrolados na nuca. O seu olhar cruzou-se com o de 
Ivan e sorriu, com aquela ternura a que Mouchkov no sabia 
resistir.
 - Agora, somos realmente livres! - disse Loupin.

 - Gostaria de ver o Don mais uma vez! - Mouchkov baixou os 
olhos. - Sim, sou um arteso hbil, mas tambm fui um cossaco; e 
agora, sou o mais pobre de todos eles...
 - E lamenta-lo? - perguntou Marina, pousando as mos no ventre 
dilatado.
 - Podes regressar ao Don, Ivan Matveivitch! - Loupin empurrou-o 
com um dedo. - A criana crescer bem sem ti!
 - Regressar ao Don sem Marinouchka? Velhote, sinto-me bem entre 
os meus fogSes.
 Mouchkov olhou mais uma vez para as cpulas da igreja. Os sinos 
continuavam a tocar, ouviam-se coros por todos os lados; pelas 
portas do Kremlin, abertas de par em par, saa uma procisso de 
sacerdotes, empunhando estandartes e balanando incensrios.

Fim
??



 

 
